Meu primeiro emprego foi como ajudante de caixa no mercadinho “Econômico” no bairro da Glória, em Manaus, o dono era amigo do meu pai. Isso aos 12 anos. No segundo emprego já tinha 18, acabara de completar o segundo grau no Colégio Nossa Senhora do Carmo, em Parintins. Eu era muito ativo nos movimentos da Igreja Católica – Missionário leigo, pastoral da juventude, pastoral da crisma, TLC (Treinamento de Lideranças Cristãs) – e eu queria me mudar para a capital Manaus para continuar os estudos. Foi então que Dom João Risatti, nosso Bispo na época, pediu que eu ficasse pelo menos mais um ano na cidade e para isso me ofereceu emprego na Rádio Alvorada FM, que seria inaugurada em alguns dias, e também na Rádio AM.
Assim eu virei radialista, com cinco programas na grade da FM e fazendo a função de repórter na AM. Mas essa não foi minha primeira experiência na comunicação. Na escola, desde a quinta série eu organizava “jornal mural” dentro da sala de aula, ao lado da lousa. Basicamente umas quatro folhas A4 dactilografadas com notícias da escola e muita fofoca (rs): Zezinho paquerando a Maria etc (rs). E na Paróquia do Sagrado Coração, com o apoio do Padre Francisco Lupino, editei um tablóide chamado “O Profeta”, com pouca tiragem e circulação só nos grupos de jovens da Igreja.
O Sistema Alvorada de Comunicação é uma “escola formadora de radialistas” até hoje. Sou muito grato por tudo que aprendi com profissionais como D. Raimunda Ribeiro (diretora geral), Maria do Carmo (discotecária, que ajudou a moldar meu bom gosto musical), Floriano Lins (jornalista e radialista fiel ao bom jornalismo e aos seus princípios morais e éticos), Tadeu de Souza, Aderaldo Reis, Nelson Brilhante, Franco Costa, Nelson Brelaz, Danilo Repolho, Josinaldo Tavares e tantos outros.
Na Alvorada FM sou um dos locutores fundadores junto com Jurandir Laurindo, James e o Klinger Araújo, um talento nato que tenho a honra de dizer que fui eu quem o convidou para fazer um teste na Rádio. Eu namorava sua prima, Carmen Guedes e quando o conheci ele estava com algo na mão fazendo as vezes de microfone e imitando o Galvão Bueno na narração de futebol. Klinger se tornou um grande locutor, apresentador e cantor do ritmo Boi Bumbá. Um amigo que, infelizmente, a Covid levou.
Eu, apesar de fazer algum sucesso anunciando músicas na FM (só colocava as que eu gostava, rs) me senti realizado mesmo foi como repórter. Eu percorria toda cidade de bicicleta atrás da notícia, com um micro gravador da Sony no bolso, que ganhei do meu pai. Um dia, passando numa esquina no bairro de Palmares, deparei-me com uma cena incrível. Havia ali uma poça d’água enorme, com mureru boiando (planta aquática da amazônia) e SAPOS COAXANDO (rs). Irreal pensei, mas não tive dúvidas, gravei o canto dos sapos e entrevistei moradores que confirmaram que a poça estava lá há muito tempo, num total descaso com a via pública.
Fiquei entusiasmado com aquela matéria. Já tinha aprendido que a comunicação quando abre com um IMPACTO na atenção do ouvinte tinha mais repercussão. O Jornal das 11h da Alvorada AM tinha grande alcance em toda região do Baixo Amazonas. Escrevi a chamada que ia ser lida pelo locutor do Jornal (Franco Costa), algo como: – A prefeitura abandonou a rua X esquina com a rua Y há tanto tempo que no local surgiu um “lago” onde os sapos, dia e noite, cantam sem parar… Quando Franco Costa terminou de ler a cabeça da matéria, eu, com o meu gravador ligado diretamente na mesa de transmissão da rádio (som mais limpo que o normal), soltei de 20 a 30 segundos dos sapos coaxando (rs).
- Croac, croac, croac, croac. E em seguida as entrevistas dos moradores.
A repercussão foi imediata. Comentário geral na cidade. Impacto alcançado, inclusive com um assessor do prefeito, Glaúcio Bentes Gonçalves (meu parente distante), indo até à Rádio com a intenção de me dar uns “sopapos”(rs).
Êêê… Palmas para mim. (rs) Você pode estar pensando… Naquele dia, com certeza contei uma história na Rádio. Mas será que fiz jornalismo sério? A resposta é um sonoro:
- NÃO!!!!
Poucos anos depois na Faculdade de Comunicação da UFAM entendi que a matéria dos “sapos coaxando” carecia de um dos princípios fundamentais do jornalismo: OUVIR O OUTRO LADO. No caso a Prefeitura de Parintins.
O jornalismo clássico parte de dois pilares: ouvir os dois lados e buscar isenção. Esses princípios não são apenas técnicas profissionais, mas expressam uma ética da verdade. Hannah Arendt lembra que a verdade factual é frágil, mas indispensável para um espaço público saudável:
“Os fatos são mais teimosos do que os opressores, e sempre escapam ao seu controle.” – (Arendt, “Truth and Politics”)
O jornalista sério assume justamente essa defesa da teimosia dos fatos. Ele reconhece que a verdade não é absoluta, mas que a honestidade na apuração é o que sustenta a legitimidade da esfera pública. Michel Foucault reforça que o discurso verdadeiro exige disciplina e método:
“A verdade é deste mundo; ela é produzida aqui graças a múltiplas coerções.” – (Foucault, “A Ordem do Discurso”)
No jornalismo sério, essas “coerções” são a checagem, a escuta plural e a transparência. Trata-se de reconhecer que a objetividade perfeita não existe, mas que há critérios compartilháveis de rigor que aproximam a narrativa jornalística do real.
O jornalismo de militância ideológica, especialmente em blogs e perfis de redes sociais, rompe com essa ética da verdade. Aqui, a informação não tem compromisso com a factualidade, mas com a mobilização afetiva de um grupo. A lógica deixa de ser a do esclarecimento e passa a ser a da guerra simbólica.
Nietzsche antecipou essa tendência ao dizer que:
“Não existem fatos, apenas interpretações.” – (Nietzsche, Fragmentos Póstumos)
Mas, diferentemente do que muitos militantes supõem, Nietzsche não defendia o caos informacional: ele alertava para os perigos da manipulação quando interpretações são usadas como armas. Byung-Chul Han observa que a comunicação nas redes deixa de ser uma busca pelo comum e se transforma em ruído emocional, onde a VERDADE É SUBSTITUÍDA POR IMPACTO:
“O que domina hoje não é a verdade, mas a eficácia discursiva.” – (Han, “Sociedade da Transparência”)
Assim surgem as fake news: conteúdos fabricados para gerar reação, não compreensão. Elas funcionam como produtos de consumo afetivo, moldados para confirmar crenças prévias, uma forma de “narcisismo informacional” que Han descreve.
Walter Lippmann (1889–1974) é provavelmente, o maior pensador da responsabilidade jornalística na democracia. Ele é central para qualquer reflexão sobre jornalismo sério. Ele defendia que a função primordial da imprensa é organizar a complexidade do mundo para que o cidadão possa tomar decisões informadas. Sua preocupação essencial era impedir que a imprensa se transformasse em mera propaganda ou instrumento de manipulação. Algo muito atual, dadas as fake news.
Suas Ideias principais são:
• A sociedade moderna é complexa demais para que o cidadão comum acesse diretamente os fatos; por isso, o jornalista deve funcionar como “intérprete responsável da realidade”. – (Public Opinion, 1922)
• Jornalismo não é militância; serve ao interesse público, não ao interesse partidário.
• A imprensa deve resistir à tentação de fabricar estereótipos, pois:
“Os estereótipos são as imagens no nosso interior. Eles nos poupam da dor de pensar.” – (Public Opinion)
• Quando a mídia se rende à manipulação, ela deixa o público “desorientado”, tornando-o vulnerável a líderes demagógicos.
Assim, no jornalismo sério, a verdade é um horizonte regulador; no jornalismo militante, a verdade é um instrumento de combate. Arendt já alertava que, quando a verdade se submete ao interesse partidário, destrói-se a própria base do debate público: “Onde todos mentem sobre todas as coisas importantes, o resultado não é que as mentiras pareçam verdade, mas que o senso de verdade desapareça.” – (Arendt, “Crises da República”)
O que vemos hoje nas redes é precisamente essa erosão: não a disputa saudável entre interpretações, mas a corrosão da confiança que deveria sustentar o espaço público. O jornalismo de militância recusa o princípio de ouvir dois lados, porque está interessado não na compreensão, mas na vitória narrativa.
Em termos filosóficos, trata-se da tensão entre uma ética da verdade (Arendt, Foucault) e uma política da manipulação afetiva (Han, a má leitura de Nietzsche). A crise atual do jornalismo nas redes é, no fundo, uma crise do próprio lugar da verdade na vida pública.
Por fim, como costumo dizer: cada um consome o que quer. Somos “clientes” de tudo isso. As prateleiras estão cheias de boas e más intenções. Cabe a você decidir seguir JORNALISMO SÉRIO OU SAPOS COAXANDO. Pense nisso.
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