Maria 

Vozes suaves de dezenas de crianças que participavam do coral, ressoavam por todos os ambientes daquela linda e aconchegante capela.

A pequena igreja estava lotada de pais, avós, professores e convidados, pois era o dia da tão sonhada apresentação anual do coral no dia 08 de dezembro dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade.

“Mãezinha do céu, eu não sei rezar.

Só sei te dizer que eu quero te amar.

Azul é teu manto, branco é teu véu.

Mãezinha eu quero te ver lá no céu…”

Assim, aqueles pequeninos, entoavam com alegria e amor no coração, aquela linda canção feita para eles dizerem à mãe do Filho de Deus, o quanto a admiravam e a amavam. No meio dessas lindas e abençoadas criaturinhas de Deus estavam os priminhos Bito e Maú, alunos do mesmo colégio.

Vestidos a caráter para tão importante ocasião, os meninos de terno branco completo e gravatas azul anil e, as meninas, laços brancos na cabeça e vestidos longos em um tom azul celeste para homenagear o manto de Nossa Senhora, assim se apresentavam.

Era olhar para a plateia mais que atenta, e podia-se notar as lágrimas escorrendo dos olhos de pais, mães e avós orgulhosos e felizes por assistirem a tão sublime homenagem. Encerrada a bela e comovente apresentação naquela linda tarde ensolarada, todos participaram de um lauto lanche preparado com carinho pelas freiras e mães da comunidade.

Aquele pequeno povoado era especial e o povo de Deus tinha enorme devoção pela sua padroeira.

Eles não esqueciam o quanto Nossa Senhora foi fundamental no dia daquele mês de março em que um grande e pavoroso temporal se abateu por sobre o pequeno povoado dois anos antes.

A cidade ficou arrasada mas nenhuma perda humana havia sido contada, tudo por um verdadeiro milagre que aconteceu no meio daquele povo abençoado. Durante essa historinha, vamos recordar aquele trágico dia que nenhum morador consegue esquecer.

Era um dia quente de verão naquela região acidentada composta por colinas, morros e extensa vegetação, muito propício para a prática de passeios, piqueniques e trilhas.

O colégio de Bito e Maú resolveu montar um passeio para as crianças pois a professora de ciências queria aproveitar para uma aula sobre os cuidados com o meio ambiente. Pais avisados e concordantes, preparativos sendo acertados, guias treinados para acompanhar e, as crianças, alvoroçadas para tamanha experiência com a natureza.

Chegou o grande dia! Era um sábado de sol com nenhuma previsão do tempo virar e todos então partiram no ônibus escolar. Cantorias, santa algazarra e falatório das crianças, era esse ambiente gostoso a caminho do passeio.

Chegaram então ao portão de entrada do parque, dividiram-se em dois grupos cada um com um guia, duas professoras e mais a Irmã Anita uma santa freirinha muito ativa, que era a catequista da escola.

Mochilas às costas, iniciaram a caminhada.

Nas várias paradas da trilha, a professora de ciências aproveitava para ensinar à criançada sobre cada árvore, os bichos, as plantas que curam e o sentido de preservação daquilo que era obra de Deus e devia ser cuidado como herança para as gerações futuras.

A sapeca Maú muito interessada no assunto natureza tascou: -Tia, quando crescer quero ser Bióloga e trabalhar no meio da floresta pra cuidar dos animais.

-Muito bem Maú! respondeu a professora toda entusiasmada com a postura da pequenina.

Já tendo avançado o grupo boa parte da caminhada, uma pausa para um lanche. Toalhas no chão, tudo o que trouxeram de comer foi colocado em comum.

Eram sanduíches, tapioquinhas, banana frita, bolinhos de chuva, ovos cozidos, café com leite e sucos diversos, entre outros petiscos deliciosos.

Uma pequena pausa e logo já estavam novamente avançando no passeio.

-Ei gente! olhem o que eu achei aqui escondido no meio da folhagem caída. Saiu-se Bito quase gritando de entusiamo.

Todos correm para ver. Era um pequeno sapo, e a professora então ensinou a todos a importância da presença de cada bicho vivo, como forma de sustentar o equilibro da natureza.

A caminhada prossegue quando a Irmã Anita tem a ideia de pararem mais adiante pois, numa encosta, havia uma gruta onde uma imagem de Nossa Senhora da Conceição havia sido colocada por um devoto após ter alcançado uma graça na sua vida por intercessão Dela.

Ao chegarem ao local tava lá a gruta, que era alcançada após uma pequena subida por um morrete de pedras. Era um local cuja abertura permitia que todos entrassem e, as pedras lá dentro, serviam de bancos para que todos descansassem.

A ideia da Irmã Anita, era uma parada para fazerem uma oração em agradecimento e colocar a todos na presença de Deus por meio das mãos abençoadas de Nossa Senhora.

-Crianças, Nossa Senhora, foi uma menina escolhida por Deus antes mesmo de nascer, para trazer, por meio do seu ventre, o Filho de Deus salvador da humanidade. Explicou a devotada freira.

-Irmã Anita, e porquê Deus escolheu justamente uma menina que ninguém conhecia para ser a mãe do seu filho? Perguntou Bito.

-Deus, para se revelar aos homens, preferiu dar continuidade à história da salvação, escolhendo alguém que estivesse preparada por Ele para assumir a sublime missão de trazer seu Filho ao mundo. Deveria ser uma menina virgem, humilde e que encarasse de corpo, alma e coração essa tão encantadora porém desafiadora obra. E essa jovem se chamava Maria! Assim respondeu a irmã.

-Como era essa menina chamada Maria? Disparou uma Maú curiosa.

-Maria, era judia nascida na cidade de Nazaré. Tinha mais ou menos quinze anos de idade, seus pais se chamavam Santa Ana e São Joaquim. Era noiva de um homem chamado José. Ensinou a preparada freira.

-E como Maria ficou sabendo que seria a mãe de Jesus? quis saber Bito.

-Muito bem Bito! falou Irma Anita. Um dia, estando Maria em seus aposentos, um Anjo chamado Gabriel se apresentou a ela e lhe disse que ela fora escolhida por Deus para carregar no seu ventre e trazer ao mundo o seu filho unigênito que quer dizer primeiro e único filho. O Espírito de Deus se encarregaria de operar esse milagre e ela ficaria grávida e conceberia o Filho de Deus: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, o Menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus”. (Lc 1, 35).

-Maria então compreendeu e aceitou de coração esse desígnio do céu, mas, ficou aflita porque ainda não era casada com José seu noivo. Então o Anjo de Deus lhe disse:“Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus”. (Lc 1, 30-31).

-Quando Maria contou a José o que lhe houvera ocorrido, José ficou muito triste. Então, em sonho, um Anjo do céu contou a José que ele não tivesse nem vergonha nem medo porque tudo aquilo era obra do Criador. José aquietou seu coração e recebeu Maria em sua casa. Completou Irmã Anita.

Quando mal Irmã Anita terminara de contar aos que ali estavam essa passagem da Bíblia, ouviu-se um estrondo muito forte e um clarão adentrou na gruta, assustando a todos.

Um dos guias foi até a entrada da caverna se deparando com o início de um grande temporal. Retornando, contou a todos que era melhor se prepararem para voltar porque as chuvas poderiam imundar a caverna como já havia ocorrido em outras ocasiões.

Conversando baixinho para não assustar as crianças, acharam por bem preparar as possíveis saídas em segurança até o portão do parque e o retorno para casa.

Maú, era a menor das crianças, mas, mesmo assim, não parava quieta e saiu-se com essa:

-Vamos rezar aos pés de Nossa Senhora para que a tempestade passe logo e a gente possa voltar pra casa pois nossos pais devem estar aflitos.

-Que boa ideia minha pequena! Exclamou Irmã Anita meio preocupada mas sem deixar transparecer intranquilidade para os pequenos.

Combinaram então de rezarem um Terço Mariano em homenagem a Nossa Senhora da Conceição cuja imagem estava postada ali na frente de todos.

Nos pedidos e dedicações do Terço, Bito apelou à Mãezinha do céu que cuidasse da cidade, da escolinha, da casa de todos e dos pais que tinham ficado, para que nada de mal acontecesse.

Eram três da tarde e assim, todos juntos, na completa escuridão apenas reduzida por uma pequena lanterna, iniciaram a oração que agrada e muito o coração de Maria.

Mal acabaram de rezar o terço perceberam que os clarões e trovões não mais explodiam lá fora.

Alguém foi na entrada da gruta verificar e de fato a tempestade de pouco mais de uma hora já se tinha dissipado.

-Atenção todos! disse o guia. Vamos com cuidado nos preparar para o retorno. Coloquem as mochilas nas costas e devagar vamos saindo.

Antes porém que iniciassem a saída, Irmã Anita se ajoelhou aos pés de Nossa Senhora da Conceição sendo seguida em seu gesto por todos e entoaram mais uma Ave Maria para agradecer por nada de mal ter ocorrido e pela proteção na volta.

Já fora da gruta, de mãos dadas com as crianças, todos puseram-se em caminhada para o retorno para casa.

Chegando ao portão de entrada do parque lá estava o ônibus aguardando. Entraram primeiro as crianças seguidas pelos adultos. Pegaram então a estrada de volta para casa.

Um silêncio quase que combinado se apoderou de todos. Era uma forma de cada um meditar sobre o ocorrido. Entretanto, mal sabiam todos, o que de milagroso tinha ocorrido na cidade.

Já na descida da estrada na última curva que dava na entrada do povoado, a destruição era visível. Pedras, lama, árvores arrancadas, casas alagadas. A estrada de acesso já dentro da cidade era pavimentada e resistira à enxurrada. Apenas lixo havia se depositado não impedindo o avanço do ônibus.

O mais estranho de tudo era que não havia ninguém nas ruas nem na frente nem nas janelas das casas. Combinaram então de rumar para o colégio que ficava no alto do morro.

-Crianças, já vamos todos cada um para sua casa tá bem? Logo logo papais e mamães vão receber cada um na sua casa para que todos sejam entregues e nossa jornada se encerre por hoje. Asseverou uma freira resoluta.

Já eram quase cinco da tarde e o ônibus rumava lento para o local onde ficava o colégio. Na subida do morro, de longe, já avistavam lá em cima, próximo à cerca que circundava a pequena escola, muitas pessoas algumas acenando com as mãos. Eram os pais das crianças no ansioso aguardo para abraçar e beijar seus rebentos. Não deixavam de transparecer alívio e gratidão a Deus por tê-los trazido sãos e salvos.

A diretora da escolhinha também não escondia sua alegria por ver cada pequeno de volta.

-Mas o que aconteceu a todos? Porque vieram todos para cá pra cima do morro? Perguntou Irmã Anita.

Todos ficaram em silêncio, menos a irma diretora da escola.

-Foi uma das maiores tempestades que nossa cidade já enfrentou. Muitos e muitos trovões e raios caíram por sobre nós. Já sabíamos que a cidade seria devastada porque as pedras poderiam rolar e descer morro abaixo em direção às casas. Mas, exatamente às três da tarde, um milagre aconteceu. O sino da capela começou a bater freneticamente e sozinho. Eram batidas diferentes como aquelas das manhãs de domingo chamando a todos para a missa.

O povo entendeu que era para subirem o morro da capela e todos obedeceram a esse verdadeiro chamado de Deus.

-Irmã diretora, a senhora falou que o sino começou a bater diferente às três horas da tarde? Interpelou um circunspeto Bito.

-Sim! respondeu a irmãzinha.

-Então, Nossa Senhora da Conceição ouviu nossos apelos pois foi nessa hora que a Maú pediu e a gente reuniu dentro da gruta aos pés Dela para rezarmos o terço. Não foi Irmã Anita? completou o pirralho.

-Meu Deus! Exclamou uma Irmã Anita, num quase suspiro de espanto e gratidão. Foi exatamente nessa hora que nos ajoelhamos. Respondeu ao pequeno.

Ficava ali confirmado por meio daquele diálogo, que um milagre tinha sido operado por Deus pelas mãos prodigiosas de Nossa Senhora.

Ela, que é a co redentora da humanidade, não poderia deixar de se apresentar mais uma vez ao Pai do Céu, e desta vez interceder pelos seus filhos atendendo aos apelos das crianças e de uma dedicada serva aqui na terra, salvando-os do pior.

E todos compreenderam então o quanto a padroeira da cidade foi importante naquele episódio que só deixou danos materiais e sem permitir que ninguém ficasse ferido ou morresse diante daquela tempestade.

Assim diz uma canção católica dedicada à Mãe do nosso Salvador, reverenciando sua memória e reconhecendo ser ela a agraciada de Deus, a escolhida para trazer ao mundo Jesus Cristo, o filho do Deus vivo: “Uma entre todas foi a escolhida. Fostes tu, Maria, serva preferida. Mãe do meu Senhor, Mãe do meu salvador. Maria, cheia de graça e consolo, venha caminhar com teu povo, nossa mãe e sempre serás…”

Amém!

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