O palmito de Natal

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Por Heloísa Xaud*

Todos nós temos um causo de Natal que sempre nos traz à lembrança momentos marcantes na nossa vida. É na nossa infância que ficam as marcas mais significativas desta fase da nossa jornada. Passagens essas que todos os anos retornam ao pensamento, fazendo-nos reviver aqueles momentos, alguns felizes, outros nem tanto, mas que continuam a povoar o nosso consciente e a influenciar o nosso estado de espírito nesta especial fase do ano.
Lembro uma certa vez, enquanto minha mãe se debruçava em uma maquina de costura
fazendo nossas roupinhas para os festejos natalinos. Nossa vizinha, D. Maria, mulher abastada, esposa de um rico bicheiro na Baixada Fluminense, ficava fazendo tortas, rabanadas, maioneses e um bicho enorme ficava assando no quintal, bicho este que eu
mal saberia dizer o nome.

Em um certo momento, D. Maria resolveu colocar algumas guloseimas na boca das crianças que ali brincavam, e eu, gulosa como sempre, já me colocava na fila pois ela havia aberto a lata de um negocio chamado PALMITO. Nunca havia conhecido tal guloseima, que parecia suculenta, cheirosa e apetitosa. Todos experimentaram a novidade, mas quando chegou a minha vez ela me deu simplesmente uma azeitona e eu lembro que senti uma sensação muito ruim, uma angustia, como se tivesse sido sugada Isso mesmo…….fui deixada de lado por uma azeitona e essa experiência me atormentou o resto da vida. Por que fui deixada de escanteio? Criança é sempre muito perspicaz e observa tudo com a maior sinceridade possível e ser jogada de escanteio não é uma atitude coerente. Não tem nada pior que isso e eu vi meu grupinho de amigos felizes comendo seus palmitos e eu não.

É normal você querer fazer parte de um grupo, sentir que é aceita, que como criaturas sociáveis, somos beneficiados por nos relacionarmos uns com os outros..Pode ser muito desapontador ser excluído vez após vez ou sentir que não está à altura dos padrões de quem você quer ser amigo. Existem panelinhas de pessoas que se divertem muito, mas dá para perceber que elas acham que você não é bom o suficiente para estar com elas. Quando outros o deixam de lado, você acaba se sentindo sozinho e excluído.

Às vezes você pode se sentir sozinho mesmo no meio de uma multidão e tem pessoas que dizem se sentirem sozinhas no meio de uma reunião social. Alguns se sentem sozinhos até em assembleias e congressos. Parece que todo mundo conhece todo mundo e eu não conheço ninguém e por anos fiquei pensando porque D. Maria não quis me dar um pedaço do palmito. Será porque eu era gordinha? Será porque eu era a mais humilde das crianças? Será que havia acabado e só tinha azeitonas? Não sei, mas esse palmito me atormentou por muitos anos, pois eu sentia que ele vinha me buscar nas noites frias de inverno e eu me cobria toda.

Ser ignorado é uma das piores sensações que existem na vida. Eu conheço isso muito bem. Hoje esse Palmito mudou de nome ( talvez para me enganar), se chama PUPUNHA e acho que meu trauma já acabou.

Logo, Natal é, sem sombra de dúvida, uma festa de amor, de compreensão e de paz, sentimentos que devemos preservar entre amigos, vizinhos, colegas de trabalho e que as crianças conseguem nos transmitir melhor do que ninguém. Não deixe de oferecer PALMITOS …..ou…. PUPUNHA….Feliz Natal!

*A autora é mestre em Psicologia Social das Organizações e psicóloga da  Fundação Alfredo da Matta

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