A fábrica da insatisfação: como aprendemos a trocar o que ainda funciona

Outro dia eu vi no meu feed um vídeo muito interessante e até compartilhei (fato raro). Nele uma jovem muito bonita fazia o seguinte questionamento: Você repete roupa? Tipo em eventos, em momentos especiais? E você repara em quem repete roupas? Comenta de imediato durante o evento mesmo com a pessoa ao lado ou publica nas redes sociais? A reflexão chamava a atenção para o fato que nos tornamos juízes da vida alheia sem perceber. Puxão de orelha bem pertinente para os dias atuais. A moça finalizava dizendo que tem gente que repete a roupa sem se importar com julgamentos. Mas não repete a arrogância, a humilhação ou a ingratidão. Ou seja, gente que consegue sim, na nossa sociedade globalizada, estar preocupada em SER mais humano (espiritual) do que mostrar para os outros o que TEM de bens (materiais).

A reflexão me chamou tanto a atenção, para além da filosofia de vida, que fui pesquisar o que acontece no mundo em relação à questão da “durabilidade de produtos”. A União Europeia, por exemplo, implementou um marco regulatório histórico que combate a obsolescência programada e promove a durabilidade. As legislações incluem o Direito ao Reparo, exigência de peças por até 10 anos, e regras rigorosas contra a publicidade enganosa (greenwashing).

Eis os Principais Pilares da Legislação Europeia:

  • Direito ao Reparo: A Diretiva de Promoção da Reparação garante o conserto de bens (como smartphones, geladeiras e aspiradores) mesmo fora da garantia legal. Fabricantes são obrigados a priorizar o conserto em vez da substituição e fornecer peças de reposição por até uma década.
  • Combate à Obsolescência: A Lei n.º 28/2023 e as diretrizes do Parlamento Europeu proíbem qualquer técnica deliberada projetada para reduzir a vida útil de um produto visando forçar o consumidor a comprar um novo.
  • Fim do Greenwashing: A Diretiva (UE) 2024/825 combate alegações ambientais e de durabilidade infundadas. Marcas passam a ser proibidas de destruir roupas, calçados e acessórios não vendidos.
  • Ecodesign para Produtos Sustentáveis: Exige que produtos vendidos no bloco sejam fabricados para durar, gastar menos energia e permitir fácil desmontagem para reciclagem. Informações sobre garantias devem ser altamente visíveis para promover compras conscientes.

E quando tudo isso começou? Seu avô comprava uma geladeira para durar trinta anos. Seu pai comprava um carro para passar aos filhos. Você troca de celular a cada um, dois ou três anos. A pergunta é simples: Quem ficou mais rico?

Vivemos em uma época curiosa. Temos mais bens materiais do que qualquer geração da história e, ao mesmo tempo, parecemos cada vez mais ansiosos, endividados e insatisfeitos. A sensação é de que nunca temos o suficiente. Sempre falta o modelo mais novo, a versão mais recente, a atualização seguinte.

Mas isso não aconteceu por acaso. Em 1924, grandes fabricantes de lâmpadas criaram o chamado Cartel Phoebus. O objetivo era simples: reduzir a vida útil dos produtos para aumentar as vendas. Nascia ali um dos exemplos mais conhecidos da chamada obsolescência programada. O princípio era revolucionário: em vez de fabricar produtos para durar, seria mais lucrativo fabricar produtos para serem substituídos.

Décadas depois, essa lógica ultrapassou as fábricas e entrou em nossas mentes. O psicanalista e filósofo Erich Fromm, em sua obra Ter ou Ser?, percebeu a transformação antes de muitos. Ele escreveu:

“Se eu sou o que tenho e perco o que tenho, quem sou eu?”

A pergunta continua causando desconforto porque atinge o coração da sociedade de consumo. Nossa identidade passou a ser construída por aquilo que possuímos. Não compramos apenas objetos. Compramos uma imagem de nós mesmos.

Foi exatamente aí que entrou Edward Bernays, considerado o pai das relações públicas modernas. Em seu livro Propaganda, ele afirmou:

“A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizadas das massas é um elemento importante da sociedade democrática.”

Bernays compreendeu algo fundamental: as pessoas não compram apenas por necessidade. Compram por desejo, prestígio, pertencimento e reconhecimento. A publicidade deixou de vender produtos. Passou a vender sonhos. Incluindo aí a publicidade política.

Mais tarde, o sociólogo francês Jean Baudrillard aprofundou essa crítica. Em A Sociedade de Consumo, escreveu:

“Nunca consumimos o objeto em si, mas o signo que ele representa.”

Um relógio não vende apenas horas. Um carro não vende apenas mobilidade. Um smartphone não vende apenas tecnologia. Eles vendem status, identidade e distinção social. No século XXI, porém, a publicidade ganhou um aliado muito mais poderoso: os algoritmos. Eles observam nossos hábitos, emoções, inseguranças e desejos em tempo real. Sabem o que pesquisamos, o que curtimos e até quanto tempo paramos diante de uma imagem. Não precisam nos obrigar a comprar. Basta nos convencer de que estamos ficando para trás.

O filósofo sul coreano Byung-Chul Han descreveu esse mecanismo em Psicopolítica:

“O poder inteligente não se impõe. Ele seduz.”

Essa talvez seja a forma mais sofisticada de controle já criada. Não somos forçados. Somos convencidos. E enquanto acreditamos estar exercendo nossa liberdade de escolha, seguimos exatamente os caminhos desenhados para nós.

Séculos antes de tudo isso, Aristóteles já havia alertado, na Ética a Nicômaco:

“A felicidade depende de nós mesmos.”

É uma frase simples, mas devastadora para uma economia que depende da nossa permanente insatisfação. Porque uma pessoa verdadeiramente satisfeita compra menos. Uma pessoa que sabe quem é torna-se mais difícil de manipular. Uma pessoa que encontra sentido na vida precisa de menos símbolos para provar seu valor. Talvez seja por isso que a sociedade moderna tenha aperfeiçoado tanto a arte de fabricar desejos. Afinal, uma população satisfeita é ruim para os negócios.

E aqui está a pergunta que ninguém parece disposto a fazer: Se a tecnologia evoluiu, a produção aumentou, os produtos ficaram mais abundantes e temos acesso a mais coisas do que qualquer geração da história, por que continuamos nos sentindo incompletos?

Talvez porque o mercado tenha descoberto um segredo extraordinário: É mais lucrativo vender insatisfação do que vender produtos. E talvez a maior obsolescência programada do século XXI não esteja nos celulares, nos carros ou nos eletrodomésticos. Talvez ela esteja sendo aplicada silenciosamente em nós. Somos treinados para descartar o telefone que funciona. A roupa que ainda serve.

O carro que ainda anda.

E, pouco a pouco, aprendemos a descartar também ideias, princípios, pessoas, família, relacionamentos, convicções e até nossa capacidade de reflexão. A máquina não produz apenas consumidores. Produz pessoas permanentemente insatisfeitas. Porque o consumidor que está satisfeito para de comprar. Mas o insatisfeito compra para sempre.

E você? Repete a roupa em eventos importantes?

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Este post tem um comentário

  1. Adão José Gomes

    Meu amigo Warly, li o seu texto e gostei muito. Considero que a principal virtude do artigo está em conectar comportamento, consumo e reflexão crítica sem cair em simplificações. Você parte de uma situação aparentemente banal — repetir uma roupa — para provocar uma discussão muito maior sobre a cultura da substituição permanente e da insatisfação fabricada.

    Também achei muito feliz a forma como você dialoga com autores como Erich Fromm, Jean Baudrillard e Byung-Chul Han, mostrando que hoje consumimos não apenas produtos, mas símbolos, pertencimento e reconhecimento social. A mensagem que fica é poderosa: talvez o problema não esteja na roupa que repetimos, mas na facilidade com que passamos a descartar ideias, valores, relações e até nossa capacidade de refletir.

    Seu texto nos lembra que, em tempos de algoritmos e hiperconsumo, preservar a autonomia de pensamento pode ser um dos maiores atos de liberdade.

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