Arthur conta a história do pai para se posicionar sobre a ditadura

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), fez uma postagem nos primeiros minutos de hoje, para se posicionar sobre o golpe militar de 1964. Ele contou a história do pai, Arthur Virgílio Filho, que teve o mandato cassado pelos militares, para explicar por que considera que a intervenção instalada naquele ano instalou mesmo uma ditadura no Brasil.

Confira o texto completo:

“Meu pai faleceu em 31 de março de 1987. Tinha apenas 66 anos. Foi vitimado por um câncer de próstata, que virou metástase. Sofreu muito, mas enfrentou o calvário com altivez e muito senso de realidade. Sabia que o fim se aproximava e conversava conosco, aberta e corajosamente, sobre a morte. Cada vez dava mais orgulho a todos que convivíamos com ele.

Meus irmãos e eu fazíamos rodízio naquelas noites tristes. Em certa madrugada, fumante inveterado que era, pegou um cigarro e ficou procurando um isqueiro com os olhos. Notou que fiz cara de censura e ele, fitando os meus olhos, disse: “meu filho, você bem sabe que estou morrendo de outra coisa, não por fumar”. Meus olhos se encheram de lágrimas e foi com o rosto molhado que procurei e achei o tal isqueiro.

Meu pai e minha mãe, Isabel Victória, se tinham separado. Ela não lhe faltou nessa despedida tão dura. Ele vivia com Marlene, uma senhora viúva que também foi uma leal companheira. As duas se revezavam nos cuidados a ele, fato que me fez entender ainda mais a grandeza de nossa mãe. Fato que também me fez ficar para sempre grato à companheira que o acompanhou até o último sopro de vida.

Parlamentar brilhante, além de ter logrado tornar-se um nome nacional, foi igualmente o autor do projeto de lei que criou a Universidade Federal do Amazonas no formato e na projeção que ela tem hoje. E, junto com seu grande amigo Almino Affonso, colega de Congresso e de bancada amazonense, promoveu feroz obstrução às tentativas diárias de votação do Orçamento da União. Só pararam a luta quando o governo federal concordou em inserir na peça orçamentária os recursos necessários à eletrificação de Manaus. Foi uma luta dos dois e do governador Gilberto Mestrinho.

Penso que esses dois feitos bastam para imortalizar Arthur Virgílio Filho como um dos maiores e melhores amazonenses de todos os tempos.

Teve sua carreira vitoriosa interrompida brutalmente pelo Ato Institucional número 5, que lhe cassou o mandato de senador e lhe suspendeu os direitos políticos por dez longos anos. Seu “crime”: não aceitar o regime autoritário que se impôs obviamente pela força.. Eram anos de trevas e arbítrio e meu pai jamais silenciou em sua luta por liberdade.

Os tempos agora são outros. O país amadureceu. Os militares se tornaram guardiães da democracia e da Constituição, são parecidos com o grande brasileiro General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas. Todos mudamos em alguma coisa, para construirmos um país sem censura, sem violência, sem divisões entre irmãos. Conversei muito sobre isso com o senador e ministro Jarbas Passarinho, de quem fomos adversários, meu pai, num momento, e eu em outro. Jarbas era exemplo de grandeza e senso de justiça.

Discordei da decisão do presidente Bolsonaro, que ordenou que se comemorasse nos quartéis o 31 de março, dia em que estourou o movimento militar de março/abril de 1964. Essa volta ao passado não constrói. A anistia veio para que uns perdoassem os outros, depois de 21 anos de chumbo.Vejam que não me refiro a esquecer e sim a perdoar. Não esqueço o que passei e vi meu pai sofrer. Não esqueço as lágrimas de minha mãe, a angústia dos meus irmãos.

Não há mesmo o que comemorar. O rancor não leva a porto justo e seguro.

Partilho com vocês a saudade que não desaparece e o orgulho que tenho daquele caboclo culto e valente, que fez da sua tribuna uma trincheira de luta pelo nosso povo.

Tomara que ele, lá de cima, consiga ler o que ora escrevo. Tomara que ele saiba como seu nome é respeitado, como sua obra fez história, como seu filhos o amam em densidade desmedida.

Meu pai morreu duas vezes: a primeira, quando o arbítrio lhe interrompeu a brilhante trajetória política; a segunda, quando seu coração parou de bater para sempre. 
Boa noite a todos.”

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Este post tem um comentário

  1. Ney M Cardoso

    O golpe de 64 foi uma exigência da população brasileira. O Brasil precisa se exorcistar da política do jeitinho brasileiro e do rouba mais faz. E atendendo o pedido da população e respeitando a Constituição Federal do Brasil os militares deram um basta. Viva o Brasil. Viva a democracia, viva a Constituição Federal do Brasil.

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