Normalidade anormal

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Nesse período de pandemia, os apelos dos políticos, dos empresários, dos cientistas, de membros das instituições do Estado e das pessoas simples passam sempre pela vacinação em massa, pelo uso de máscara e de álcool em gel para que a sociedade brasileira volte a sua “normalidade”, mas sem que ninguém explique o tipo de normalidade que o País possui e qual tipo de normalidade quer alcançar.
Normalidade é aquilo socialmente aceito, uma construção histórica, algo habitual, cultural, pactuado pela maioria dos membros de um determinado grupo social ou por uma nação que pode ser medida pelos fatos cotidianos das relações sociais do povo, independentemente de sua condição econômica, de sua cor e da posição política ideológica.

Em alguns países, determinadas culturas são consideradas normais, como a poligamia (casamento de um homem com várias mulheres), mas, em outros, isso é anormal, sem aceitação social. Há povos que comem a carne bovina como o prato principal de suas refeições, mas, em outros, o boi é um animal sagrado, carne proibida para o consumo humano. Então, o que é normalidade num determinado País, poder ser anormal em outro.

No Brasil, existem normalidades sociais absurdas que poderiam ser consideradas como anormais. A pobreza e a miséria são históricas e fazem parte do cotidiano dos brasileiros, num País que é considerado a décima primeira economia do mundo. Mas conviver com a pobreza e com a desigualdade parece ser tão normal.

O sistema de Justiça é muito caro e distante da população humilde que tanto precisa. Sob aplausos dos diplomados, o Quinto Constitucional da advocacia e do Ministério Público é até usado para impor familiar e amigos das Cortes de Justiça. A corrupção de magistrado é contemplada com aposentadoria com valores bem acima da média nacional paga aos brasileiros honestos. Algo bem habitual!

O sistema eleitoral é excludente, autoritário e oneroso. Embora seja a maioria do eleitorado nacional, as mulheres são minorias nos cargos eletivos, assim como os pretos. E onde estão os representantes indígenas? Esses quase inexistentes nas instâncias do Poder. A maioria dos partidos políticos é comandada por caciques, por famílias patriarcais e as campanhas eleitorais são caras, tornando-se quase um milagre a eleição de uma pessoa pobre, mas tudo acontece como normalidade.

A violência é um patrimônio nacional. Só crescem os tipos de violência contra mulheres, crianças, idosos e ativistas sociais. Nem os profissionais da comunicação escapam. É violência do Estado, por meio das polícias, é violência patrocinada pelas facções criminosas, uma realidade diária, notícias do cotidiano.

Deus é tão somente um escravo da vontade do homem. Existem religiosos que até marcam o dia, o local e o horário para que Deus faça os milagres pedidos. Propagação de religião que vive distante do pensamento e da vida de Jesus Cristo. Falta fé, sobram preconceitos. Tudo normal, tudo aceito. Tudo em cores na TV.

Os serviços públicos são precários. Ônibus lotados e sujos. Fila de cirurgia nunca diminui, trânsito desorganizado e escolas sem qualidade. Trabalhos indignos e salários baixos. Uma normalidade de antes e durante essa pandemia que assola o Brasil.

Algumas normalidades sociais construídas e aceitas pela sociedade brasileira precisam ser revistas e até negadas diante de tantas mazelas e de tantos absurdos. A anormalidade da pandemia talvez tenha acentuado ainda mais a “normalidade” de um povo que ainda vive e legitima absurdos.

*O autor é sociólogo, analista político, advogado e membro da Academia de Letras e Culturas da Amazônia – Alcama

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