Os profetas 

-Quem quer viajar de férias?
-Éééuuuuuuu?
Era assim que se expressavam, levantando os braços, aqueles doces pirralhos, Bito e Maú, quando seus pais, igualmente entusiasmados com a chegada do final de ano, os indagavam.
Naquele ano seriam umas férias diferentes porquanto, não iriam para a praia como de costume e sim, fazerem uma viagem de cunho mais cultural logicamente com passeios e muita diversão.
A região escolhida para o gozo das merecidas férias seria a terra das Minas Gerais com passagens obrigatórias pelas belas cidades históricas.
Chegado o momento da viagem para as tão aguardadas férias, Bito e Maú mais que rapidamente foram arrumando as malas, não esquecendo de nenhum detalhe incluindo alguns brinquedos e joguinhos infantis para aproveitarem ao maximo o período.
De avião, partiram então para destino onde permaneceriam por duas semanas desfrutando dos passeios, diversões, visitas às igrejas, museus e pontos turísticos, sem entretanto esquecer da devoção e das obrigações religiosas que essas famílias jamais deixavam de cumprir mesmo estando de férias.
Todo o trajeto das férias seria de carro, serpenteando pelas estradas, serras e morros das Minas Gerais.
Desceram então até Ouro Preto, berço do Movimento da Inconfidência Mineira, Patrimônio Cultural da Humanidade, uma das principais cidades do ciclo do ouro com centenas de igrejas todas tombadas pelo patrimônio histórico.
Seguiram para Tiradentes com seu belo e antigo casario colonial e muitas igrejas dedicadas a santos e santas da devoção, inclusive das duas famílias.
Os pequenos se entusiasmaram com o belo passeio de trem pelas serras e regiões históricas com pausas para um piquenique experimentando um gostoso friozinho.
Depois rumaram para São João Del Rey onde as praças e espaços preservados desde três séculos atrás encantaram a todos.
Ali pausaram para a missa dominical na belíssima igreja de São Francisco preservada e bem cuidada, onde, as músicas sacras acompanhadas por um órgão de mais de duzentos anos, deu um toque todo especial à celebração.
Em todas essas passagens, guias e outros conhecedores dos fatos que ali transcorreram, os enchiam de informações e narrativas sobre cada espaço, cada prédio e cada monumento, contando-lhes os detalhes das origens, importância cultural e histórica.
Bito e Maú mantinham-se cada vez mais curiosos e encantados com o que estavam presenciando e guardando nas suas memórias para um dia, saberem bem dispor desses conhecimentos nas suas vidas de estudantes.
-Mãe! Porquê tudo é velho nessas cidades? Saiu-se assim um Bito cheio de interrogações.
-Não são coisas velhas meu filho e sim a história preservada na sua mais bela essência, para que todos possam ter conhecimento sobre nosso rico passado cultural, arquitetônico e da nossa fé católica.
-Ah sim! Respondeu o pequeno como que compreendido tudo tão rapidamente.
A viagem prosseguia com pausas para as refeições, orações em família, ida a parquinhos de diversão onde os pequenos se esbaldavam em brincar, compras e tudo aquilo que uma gostosa viagem de férias proporciona.
Chegaram então a Mariana que foi a primeira capital do estado. Cidade encantadora pelas paisagens serranas, ruas totalmente calçadas de paralelepípedos, muitas e importantes igrejas, museus e espaços culturais.
Maú, observadora que só ela, sacou essa pergunta: -Porquê tanto ouro e tanta riqueza nessas igrejas?
-Que boa pergunta se expressou o pai da pequena. Minas Gerais e suas cidades históricas, foram os locais do Brasil que mais extraíram ouro das suas centenas de minas entre os séculos XVI e XVII. Parte desse ouro foi desviado para outros países e parte do que ficou, pagou a construção das cidades, monumentos e revestiu as igrejas para que hoje possamos contemplar essa riqueza cultural, religiosas e histórica. Finalizou.
De lá passaram ainda por Diamantina e Sabará.
Entretanto, seria em Congonhas, que a viagem de férias proporcionaria às famílias um dos momentos de mais enlevado encanto seja cultural, religioso ou de aprendizado sobre a fé cristã que professavam aquelas famílias.
Essa pequena cidade carrega consigo um significado especial do ponto de vista histórico e cultural não somente para a arquitetura mas, sobretudo, para a arte sacra notadamente para o barroco, sendo no Brasil e em Minas Gerais, onde se encerram a maior expressão mundial desse estilo.
Sabiam os pais das crianças, que lá por Congonhas, havia passado um dos maiores artistas da arte barroca que já existiu no planeta.
Trata-se de Aleijadinho, ícone do entalhe e da escultura de imagens, da pintura de tetos e espaços de igrejas e da criação de um estilo inconfundível até hoje imitado e difundido mundo afora.
Embarcaram todos no carro com malas e demais apetrechos e rumaram para Congonhas. Durante o trajeto por entre serras e montanhas, próprias das Minas Gerais, as boas e gostosas conversas foram fluindo.
-Papai, porquê chamavam ele de Aleijadinho?
Perguntou uma curiosa Maú.
-Contam que Antônio Francisco Lisboa, nome desse artista, sofria de uma doença que lhe causava muitas dores e deformidades com perdas dos dedos e de movimentos, daí o apelido. Mesmo assim ele trabalhou por anos e anos e morreu deixando um dos maiores legados da arte sacra mundial. Ensinou com carinho e segurança o pai de Maú.
O pai do Bito aproveitou a deixa para dizer que todos iriam conhecer um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos e sacros do barroco construídos por Aleijadinho. Trata-se da Basílica e Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.
-Lá, disse ele, estão dispostas as estátuas em tamanho natural dos doze profetas do Antigo Testamento.
-Mas pai!, o que são profetas? De pronto tascou um curioso Bito.
-Os profetas meu filho, foram homens escolhidos e preparados na antiguidade, para ensinar, doutrinar, admoestar e anunciar fatos em nome de Deus, ao povo daquele tempo, quando estes se afastavam ou divergiam Dele ou tomavam caminhos incorretos, criando e adorando ídolos e deuses que os conduzia para a perdição. Eram pessoas que atuavam como intermediários de Deus, para interpretar Suas mensagens de fé, de costumes e de moral, por meio de sonhos e até de contatos verbais com o Criador. Assim ensinou um fervoroso papai.
-Mamãe, quantos e quem foram esses profetas? Quis saber uma determinada Maú.
-Foram muitos os profetas enviados por Deus minha princesa. Mas vamos conhecer por meio de Aleijadinho e sua belíssima obra, os doze mais importantes que são: Amós, Abdias, Jonas, Baruque, Isaías, Daniel, Jeremias, Oseias, Ezequiel, Joel, Habacuque e Naum. Completou uma mamãe cheia de orgulho por ensinar sua amada filhinha.
Tomados de extremo interesse e dispostos a prosseguir numa viagem mais que simplesmente cultural porquanto, nem imaginavam que iriam se deparar com tamanhas informações que mexiam com a fé, Bito e Maú não escondiam a ansiedade  de logo alcançarem o destino.
Ainda numa bela manhã de verão, chegaram a Congonhas, conhecida como Cidade dos Profetas, e se acomodaram numa antiga e aconchegante pousada construída no século XVIII.
Descansaram um pouco da viagem, comeram uns deliciosos pães de queijo regado uma refrescante limonada e já partiram para o centro histórico da cidade.
Subindo uma quase interminável ladeira de pedras, no topo de uma colina, lá estava a Basílica do Bom Jesus de Matosinhos portentosa, com duas escadarias laterais que conduziam ao um átrio que dava na porta principal do belíssimo templo.
De cada lado dessa escadaria lá estavam as magníficas estátuas em pedra sabão dos doze mais importantes profetas de Deus em tamanho natural, esculpidas pelas mãos abençoadas de Aleijadinho.
De Isaías, passando por Ezequiel e Jeremias e alcançando Daniel e Oseias, as crianças disparavam perguntas aos seus pais querendo saber mais e mais sobre cada um dos doze profetas.
Acudidos por um bem treinado guia, as famílias foram aprendendo sobre a vida, a história e os feitos de um a um desses homens de Deus os quais, por meio dos livros escritos do Antigo Testamento, nos ensinam até os dias de hoje de como o Criador quis ensinar, acolher, doutrinar e guiar seu povo nos caminhos da fé, muitas vezes castigando-os severamente para que retomassem o rumo da salvação.
-Crianças, qual foi o profeta que mais as impressionou? Perguntou a mãe do Bito.
-Em uníssono responderam: -Profeta Isaías!
-Pois é! exclamou uma mamãe cheia de alegria. A mim também! As passagens do profeta Isaías, me causam enorme força na caminhada de fé. Foi Isaías quem mais soube descrever e profetizar com precisão divina quem Deus iria nos enviar como seu filho ou seja, o Messias, enviado de Deus. Ele foi o maior profeta messiânico da história, quase oitocentos anos antes do nascimento de Jesus, o Filho de Deus na terra, pois assim ficou escrito, ponderou a mamãe do Bito: “Um ramo surgirá do tronco de Jessé, e das suas raízes brotará um ramo. O Espírito do Senhor repousará sobre ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que traz conselho e poder, o Espírito que dá conhecimento e temor do Senhor”. (Isaías 11:1-2).
E completou a mãe de Bito:
-Foi o profeta Isaías quem de forma magistral e quase precisa, descreveu o caminho do calvário que impôs os sofrimento, as dores e a morte brutal na cruz, de Jesus o Filho de Deus. Assim, Isaías, falou aos seus seguidores: “…não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.”(Isaías 53).

-Que lindo mamãe! exclamou Bito em tom de muito respeito e admiração pela Palavra.

Continuaram então todos a conhecer a igreja e os vastos espaços ali fincados, pois, não menos importante nesse belíssimo conjunto sacro, estão presentes naquele pedaço, as seis capelas que compõem o que se chama Jardim dos Passos.

Dentro dessas capelas, há imagens de Jesus e dos apóstolos feitas em cedro em tamanho natural, atribuídas a Aleijadinho e outros artistas importantes do barroco, que retratam os passos de Jesus no calvário e outras cenas do Filho de Deus junto com seus apóstolos. Passos de sofrimento e de dor profetizados por Isaías.

Desse jeito, transcorreu a gostosa viagem de férias das duas famílias cristãs, que aproveitaram momentos de descontração e descanso, para proporcionarem aos filhotes e a si mesmos, dias de edificante passeio.

Em tempos de inquietante apostasia, num momento em que a humanidade caminha para desviar-se e desgrudar-se das coisas de Deus, restam a nós cristãos, as verdadeiras e duras palavras dos profetas antigos e atuais a nos admoestarem para cada vez mais buscarmos Deus e nos aproximarmos da sua graça que vivifica e salva. Ainda há tempo para agir.

Amém!

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