Por Lourenço Braga*
lourencodossantospereirabraga@hotmail.com
Meu nobre amigo Euler Ribeiro, idealizador da nossa Universidade Aberta para a Terceira Idade, que dirige, como primeiro reitor, com o carinho da dedicação de uma vida, diz-me, no comentário de um minuto que hoje me enviou, que o mês de junho, tradicional por abrigar tantas festas, de Santo Antônio, São João, São Pedro, dos festivais folclóricos, de Garantido e Caprichoso, é para ter por símbolo a cor lilás e que foi escolhido para representar a necessidade de se respeitar os idosos, que às vezes são esquecidos, relegados a planos menores da vida diária, e alguns, infelizmente nem poucos, maltratados e até violentados física, mental, econômica, financeira e sexualmente. E conclui com frase lapidar: “Vamos proteger as pessoas que tiveram o privilégio do envelhecimento, tocando nelas somente com amor, nunca com dor.”
Provocado por essa demonstração de afeto, por esse grito em prol do respeito à dignidade da pessoa humana dos que tanto já viveram e já ensinaram, dos que aprendem todos os dias até na solidão, no descompasso do abandono, no escuro do esquecimento, próprio e de quem não os deveria esquecer, tomei-me de ânimo para trazer uma quase poesia, assim:
REVISITANDO
A revista folheada
página amarelada
letras que nem mais lia
com ela fora deixada
por sua filha um dia
quando a veio abraçar
e cada fotografia,
que era só o que via,
dava vontade de chorar.
Bem grande a saudade
do tempo que foi embora,
de ver a chuva lá fora,
as estrelas e o luar,
hoje, pura maldade,
sua felicidade
resume-se em esperar
presa a uma cadeira
com rodas que são esteira
pra lhe permitir caminhar.
Neste domingo, quem sabe,
antes que o dia acabe
a filha virá visitar;
tanto que a moça trabalha
às vezes se atrapalha
como da última vez,
está fazendo um mês,
que ficou a aguardar
e a menina não veio
porque pra não fazer feio
optou por descansar,
foi o que lhe disse depois
um dia ou mesmo dois
ligando do celular.
Já pediu, talvez insista,
que traga outra revista
pra ela poder olhar
que sejam novas as fotos
de tempos nem tão remotos
bastante pra atualizar,
até dará o dinheiro
como fez o tempo inteiro
quando podia educar.
Diminui a solidão
acalenta o coração
ajuda o tempo passar
e cada folha olhada
entre lágrimas contidas
e cores de despedidas
será página virada
do direito de sonhar.
*Advogado, professor e membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas
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