Meu pé de ingá xixica

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Meu pé de ingá xixica

Minha infância absolutamente feliz como felizes tem sido todas as fazes da minha vida, foi pontuada de muitos momentos de enlevado prazer.

Quem me conhece sabe que amo plantas.
Gosto de tê-las por perto. Gosto das que dão flores, frutos ou as duas coisas. Mas gosto também daquelas que apenas enfeitam o jardim; estão lá apenas por serem plantas.
Gostar de plantas é como gostar de alguém e se apaixonar e amar.
É algo do bom coração mas também da mão boa; a mão capaz de acariciar, cuidar, se arranhar e até se sujar.
Penso que herdei isso de meus antepassados porquanto desde criança já enveredava pelo mato e quintais próximos de casa caçando plantas pra levar pra casa.
Quando estudante universitário, me inscrevi numa disciplina optativa da saudosa mestra Marta Falcão. Ela foi a grande incentivadora da arborização dos quintais de Manaus por meio do Projeto Frutíferas da antiga UA hoje UFAM.
O bairro do Japiim é hoje, em Manaus, o bairro mais arborizado graças a esse Projeto no qual tive o prazer de atuar como voluntário e por meio do qual entreguei e plantei muitos pés de árvores frutíferas existentes até hoje.
Os quintais da minha infância eram repletos de plantas frutíferas.
O quintal da Dona Joana tinha pés de cajá, abiu que minha mãe adorava, cupuaçu, pajurá, pitomba, manga, jaca e goiaba.
Já o quintal do seu Adelson tinha pé de pimenta do reino, biribá, café, bacuri, jambo e jucá este do qual se extraía um chá milagroso.
Havia um terreno abandonado quase ao fundo da minha casa lá do Beco Arthur Virgílio na Cachoeirinha que tinha uma frondosa e gigante castanheira. Foi lá, que ao sair em busca de um ouriço de castanha e outras frutas, furei o pé em um toco de pau e contrai tétano que quase me levou à morte aos onze anos de idade.
Mas a planta que me chamava atenção porque foi nela que aprendi a subir em árvores, era um pé de ingá xixica que ficava em frente a uma casa na Rua Borba, pertencente a uma senhora que não me recordo mais o nome mas que odiava ver as crianças atazanadas subindo, descendo e fazendo algazarra na frente da sua casa.
Durante a safra de ingá xixica, uma frutinha quase desprezível pelo tamanho mas repleta de doçura no fruto, a árvore era disputada pela gurizada e pelos pássaros.
Ela também é conhecida pelo nome de ingá de macaco porque esses animais amam comê-la e o fazem numa rapidez tremenda entre descascar e se refestelar com os caroços docinhos feito mel.
Copiando o poeta Casimiro de Abreu digo do fundo da alma: “Oh que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais…”. Tenho saudades saudades do meu pé de ingá xixica!
E tenho saudades também de muitas outras frutas da nossa terra que com o passar dos anos foram desaparecendo.
Quem ainda se lembra da cajarana, da sorva, do abricó, da saputilha, da marirana, do uixi, do marimari, da ingá chinela, da bacaba, do buriti e do murici?
Todas foram frutas que povoaram e alimentaram minha infância pois existiam nos quintais, nas feiras e mercados e nossos pais compravam e a gente saboreava com raro prazer.
Um dia ainda quero subir num pé de ingá xixica, arrancar seus frutos e encher a boca e o bucho com seus deliciosos frutos.
Finalizo com os versos do grandioso poeta brasileiro Casimiro de Abreu que com toda certeza viveu uma infância pontilhada de felicidade em meio às plantas, frutos e a natureza:
MEUS OITO ANOS

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais! …..

….Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

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