Como um vereador emparedou o governador a ponto de faze-lo desistir de ser candidato a senador depois de ser abandonado pela família Bolsonaro

Por trás da decisão do governador Wilson Lima (União) de desistir de disputar a eleição deste ano estão vários fatores – da desconfiança em relação ao vice-governador Tadeu de Souza (Progressistas) ao mau desempenho nas pesquisas para o Senado. Mas as anotações do senador Flávio Bolsonaro (PL) mostraram um motivo ainda mais forte para a desistência: o partido preferiu manter em seus quadros o vereador Sargento Salazar do que aliar-se ao chefe do Executivo Estadual.

Desde a sua reeleição, em 2022, Wilson Lima fez questão de se apresentar como um político de direita. Participou de várias manifestações convocadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, fez questão de visitar este no hospital em Manaus, depois de uma indisposição e postar a visita como um grande trunfo nas redes sociais e abriu um generoso espaço para o presidente regional do PL, Alfredo Nascimento, em sua administração, a ponto de lhe entregar o comando de nada menos que três órgãos estaduais, inclusive a cobiçada Previdência.

Todo esforço para se apresentar como bolsonarista começou a ruir em 2024, quando o governador decidiu lançar a candidatura a prefeito de Manaus do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Roberto Cidade, seu correligionário. Ele fez muita força para que o deputado federal Capitão Alberto Neto (PL) desistisse da disputa, mas não conseguiu. O resultado foi péssimo: o candidato de Wilson chegou em quarto lugar e o de Bolsonaro foi ao segundo turno.

Alberto Neto perdeu a eleição para David Almeida (Avante), mas saiu da eleição com bom capital político, o que o cacifou para disputar o Senado este ano. Também trouxe a tira-colo duas novidades: sua vice, a empresária Maria do Carmo Seffair, que trocou o Novo pelo PL, conseguiu a benção dos Bolsonaro para disputar o Governo do Amazonas e o vereador mais votado do grupo tornou-se a maior pedra no sapato de Wilson Lima. Salazar passou a liderar todas as pesquisas para deputado estadual, deputado federal e chegou a aparecer bem até na corrida pelo Senado.

Na hora de cobrar a fatura pelo espaço concedido ao PL em seu governo, Wilson bateu com a cara na porta. As anotações do presidenciável Flavio Bolsonaro comprovam isso. Ao lado do nome do governador estava a expressão “80% de impopularidade”. E a referência ao Sargento Salazar dizia que o partido o perderia se houvesse aliança com Wilson. Para piorar, o senador Plínio Valério aparecia no documento como integrante do grupo e possivelmente filiado ao partido da família.

Todo o planejamento de Wilson para disputar o Senado travestido do manto de conservador e bolsonarista ruiu e ele não conseguiu mais enxergar uma chance real de vitória, já que, do outro lado, ele esbarraria no domínio que o senador Eduardo Braga (MDB) tem do interior. A desistência, então, foi o único caminho.

O governador tentou diversas vezes se aproximar de Salazar, pessoalmente ou por meio de aliados. Não conseguiu porque o vereador guarda mágoa das perseguições que sofreu quando ainda estava na Polícia Militar. E também porque o grupo que cerca o parlamentar enxergou na oposição a Wilson e ao prefeito David Almeida uma chance de crescer, bater recordes de votos este ano e depois tentar voos mais altos.

O preço da perseguição ao vereador, que nos círculos íntimos de Wilson é colocado na conta do secretário de Segurança, o coronel Vinícius Almeida, talvez tenha sido o precoce fim de carreira do governador.

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Este post tem um comentário

  1. Adão José Gomes

    Hiel Levy, o texto me chamou atenção por um motivo específico: você entregou, sem perceber, um manual de análise de marketing político.

    O que me fascina aqui não são os personagens. São as ferramentas. O que o seu texto documenta é o momento exato em que um banco de dados fala mais alto do que qualquer aliança informal. As anotações citadas no seu texto — com percentuais de impopularidade, nomes, posicionamentos — são o resultado de coleta sistemática, cruzamento de dados e análise comparativa ao longo do tempo. Alguém guardou tudo. Alguém analisou tudo. E na hora certa, os números falaram sozinhos.

    Isso é marketing de precisão. Não é intuição, não é faro político — é dado acumulado que, em determinado momento, se torna irrefutável. Qualquer candidato, em qualquer estado, em qualquer eleição, está sujeito a esse mesmo julgamento silencioso que os números fazem antes de qualquer reunião acontecer.

    O que o seu texto prova é simples e poderoso: quem controla o dado, controla o timing. E timing, na política, é tudo.

    Guardo esse texto como referência de análise aplicada.

    Verificação: Nafesta + Adão Gomes, MTB-000191/AM, protocolo AZR-BRS v2.0 AZR Híbrido. Strategic Foresight & Cognitive Governance. MBA IA — La Salle University. SNCPI ativo. Fundador portal mais antigo AM (desde 2000). +80.000 matérias, zero processos. “A tecnologia executa, o autor conduz.” http://www.nafesta.com.br

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