Uma extensa reportagem da Revista Piauí, detalhando o uso de equipamentos de espionagem no País, mostra em detalhes como autoridades da Segurança do Amazonas usaram um aparelho chamado GI-2 para extorquir e roubar comerciantes de ouro, além de bisbilhotar a vida de opositores do governador Wilson Lima (União Brasil). O texto diz que ocorreu no Estado o caso mais repulsivo de arapongagem, com o uso mais brutal da tecnologia de que se tem notícia até agora.
O blog reproduz abaixo o trecho da reportagem que se refere ao Amazonas. Confira:
“Tão logo assumiu o poder, em janeiro de 2018, o governador do Amazonas, Wilson Lima (na época do PSC e hoje filiado ao União Brasil), anunciou o nome do novo secretário de Segurança Pública: Louismar Bonates, um coronel da reserva da Polícia Militar. Os especialistas e estudiosos na área de segurança chegaram a pensar que se tratava de uma brincadeira de mau gosto. Afinal, Bonates tinha um currículo demoníaco. Já fora investigado por envolvimento em um grupo de extermínio formado por policiais militares em Manaus – o corpo de uma vítima fora enterrado no sítio de Bonates depois de ser obrigado a cavar a própria sepultura. Além disso, era próximo de Wallace Souza, o apresentador de tevê suspeito de mandar matar pessoas para aumentar a audiência de seu programa Canal livre, exibido na antiga TV Rio Negro. O caso de Wallace Souza, que morreu em 2010, apareceu no documentário Bandidos na TV, da Netflix.
Bonates tinha outra nódoa grave no currículo. Em 2015, quando exercia o cargo de secretário de Administração Penitenciária, ele fez uma reunião na biblioteca de um presídio em Manaus com o líder da facção criminosa conhecida como Família do Norte (FDN). Na reunião, combinou-se uma trégua. A FDN reduziria os homicídios na sua disputa com a facção rival, o Primeiro Comando da Capital (PCC), e em troca receberia tratamento privilegiado na prisão. Para a Polícia Federal, esse acordo fortaleceu tanto a FDN que resultou, em janeiro de 2017, em uma das maiores chacinas penitenciárias da história nacional: 56 mortos.
Quando tomou posse como secretário de Segurança Pública, Bonates passou a ter acesso a um equipamento de espionagem que o órgão havia comprado em 2016 por 6,7 milhões de reais – o GI-2. Dois anos depois de sua posse, chegou ao Ministério Público do Amazonas a informação de que agentes da Secretaria de Segurança estavam extorquindo comerciantes de ouro depois de monitorá-los com o GI-2 e outro programa, conhecido como Guardião. “Na investigação, muitos desses comerciantes de ouro relatavam que os policiais tinham informações muito precisas dos contatos e das rotinas deles”, diz um dos membros do Ministério Público ouvido pela piauí sob a condição de manter sua identidade em sigilo.
Em 25 de janeiro de 2021, um dos empresários, Raimundo José da Cruz Júnior, contou ao 10º Distrito Integrado de Polícia em Manaus que seu motorista transportava 38,5 kg de ouro de origem legal quando foi abordado por dezesseis policiais civis armados. Levado para a Secretaria de Segurança Pública, o motorista foi obrigado a assinar um recibo de restituição do ouro. Era falso. Os policiais civis ficaram com a mercadoria e, dias depois, devolveram apenas 9 kg a Cruz Júnior. Ficaram com 25 kg de ouro, avaliados em 11 milhões de reais.
Ao investigar o caso, o Ministério Público descobriu outra extorsão, dessa vez contra o garimpeiro Wagner Flexa Saita, também monitorado com o GI-2. Em 22 de fevereiro de 2021, apenas um mês depois do achaque ao comerciante Cruz Júnior, o garimpeiro taxiava um avião fretado no Aeroclube de Manaus quando quatro policiais civis armados invadiram a pista e impediram a decolagem, alegando que havia suspeita da presença de drogas na aeronave. A bordo, encontram 7 kg de ouro – de origem legal – e ficaram com 2,2 kg. O garimpeiro denunciou o caso ao Departamento de Repressão ao Crime Organizado da própria Polícia Civil – e logo foi chamado para uma reunião incomum. Bonates e o subsecretário, o delegado Samir Garzedim Freire, queriam conversar com o garimpeiro. Não se sabe o que disseram, mas o fato é que o garimpeiro mudou sua versão, dizendo que havia achado o ouro no avião e que tudo não passara de “um mal-entendido”. Garzedim Freire e mais três policiais são réus em ação penal, acusados de associação criminosa, extorsão e fraude processual. O processo não foi julgado. Bonates não chegou a ser denunciado no caso, mas, desgastado com o episódio, pediu demissão da secretaria.
Segundo suspeitas do Ministério Público, Bonates e Garzedim Freire também usaram o GI-2 para espionar políticos de oposição ao governo. Entre eles, o deputado estadual Péricles Rodrigues do Nascimento, do PL, conhecido como Delegado Péricles. Em 2021, o parlamentar foi relator da CPI da Covid na Assembleia Legislativa que investigou o alto índice de mortes nos hospitais do estado no início daquele ano, em razão da pandemia. “Fui informado por fontes na polícia que eu fui monitorado com o GI-2”, disse Nascimento à piauí. Ele é delegado aposentado e hoje integra a base de apoio ao governador Lima.
Mas as coisas ainda ficariam piores.
Depois de passar vinte dias preso, Garzedim Freire voltou a ser ouvido pelo Ministério Público. A certa altura, deu uma informação gravíssima. Disse que, durante a gestão de Bonates, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas usara o GI-2 para localizar – e depois torturar e assassinar – ribeirinhos ao longo do Rio Abacaxis. A história começou quando o secretário executivo do Fundo de Promoção Social do Amazonas, Saulo Moysés Rezende Costa, fazia pesca esportiva no Abacaxis, uma atividade ilegal na região, e foi hostilizado por indígenas e ribeirinhos. No entrevero, o secretário acabou levando um tiro de raspão. Dez dias depois, dez policiais militares à paisana, encapuzados e armados com fuzis, apareceram na comunidade em busca do autor do tiro. Foram recebidos a bala. Dois policiais morreram e dois ficaram feridos. A vingança veio dois dias depois, na forma de um massacre.
A Secretaria de Segurança mobilizou 130 policiais militares para caçar Valdelice Dias da Silva, o Bacurau, apontado como autor do tiro de raspão. E fez toda a operação com o uso do GI-2, segundo Garzedim Freire. Como prova, entregou o termo de retirada da maleta do equipamento pela PM. O aparato localizou os ribeirinhos e monitorou seus movimentos. Durante dez dias, de 4 a 14 de agosto de 2020, os policiais, usando balaclavas e sem identificação nas fardas, percorreram as comunidades ribeirinhas aterrorizando os moradores: dezenas de homens e mulheres torturados (alguns foram sufocados com sacos plásticos na cabeça, outros foram ameaçados com fogo depois de terem o corpo embebido em gasolina), crianças foram trancafiadas por vários minutos dentro de freezers, três casas foram incendiadas em aldeia indígena e oito pessoas foram assassinadas – dois corpos seguem desaparecidos. Em razão da barbárie, a Polícia Federal indiciou Bonates e o comandante da PM na ocasião, coronel Ayrton Norte, por homicídio, tortura, associação criminosa, cárcere privado e obstrução de Justiça. Até o fim de novembro, Bacurau seguia foragido.
A Polícia Federal apreendeu o GI-2 e encaminhou para o Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília. A perícia confirmou que o GI-2 consegue captar conversas telefônicas e encontrou registros de uso do equipamento de 2015 até julho de 2021, mas não obteve dados de quais telefones foram interceptados. As ferramentas, então, foram devolvidas à Secretaria de Segurança e continuam sob uso da corporação policial. Em julho de 2022, a Polícia Civil fez outro negócio com a Cognyte: comprou, por 6 milhões de reais, uma maleta capaz de monitorar telefones satelitais, muito comuns na Amazônia devido à escassa cobertura de sinal dos celulares convencionais. A ferramenta é semelhante ao GI-2 e, segundo a proposta comercial da empresa enviada ao governo amazonense, intercepta chamadas de voz e de SMS.”
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