Antes do foguetão

Tem sido comum que pesquisadores repitam que a eleição para governador do Estado do Amazonas em 1896, da qual saiu proclamado Fileto Pires Ferreira como chefe do Poder Executivo, por reconhecimento parlamentar levado a efeito no Congresso Amazonense como determinava a lei, tenha sido provocada unicamente pelo famoso “foguetão” disparado as dez horas da manhã, e não ao meio dia, como era costume, de modo a permitir a abertura da reunião do Legislativo, apenas com a presença de deputados situacionistas.

Pior que isso, é que o plenário estava formado por ex-deputados, não reeleitos, ex-parlamentares de mandatos anteriores e até suplentes de deputados, todos eles prontos para formar o quórum legal exigido para reconhecer a eleição de Fileto, como se fossem deputados daquela legislatura. Foi esse reconhecimento feito pelo “Congresso Foguetão”, assim denominado de forma jocosa porque impôs surpresa aos demais relógios da cidade. Tudo para não permitir a presença de opositores ao governo e da maioria dos deputados.

Isso ficou impregnado na história política, e há de ter suas razões para tanto, como único motivo para a eleição de Fileto Pires. Outra causa, entretanto, ainda não tratada adequadamente por pesquisadores, surge em editorial de primeira página do jornal “A Federação”, órgão do Partido Republicano Federal do Amazonas, portanto, governista, o qual confere outra versão à referida eleição. Essa variável leva em consideração o cenário político-eleitoral, visto que as razões apresentadas pelo articulista são bastante possíveis e ainda se repetem na atualidade.

Eram três os partidos que disputavam o cargo de governador, na sucessão de Eduardo Ribeiro: o Republicano Federal, o Nacional e o Democrata. O Nacional e o Democrata se uniram para enfrentar Ribeiro e seus candidatos a governador e vice-governador, Fileto Pires Ferreira e José Cardoso Ramalho Júnior, respectivamente.

Essa união de forças, entretanto, sendo ambos os partidos da linha federalista-republicana, teria sido, segundo o jornal, a causa maior da derrota das duas agremiações, o que acabou sendo levado em consideração por boa parte da imprensa da época.

Sob o título de “Debacle”, o jornal eduardista acentuou que a composição partidária enfrentada por Fileto e Ramalho “não tinha programa definido, e o que apresentou era provisório e pouco durável, feito de elementos heterogêneos” e, por isso, “recebeu o repúdio solene das urnas”. Por sua vez, a oposição mesmo antes de ser derrotada, já alegava as mesmas razões de muitos anos: fraudes nas urnas.

A composição política realizada pela oposição ao governo estadual, e sem apoio federal, segundo “A Federação” em seu editorial, teria imposto no seio dos dois grupos políticos uma série de “desgostos, desconfiança, deserções que são geralmente fatais às agremiações políticas”. Por isso, “perderam amigos de lado a lado, porque de lado a lado existiam velhos ódios e velhos planos de vingança”.

Este filme é razoavelmente conhecido no processo político brasileiro desde o período do império e com muita agudeza na fase da Primeira República (1889-1930), inclusive quando os lideres dos maiores partidos – Republicano Mineiro e Republicano Paulista – resolveram fechar um acordo de permuta ou alternância do poder federal que ficou conhecido como política do “café com leite”, em razão da qual teve mais café do que leite, até a ludibriada fatal que se deu nas eleições presidenciais de 1930 que  redundou na revolução de Getulio Vargas e na  tomada do poder por longos 15 anos.

Não custa nada lembrar que muitas vezes a história se repete. 

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