Recordar é viver

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Depois de uma faina por Brasília onde cumpri extensa agenda junto aos gabinetes dos nossos parlamentares em busca de emendas pra nossa respeitada Fundação Alfredo da Matta, dei-me ao direito de gozar dez dias de férias percorrendo a região do Planalto Central e esticando até Minas Gerais mais precisamente por Uberaba.Foi nessa pujante e próspera cidade da rica região do Triângulo Mineiro, que contraí matrimônio há trinta e seis anos atrás com a Elaine e tenho guardado na memória alguns fatos pitorescos que dividirei com meus leitores.

Precisamente no ano de 1985 era eu oficial tenente temporário do Exército Brasileiro servindo no antigo Hospital Geral de Manaus.

Como praxe da caserna, solicitei ao meu comandante (um coronel severo e pouco acessível) a licença matrimônio de oito dias porém, teria eu por determinação dele, que ir até o Rio de Janeiro levar um equipamento eletrônico da UTI do hospital para ser recuperado.

Criei coragem e então pedi ao meu superior que ampliasse essa licença tendo em vista que perderia no mínimo dois dias no RJ. Pra minha sorte e alegria, de pronto ele aquiesceu e concedeu-me mais cinco dias o que ficaria de bom tamanho para o gozo da nossa lua de mel.E assim se sucedeu, embora tivesse eu pegado uma bronca de um capitão amazonense metido a general que receberia o equipamento e que servia no Hospital Central do Exército, pelo simples fato de tê-lo procurado sem estar de uniforme.E eu lá queria saber de uniforme estando de férias? Do RJ rumei de ônibus para Uberaba  a fim de ultimar os preparativos do casório.

Um mês antes do casamento, soube que um Padre com quem trabalhei por décadas na Pastoral da Juventude da minha Paróquia de Santa Rita no bairro da Cachoeirinha e havia sido transferido para outro estado, trabalhava desta feita na cidade paulista de Franca.

Localizei então essa grande sacerdote amado pela juventude do meu bairro (hoje casado) e, como era meu sonho, combinamos que ele celebraria nosso matrimônio.Franca era a cidade paulista quase fronteira com Uberaba. E assim foi feito!

Igreja escolhida, um belíssimo templo em estilo gótico de mais de século de existência cujo padroeiro é São Domingos, contratei um fotógrafo e um cinegrafista para os registros da cerimônia.Era uma época em que os celulares nem existiam.

Quando me dirigi ao padre, titular da igreja, para os acertos da celebração, este foi categórico em afirmar que naquela igreja não eram permitidos registros fotográficos nem filmagens. Quase infartei num misto de tristeza e raiva mas, paciência, eram as regras impostas pelo sacerdote um daqueles padres das antigas, velho e rabugento.

Eu e Elaine ficamos tristes mas não havia mais tempo de mudarmos de igreja. O jeito era contrair matrimônio mesmo sabendo que depois não teríamos nenhuma forma de recordação do evento a não ser da recepção festiva pós cerimônia nupcial.

Chegou o dia 05 de julho de 1985 e ficamos no aguardo da chegada do celebrante convidado Frei Laurindo Coco a Uberaba.

Este desembarcou na rodoviária lá pelas 15:00 do dia D e fui eu pegá-lo.
No trajeto até à casa dos meus sogros, contei ao Frei Laurindo da posição do Padre responsável pela igreja de proibir imagens do casamento aí, Laurindo sorriu, me olhou firmemente e tascou: “Deixa comigo que essa situação é fácil de resolver”. Conhecia como ninguém o Frei Laurindo, suas tiradas e a forma como encarava as dificuldades.

Num gesto de alívio mas também de descrença, ouvi o que o Frei acabara de me afirmar e rumamos para nosso destino, a casa dos meus sogros, onde ele se hospedaria.

Chegado o grande momento, entrei na igreja com minha mãe D. Lélia. 
Elaine, belíssima toda de branco nervosíssima ladeada pelo meu saudoso sogro Seo Rocha, atravessava todo o corredor central ao som da marcha nupcial até ser entregue a mim. Quanta emoção! 

E tudo sendo filmado e fotografado sem nenhuma interrupção ou admoestação por parte do padre que havia proibido tais situações.

Cerimônia iniciada e encerrada pelo Frei Laurindo, tudo transcorreu absolutamente dentro dos padrões e foi até ao seu final com fotógrafo e cinegrafista captando as melhores imagens sem nenhuma intercorrência .De lá todos partimos para o local da recepção na casa dos meus sogros cuja festa varou a noite inteira com muita alegria. Entretanto, eu estava doido para saber o que teria se sucedido para que o padre mudasse de ideia e permitisse as imagens. Até que lá pelas tantas, numa rodada de conversa entre parentes e convidados, indaguei ao celebrante o que havia acontecido para que as proibições, antes determinadas pelo padre, de repente acontecessem sem a menor interrupção.

Aí veio a mais insólita, pitoresca e divertida explicação por parte do Frei Laurindo. Assim nos relatou ele:

“Cheguei cedo à igreja para os preparativos da celebração matrimonial. Em dado momento, estando na sacristia, apareceu o vigário. Nos apresentamos e trocamos umas ideias quando então pus em prática o plano que afastaria o padre durante toda a celebração.

Disse eu ao vigário que, enquanto estava na sacristia rezando pelo casal que contrairia matrimônio, tocou o telefone.Atendi e do outro lado uma pessoa aflita e se dizendo muito amigo do vigário, relatou que um parente muito querido havia falecido e gostaria que o padre fosse fazer as encomendas do corpo.

Antes, pesquisei e inventei (santa invenção) dizendo ao padre que o local do velório ficava no bairro mais distante da cidade. Incontinenti, o padre recolheu os paramentos e os apetrechos próprios para as exéquias, despediu-se de mim, pegou o carro e se picou para o tal bairro distante para encomendar o morto. Então eu finalmente pude me preparar melhor pra cerimônia.”

Todos ouvimos esse relato em meio a gostosas gargalhadas como só Frei Laurindo sabia nos proporcionar.

E a beleza dessa celebração, única das nossas vidas sob as bênçãos de Deus e da Santa Madre Igreja, povoam nossas memórias até hoje passados mais de trinta e seis anos.Estamos num regozijo só matando saudades da cidade visitando parentes da minha esposa e sendo recebidos para almoços, churrascos e rodadas de cerveja na casa do meu cunhado Rogério, sua esposa Joana e seus filhos e filhas Vitória(gravidíssima), Rebeca, Davi, Isabel e Pedro(estes últimos gêmeos).Quanta alegria e gostosas reminiscências.

Té logo!

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