Faço parte da última geração que viveu sem internet e sem os extraordinários avanços tecnológicos das últimas décadas, o celular, por exemplo. Mas tem uma coisa que sempre me incomodou com toda essa tecnologia que passou a andar no bolso de cada um de nós: o fim do “limite” entre o horário profissional e o horário da vida privada. Antes tínhamos isto muito claro. Oito horas por dia, 40 horas semanais e fim de semana para lazer e família. O rompimento veio quando o meu cliente passou a ligar depois das 17h solicitando resultados ou demandando novas tarefas. Quando percebi já estava respondendo questões até de madrugada. Ou seja, o limite evaporou diante da necessidade de “satisfazer” aquele que me sustentava.
Há uma pergunta silenciosa que atravessa séculos, mas que raramente ousamos encarar: quanto da nossa vida estamos trocando simplesmente para continuar vivos?
O ser humano venceu a fome ancestral, domesticou a natureza, criou tecnologia, multiplicou riqueza. Ainda assim, milhões acordam antes do sol, enfrentam horas de transporte, passam o dia produzindo, voltam exaustos, apenas para repetir o ciclo no dia seguinte. Não para prosperar. Não para contemplar. Não para crescer. Apenas para sobreviver. Como escreveu Karl Marx, o trabalhador moderno corre o risco de se tornar “alienado”, separado do fruto do próprio trabalho, da própria essência e do próprio tempo de vida. Hoje, talvez a alienação tenha se tornado mais sofisticada: não sentimos correntes nos pés. Sentimos boletos na mesa. Pior, milhões e milhões vivem no automático, alheios às discussões e decisões que afetam sua vida no dia a dia. Na maioria das vezes para pior.
A vida está sendo paga em parcelas. E no contexto do Brasil, a ironia é brutal: calcula-se que o cidadão produtivo trabalhe cerca de 5 meses por ano apenas para pagar impostos. Há até o chamado “Dia da Liberdade de Impostos”, que costuma chegar no fim de maio. Cinco meses. Quase metade do ano dedicada exclusivamente a sustentar a máquina pública. E o que retorna? Programas assistenciais essenciais para milhões (vale gás, bolsa família, pé de meia) que, embora necessários, também revelam uma engrenagem paradoxal: o mesmo sistema que consome a maior parte da energia produtiva do país, devolve migalhas para garantir a sobrevivência mínima, material e intelectual e… VOTOS. Afinal quem vive trabalhando no automático ou vive de “benefícios” do governo, NÃO PENSA. Não é a isso que se chama “escravidão”?
Não é uma conspiração. É algo mais inquietante: uma estrutura normalizada. A filósofa Hannah Arendt já alertava em A Condição Humana que a sociedade moderna transformou o ser humano em animal laborans: uma criatura cuja existência gira quase exclusivamente em torno do trabalho necessário para manter o processo da vida. Trabalhar deixou de ser meio. Tornou-se ambiente.
Agora observe o contraste. Em alguns países desenvolvidos (nenhum comunista), médicos passaram a prescrever férias. Sim, férias. Como tratamento.
Burnout, ansiedade, depressão, doenças autoimunes, colapsos cardíacos… A ciência começa a admitir o que a filosofia já suspeitava: o excesso de trabalho adoece o corpo e a mente. Ou seja, o descanso virou luxo revolucionário.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, descreve nossa época como a era do esgotamento. Não somos mais explorados por um tirano visível; tornamo-nos exploradores de nós mesmos.
“O explorador é ao mesmo tempo, o explorado.”
Não há chicote. Há metas.
Não há senhor. Há produtividade.
Não há prisão. Há performance.
E o resultado? Uma sociedade que dorme mal, adoece cedo e chama isso de “sucesso”.
Enquanto o corpo sobrevive. A alma espera. O filósofo Friedrich Nietzsche provocou:
“Quem não tem dois terços do dia para si é escravo.”
A frase soa exagerada até percebermos que a maioria das pessoas possui apenas algumas horas fragmentadas para viver de fato. O resto é vendido em blocos de oito, dez, doze horas.E então surge a pergunta incômoda: Se todo o nosso tempo é gasto garantindo a sobrevivência do corpo, quando exatamente vivemos a vida da mente, do espírito, da contemplação? O que estamos produzindo além da exaustão?
Em Vigiar e Punir, Michel Foucault mostrou como as sociedades modernas criaram sistemas de disciplina invisíveis, estruturas que organizam horários, espaços e comportamentos até que a obediência pareça natural. Hoje, não precisamos de guardas. Temos relógios, metas, aplicativos, boletos e prazos. A pergunta deixou de ser “quem nos domina?” A pergunta tornou-se mais perturbadora: por que aceitamos essa forma de vida como inevitável?
Em 1930, o economista John Maynard Keynes escreveu Economic Possibilities for our Grandchildren. Ele previa que, com o avanço tecnológico, trabalharíamos cerca de 15 horas por semana. A tecnologia chegou. A riqueza cresceu. A produtividade explodiu. Mas o tempo livre… desapareceu. Talvez porque a promessa nunca foi sobre libertar o ser humano e sim sobre tornar o sistema mais eficiente.
Muito antes da revolução industrial, Aristóteles já fazia uma distinção que hoje soa quase subversiva. Em Ética a Nicômaco, ele afirma que “trabalhamos para ter lazer”, porque é no tempo livre que florescem a filosofia, a arte, a amizade, a política e a busca do sentido da vida. Para os gregos, viver apenas para trabalhar era sinal de vida incompleta, quase servil. O trabalho era meio; o fim era a contemplação. Dois mil anos depois, a pergunta é inevitável: em que momento invertemos essa lógica e passamos a viver apenas para continuar trabalhando?
Se trabalhamos a maior parte da vida apenas para continuar trabalhando…
Se adoecemos pela rotina que deveria nos sustentar… Se o descanso virou luxo e a contemplação virou privilégio… Quem está realmente dominando quem? E deixo aqui a pergunta mais incômoda de todas: Será que o sistema nos domina ou será que aprendemos a amar a própria dominação?
E você? O que pensa sobre isto? Como tem cuidado do que é mais importante? Você mesmo e sua sanidade mental.
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