O paraíso

A pequena cidade de Divinópolis incrustada à beira de um rio límpido e caudaloso que descia lento rumo ao seu longíquo destino, amanhecia modorrenta e com o orvalho ainda repousado por sobre o verde do chão  provocando um tom esbranquiçado na relva.

Sua gente, na maioria, era formada por idosos e adultos de meia idade. Todos formavam como que uma imensa família dado que ali nasceram e se criaram seus antepassados.
Eram poucas as crianças e jovens, pois estes últimos, “fugiam” da sua pequena cidade natal em busca de melhores dias na capital ou na cidade próxima com maiores e melhores condições de vida para aquilo que pensavam ser um futuro ideal.
Naquele lugarejo pacato e bucólico com suas casinhas coloridas grudadas umas nas outras, ruas de calçamento, poucas luminárias, comércios do “seo” Noca onde tinha de um tudo e da dona Veneranda que vendia seus doces e pães caseiros de lamber os beiços, tudo caminhava tranquilo e na espera do tempo passar.
A única forma de se chegar em Divinópolis era pelo rio. Lá na beira, uma velha ponte que se estendia sobre o rio, aportavam todos os barcos pequenos e médios e, por meio deles, tudo chegava na cidade pessoas, encomendas e víveres.
A pracinha da igreja matriz era bem cuidada, com grama aparada, umas palmeiras, pés de jatobá e jambeiros em flor, cujos estames caídos no chão, formavam um lindo tapete vermelho. Completando essa paisagem, um jardim repleto de belos e floridos hibiscos, verbenas e vincas.
A igrejinha do lugar, ficava num morrete, tinha como padroeiro São Francisco. Era composta de uma torre só com o sino antigo a badalar as horas sem fim. Vitrais multicoloridos e uma bela cruz de bronze a encimar o vértice da entrada principal, definiam a arquitetura simples e sóbria.
Essa pracinha encantadora, era o ponto de encontro nos finais da tarde depois da missa das seis que ao término, o velho pároco Padre Gabriel, postava-se na entrada principal para se despedir, abençoando a todos principalmente as crianças.
Dentre todas as crianças cuja idade variava de sete a doze anos, a maioria estava matriculada na catequese paroquial.
A catequista era dona Zezé já com seus setenta e tantos anos. Viúva, mulher fervorosa, muito estudada das coisas de Deus e da igreja.
Era muito rigorosa nos ensinamentos e, após as aulas de catequese que aconteciam numa sala da escolinha todos os sábados, levava as crianças à igreja para rezar diante da imagem de Nossa Senhora da Conceição.
Depois das orações, dona Zezé se punha a contar as mais inefáveis e encantadoras estórias como forma de prender a atenção da criançada, ao tempo em que educava na fé, aqueles a quem Jesus tanto amou e ama como escrito nos evangelhos.
Naquele dia, a estória contada, era sobre o paraíso e de como Deus o criou para seus filhos e vai esperá-los para, junto com Ele, viverem as sublimes delícias da eternidade.
Dentre as mais de quinze crianças da catequese, duas se destacavam pela forma como não se concentravam nas aulas, de como faziam estripulias e bolinavam os amiguinhos ou, muitas vezes, duvidavam dos ensinamentos de dona Zezé. Eram esses o Pedrinho e a Helena.
Ele, de oito anos, sardento e de cabelos ruivos, olhar penetrante; ao falar, movimentava mãos e braços de modo inquietante.
Ela, bem morena, de cabelos negros e franjinha, não parava sentada e tinha a mania de falar tocando nos outros. Ela havia completado sete anos de idade.
Ao final daquela aula de catequese, após a visita e oração na igreja, tendo todos aprendido sobre o paraíso, Pedrinho e Helena ficaram intrigados com o que ouviram pois, em casa, seus pais, gente da roça que pouco iam à igreja, tinham em mente e repetiam, que depois da morte não há mais vida e, uma vez encerrada a passagem terrena, era o fim de tudo.
Aquele sábado foi diferente! Algo havia tocado o coraçãozinho de Pedrinho e Helena ao final da estória contada por dona Zezé!
Juntaram-se os dois e puseram-se a procurar respostas para suas dúvidas infantis sobre o paraíso.
A tarde já havia caído, eles esperaram que todos retornassem para casa e, por uma porta lateral, entraram na igreja quase que furtivamente.
Na nave central, postaram-se diante da imagem de São Francisco. Pedrinho ajoelhou-se, fixando seus olhinhos no padroeiro. Não contente por ver Helena ainda em pé, sussurrou, admoestando-a, para que se pusesse de joelhos no que foi prontamente atendido por uma amiguinha surpreendentemente silenciosa e compenetrada.
Algo muito diferente estava acontecendo para aquelas duas criaturinhas de Deus que, nas suas santas inocências, nem imaginavam que aquela atitude em pleno altar, poderia lhes trazer mais do que apenas um momento de oração. Era a oportunidade de verem suas vidas e de seus pais mudarem ao acreditarem na vida após a morte e viverem no paraíso onde se encontra Deus e todos os santos e santas.
No profundo silêncio daquela igreja, diante de Jesus escondido no sacrário e da imagem serena de São Francisco, uma aura de espiritualidade transbordante tomou conta das mentes e corações de Pedrinho e Helena.
A imagem do padroeiro da natureza e dos animais, parecia se destacar do nicho onde se encontrava há pelo menos um século e de onde era tirada uma vez por ano somente para a festa do santo para ser colocada no andor e levada em procissão.
Junto com ele desciam uma revoada de araras e papagaios, ovelhas saltitando, bois e vacas com seus bezerros pastando, onças e porcos do mato lado a lado e macacos de todos os tipos fazendo algazarra nos galhos das frondosas árvores.
Que espetáculo!
Aquilo era o esplendor da natureza ali bem à frente, acima e ao lado dos dois inebriados e boquiabertos menores. Tudo aquilo reunido parecia um filme que jamais imaginaram assistir.
Queriam tocar e não podiam; queriam falar e a língua travava; queriam fugir porém sentiam-se como que colados ao chão.
Nesse instante de quase pavor porém, de profunda paz interior, uma voz ecoou na igrejinha:
-Assim é o paraíso meus filhos. Assim Deus fez a natureza e a dispôs ao homem para amar e cuidar. É um lugar assim que Deus reservou para os puros e humildes de coração como vocês Pedrinho e Helena. O paraíso existe e quero ajudar vocês e seus pais e irmãos a acreditarem nele e viverem uma vida devotada para as coisas do alto onde Deus preparou moradas para cada um dos seus filhos e filhas. Creiam!
Extasiados, os dois amiguinhos deram-se as mãozinhas ainda trêmulas e geladas diante de tão extraordinário episódio, e passaram a rezar agradecendo a Deus, São Francisco e Nossa Senhora da Conceição por terem vivido tamanha experiência.
Já era noite, a igreja em penumbra, apenas era iluminada por duas velas acesas no altar que teimavam em não apagar mesmo diante de um vento frio que adentrava pelas pesadas portas de madeira maciça.
Levantaram-se e mais que depressa saíram correndo para contar a novidade em casa para seus pais e irmãos. Lá fora, um suave e insistente chuvisco os aguardava.
Seus pais, aflitos, os receberam com as costumeiras bênçãos e, ouvindo o que tinham para contar, acreditaram e naquela mesma noite puseram-se a rezar em família.
Pedrinho e Helena não escondiam a ansiedade por aguardar a próxima aula de catecismo. Desejavam ardentemente contar, com entusiasmo aos seus coleguinhas, tudo aquilo que vivenciaram.
Amém!

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