“Teologia de ganso”: a arte de formar presbíteros impermeáveis à realidade (por Eliseu Wisniewski) – Final

Essa é a parte final de um texto que encontrei ao acessar uma plataforma de artigos católicos.

Trata-se de um artigo primoroso cujo autor manifesta sua e a minha preocupação constante e perturbadora acerca da formação duvidosa de muitos sacerdotes católicos.

Quis, com a reprodução desse texto, alcançar as lideranças católicas ainda lúcidas, a repensarem o conteúdo e os ensinamentos dirigidos aos seminaristas nos centros de formação.

E, dessa forma, buscarem uma revisita aos textos, pensadores e temas católicos mais tradicionais que possam colocar à frente das paróquias, dioceses e dos fiéis, sacerdotes mais sensíveis e menos “deuses” de si mesmos.

Não for assim, podemos apostar no arrefecimento da fé e, na continuidade e até no recrudescimento da chaga que é o clericalismo no seio da nossa igreja.

Passemos então à parte final do texto do 

Eliseu Wisniewski, não sem antes desejar aos meus amigos e leitores de todas as segundas feiras um Ano Novo repleto das bençãos de Deus e da proteção e interseção de Nossa Senhora.

“A antropologia vocacional e a psicologia da religião mostram que, muitas vezes, candidatos buscam proteção na instituição ou no papel clerical para evitar o enfrentamento de suas próprias fragilidades.

Assim, a teologia se torna uma armadura e não um caminho de sabedoria. A espiritualidade se converte em rito de autoafirmação e não em espaço de esvaziamento para o encontro com Deus. A pastoral se reduz a observação distante e não à participação compassiva.

Pastoralmente, as consequências são significativas. A “teologia de ganso” tende a gerar futuros presbíteros incapazes de lidar com a ambiguidade humana: têm dificuldade de ouvir relatos de pessoas quebradas e machucadas, de aproximar-se de famílias em conflito, de sustentar a fé de pessoas fragilizadas. São ministros cujo repertório doutrinal é amplo, mas cuja capacidade de presença é limitada.

Na pratica pastoral, esse tipo de formação produz ministros que fogem da complexidade do real. São bons em repetir fórmulas, mas fracos em discernir situações pastorais; sabem sentar-se aos pés de São Tomás de Aquino, mas não sabem sentar-se ao lado de uma família destruída; dominam rubricas, mas não compreendem os os dramas humanos que se escondem atrás de cada sacramento pedido. São presbíteros que conhecem as águas de longe, mas recusam-se a entrar nelas. A comunidade reconhece neles não pastores, mas administradores de ritos; não homens de Deus, mas gestores de agenda; não servidores da comunhão, mas representantes de uma função. As águas da vida passam, mas não deixam rastro.

Sob o ponto de vista eclesial, trata-se de um fenômeno preocupante, pois contradiz o paradigma de formação de discípulos missionários, tão enfatizado pelo magistério recente. A Igreja necessita de ministros que entrem na água, que conheçam a realidade por dentro, que se deixem tocar, converter e transformar.

O modelo de Cristo Pastor, que mergulha na história humana e que carrega sobre si as fragilidades daqueles que acompanha, sugere precisamente o contrário da teologia impermeável. Jesus não ensinava a partir da distância, mas da convivência; não atuava a partir da pureza exterior, mas da compaixão interior.

Por isso, superar a “teologia de ganso” exige processos formativos mais robustos, capazes de integrar maturidade afetiva, elaboração de fragilidades, acompanhamento espiritual consistente e práticas pastorais que não sejam meros exercícios protocolares.

É necessário cultivar um ethos formativo em que o seminário não seja um ambiente de blindagem, mas de exposição à verdade, a verdade de Deus, a verdade da Igreja e a verdade sobre si mesmo.

A formação presbiteral precisa suscitar não apenas bons estudantes, mas homens permeáveis ao Espírito, sensíveis à voz dos pobres, atentos as dores da comunidade e dispostos a deixar-se transformar pela realidade que servem. A vocação amadurece quando as “penas” deixam de ser escudos e se tornam canais por onde Deus pode agir. Só assim a teologia se converte em sabedoria pastoral, e o ministério em sinal de esperança para o mundo.

A formação presbiteral exige precisamente isso: permitir que a água do mundo, a água da Palavra e a água das lágrimas humanas nos transformem. Em última instância, a crítica dirigida à chamada “teologia de ganso” aponta para um imperativo essencial: a necessidade de formar presbíteros cuja fé seja encarnada, cuja teologia seja vivida e cuja pastoral seja expressão concreta da misericórdia divina. Molhar-se é condição para servir. E na tradição cristã, a água que transforma, seja a do Batismo, seja a das lágrimas humanas, nunca age sobre aquilo que insiste em permanecer impermeável.

Quem deseja ser presbítero sem se molhar talvez ainda não entenda que, no cristianismo, a graça nunca cai sobre penas blindadas/impermeáveis. Ela só fecunda aquilo que se deixa atingir.”

Té logo!

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