A expressão cultural Gambá foi reconhecida nesta quinta-feira, 28, como Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas pelo Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Amazonas (Copham), vinculado à Secretaria de Estado da Cultura. O reconhecimento, concedido de forma provisória com validade de seis meses, marca um momento histórico: é o primeiro bem de natureza imaterial registrado no Amazonas seguindo os procedimentos estabelecidos pelo Decreto Estadual 29.544/2010.
Para o mestre Ismael Rodrigues Pereira Filho, o reconhecimento do Gambá representa honrar todo o conhecimento de um povo negro, indigena e ribeirinho que lutou tanto e não conseguiu presenciar esse momento histórico para a cultura do Amazonas.”É mais uma página escrita com muito amor, entusiasmo e esperança para quem defende esse bem”, disse.
O pedido de registro tramitava há quase 15 anos sem conclusão. Em 2023, detentores procuraram o Iphan e a partir de uma visita técnica a Maués em agosto de 2024 a mobilização ganhou força, com o encontro com fazedores de cultura e a apresentação do Boi Pavulagem, reacendendo o diálogo com os detentores.
Desde então, o Iphan acompanha de perto a articulação que culminou na carta assinada pelos Mestres e Mestras Gambazeiros solicitando o registro urgente, entregue ao Copham em maio de 2026. “Muitos mestres faleceram ao longo dos últimos anos e o grupo tinha receio de que a prática do gambá fosse extinta. Embora o reconhecimento não seja em nível nacional, o Iphan ajuda tecnicamente, orienta e se relaciona com vários bens existentes em nosso estado”, explicou a Beatriz Calheiro, superintendente do Iphan no Amazonas e conselheira titular do Copham.
O que é o Gambá
O Gambá é uma das manifestações culturais mais antigas do Amazonas. De origem afroindígena, com registros históricos que remontam ao século XIX, a expressão é caracterizada pela relação indissociável entre música, dança, oralidade, espiritualidade e práticas coletivas de sociabilidade. Seu instrumento principal – o tambor de gambá, feito de tronco escavado de madeiras amazônicas como itaúba ou cupiúba, coberto com couro de veado – é tocado pelos Mestres e Mestras, que se sentam sobre ele e percutem com as duas mãos. A sonoridade se completa com o caracaxá, espécie de reco-reco, e o tamborinho, da família das caixas guerreiras europeias.
A manifestação está presente em comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas do interior do Amazonas, com ocorrência mapeada pela pesquisa “Os argonautas do Baixo Amazonas”, de Cristian Pio Ávila, pela professora Leina Tavares e outros pesquisadores, nos municípios de Maués, Barreirinha, Borba, Boa Vista do Ramos, Novo Aripuanã e Manaus, além de registros no Médio Rio Negro e em comunidades do Pará na divisa com o Amazonas. Seus detentores são os Mestres e Mestras Gambazeiros (as), responsáveis pela transmissão geracional dos cantos, danças, e do saber de confeccionar e tocar os instrumentos.
A urgência do registro foi reforçada pelos próprios detentores na carta entregue ao Copham, que alertam para os riscos de descontinuidade da prática: ausência de políticas públicas de salvaguarda, redução dos espaços de transmissão e o falecimento de mestres fundamentais para a continuidade do bem, como Mestre Barrô, falecido em 2021, e Mestre Humberto Souza, falecido em 2025.
Um ato histórico e político
Conforme o parecer técnico elaborado pelo conselheiro suplente Rafael Azevedo, coordenador técnico do Iphan, o registro do Gambá vai além do reconhecimento cultural. É também um ato político no campo do patrimônio imaterial do Amazonas.
“Apesar de aproximadamente 15 anos da promulgação do Decreto Estadual 29.544/2010, nenhum bem imaterial havia sido registrado no Amazonas seguindo seus procedimentos até hoje”, declarou Rafael, citando que mais de 125 bens foram declarados patrimônio imaterial pela Assembleia Legislativa do Amazonas por meio de decretos, sem atender aos procedimentos legais e sem ações de salvaguarda associadas, conforme pesquisa de Thaís Lima Trindade publicada em 2025, citada no parecer.
Com o registro feito pelo Copham, há garantia de compromisso efetivo com a proteção do bem, com a formação de instâncias de governança, elaboração participativa de um plano de salvaguarda e monitoramento contínuo.
Antonio Simões, do grupo Puxirum, disse que o sentimento é de gratidão. “O reconhecimento do Gambá é uma conquista dos próprios detentores. É o reconhecimento de nossos ancestrais e de toda a população amazonense que, mesmo com todas as dificuldades, resiste lutando para que a nossa cultura seja valorizada”, afirmou.
Próximos passos
O registro provisório marca o início de um processo mais amplo. Um grupo de trabalho formado por representantes do Copham, do Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria de Estado de Cultura, do Iphan, pesquisadores e Mestres e Mestras Gambazeiros (as) vai planejar o 1º Encontro Estadual de Salvaguarda do Gambá. O encontro prevê inventário e mapeamento participativo, elaboração de um plano de salvaguarda e formação de um coletivo deliberativo, seguindo a mesma metodologia das oficinas de salvaguarda realizadas pelo Iphan com outros bens imateriais do Amazonas.
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