JUCA (II)-Os festivais de música cristã 

Como dito no artigo da semana passada, a partir deste, e contando sempre com a providencial memória do meu amigo Aluysio, passarei a narrar o que foi e o que significaram para a juventude de Manaus e para a evangelização dos jovens daquela época, os festivais de música cristã ou os FMC como eram conhecidos.

Não houve da nossa parte, por total falta de experiência, qualquer preocupação em deixar gravado a memória das cinco edições do FMC até à fase em que nosso grupo coordenou, daí, que com muita dificuldade, a gente vai recuperando episódios e narrativas com um e com outro, relembrando e ligando fatos, de modo a permitir que se escreva algo muito próximo da realidade.
Nós éramos alavancados pela extraordinária capacidade para o trabalho pastoral e sobretudo animados pelo nosso pároco que vinha a ser músico de formação, Frei Laurindo.
Como reportado no artigo anterior, a partir do surgimento dos Círculos Bíblicos, nasceu no bairro da Cachoeirinha um grupo de jovens denominado JUCA-Juventude Unida com Amor que se reunia para aprender a Palavra, fazer orações e animar as missas.
De dois componentes desse grupo o Aluysio e o Álvaro Pontes(já falecido) surgiu a ideia, logo aprovada e assumida pela maioria, da criação e realização  de um Festival de Música Cristã-FMC, que pudesse mostrar aos jovens de Manaus a mensagem de Cristo por meio da música.
A ideia inicial, era realizar um festival apenas do bairro da Cachoeirinha a fim de se arrecadar recursos para as obras sociais e físicas da igreja de Santa Cecília, mas, que criasse também, novas canções para renovação do acervo litúrgico e servisse ainda como Uma Forma de Mostrar a Mensagem de Cristo(lema do festival).
De certa maneira, muitos jovens já exprimiam essa vontade em suas composições mas, se restringiam a simples criações e mostras em pequenos grupos isolados em algumas comunidades católicas.
Como fonte inspiradora, naquela mesma década dos anos de 1970, um fenômeno musical católico despontava entre os jovens.
Era a figura carismática do Padre Zezinho e suas composições maravilhosas que até hoje povoam nossa memória com belas e instigantes canções, verdadeiras orações.
Seria então o Festival, a oportunidade para que estes jovens levassem adiante sua criatividade em termos musicais e com mensagens cristãs dirigidas ao público de mesma faixa etária.
É preciso que se abra um importante parênteses pra dizer que o Álvaro, dono de um belo vozerão, trabalhava como locutor na TV Amazonas cuja sede era na Cachoeirinha.
Era o início do ano de 1977.
Eu e o Aluysio éramos estudantes do Colégio D. Bosco cursando o ensino secundário e se preparando para o vestibular.
Não bastassem os afazeres pessoais, os compromissos com o trabalho, cursinho e atividades nos grupos de jovens, mergulhamos de cabeça na ideia do Aluysio e do Álvaro que puxou junto com ele outro experiente da comunicação que era o Adonai Vasquez.
Conosco se juntaram a Conceição, a Lucinha Viana, o Paulo Cezar-Dò, o Barreto e seu irmão Swami, o Marcão e sua irmã Vera, o João do Peso, o Mário, contando ainda com a ajuda e orações dos mais velhos da comunidade como os casais Aluysio pai e Liney, Maciel e Terezinha, Euzir e Juliana e os senhores Armando e Veiga dentre tantos.
Sem nenhuma noção de marketing ou planejamento estratégico, confiamos plenamente na ação concreta do Espírito Santo de Deus a nos orientar, guiar e proteger nessa jornada de quase desvario juvenil.
Sem grana, sem plano de comunicação, sem espaços definidos, sem equipes treinadas mas, apenas e tão somente animados pela vontade de realizar algo diferente e desafiador, essa era a nossa meta.
Na época despontava na TV uma novela com o sugestivo nome Te Contei?
Usamos isso como mote e saíamos pelos bairros numa velha Kombi 63 que volta e meia era colocada à disposição para as atividades pastorais da igreja e que pertencia ao pai do Aluysio, pregando cartazes com a frase: Te contei? Vem aí o I Festival de Música Cristã de Manaus!
Além dos cartazes e folders gentilmente confeccionados na gráfica do tio do Paulo Cézar, fazíamos também as faixas para colocar nos postes e nas áreas mais visíveis dos bairros.
Joaquim Margarido, um dos sócios da TV Amazonas, católico fervoroso e criador do programa Isto é Igreja, abriu as portas para a divulgação das coisas do festival.
Nessa emissora fomos aos programas do Orlando Rebelo, do Arnaldo Santos(diretor de marketing do Grupo Coca Cola), do Dudu Monteiro de Paula e, a partir daí, o festival passou a ser conhecido e o desafio só aumentava.
O grupo Coca Cola na pessoa do Arnaldo Santos e mais tarde do Charles, patrocinaram toda a premiação das canções vencedoras e ainda dispunham de todo portfólio de produtos para serem vendidos e cuja arrecadação ficaria para as finalidades sociais do festival.
Uma pessoa muito querida pelos jovens da Cachoeirinha porquanto nasceu e se criou na comunidade e que muito alavancou ajuda para os festivais, foi o jornalista Messias Sampaio.
Por meio dele o empresário Moisés Israel ajudou logística e financeiramente o evento. Messias inclusive foi jurado dos primeiros festivais do gênero.
Reuniões e mais reuniões, eis que traçamos todas as metas e programações como definição das diversas subcomissões coordenadoras, local das reuniões, banda musical, cenários, ensaios, apresentadores, prêmios, jurados, financiamento e logicamente a autorização comunitária e paroquial.
Vencidas essas barreiras sem maiores dificuldades, iniciamos o período de inscrições para o festival.
Apesar de, nas entrevistas para imprensa, dizermos que já haviam muitas músicas inscritas, na verdade até três dias antes do encerramento das inscrições não havia uma só música inscrita. Foi muito estresse!
Diante desse cenário adverso, a solução foi pedir aos membros das equipes de coordenação que criassem músicas e as inscrevessem no festival a fim de evitarmos um mico.
Eu, em meio às aulas de física e de biologia no D. Bosco, ficava horas a escrever letras e entregar pro Genezio Bentes musicar.
Dessa parceria resultaram três músicas inscritas, com o extremo cuidado de fazê-los por meio de pseudônimos a fim de evitar marmeladas.
Aumentamos a divulgação, ampliamos o período de inscrições e as abrimos para outras paróquias.
Deu tão certo a ideia, que uma profusão de músicas foram inscritas provando que havia muitos cantores e outros talentos musicais espalhados pelas diversas paróquias de Manaus os quais necessitavam sair do anonimato.
Músicas e talentos inscritos, iniciava-se então uma fase de novos e enormes desafios.
Decidir os locais para ensaios, a banda que iria acompanhar tanto nos ensaios quanto no dia do festival, o local das eliminatórias e da final, entre outros.
Aí começaram os problemas!
Frei Laurindo, tinha conquistado para a igreja de Santa Rita, um equipamento musical completo para uma banda, com guitarras, baixo, teclado, bateria, sinterizador, mesa de som, etc.
Manaus havia sediado em 1975 o Congresso Eucarístico Nacional e esse instrumental foi todo usado em função desse evento.
O maestro e compositor das músicas das missas desse Congresso, foi o Frei Agostiniano Gotzon Aulestia, de nacionalidade basca e exímio compositor litúrgico.
Os rapazes da banda que acompanhavam Frei Gotzon, após o término do Congresso, se apossaram dos instrumentos e formaram uma banda secular denominada Máquina do Tempo.
Quando formos ao padre para que a banda ficasse à disposição do festival, tivemos a desagradável surpresa de que o instrumental havia sido levado.
O jeito foi correr atrás de patrocínio para alugar uma banda ou os instrumentais a fim de realizarmos os tão necessários ensaios e isso ficou a cargo do conjunto musical Quarta Projeção muito conhecido na época.
Ensaios iniciados, o próximo desafio era o local para as eliminatórias e para a grande final.
Pra não gastarmos grana que não tínhamos com aluguel de um espaço, o jeito foi recorrer ao pároco e à coordenação da igreja de Santa Cecília para que nessa igreja fizéssemos as duas eliminatórias. E assim aconteceu!
Selecionadas as canções para a grande finalíssima, cenários prontos, apresentadores e jurados escolhidos e premiação definida, nem imaginávamos que iríamos enfrentar a mais estressante experiência da trajetória do primeiro festival de música cristã de Manaus.
Mas esse fato e o tudo o mais que aconteceu nas outras edições dos festivais, os “causos”, os micos e inclusive a nossa participação em festivais em Porto Velho, vamos contar tin tin por tin tin no próximo artigo.
Té logo!
PS. Atendendo a um pedido e observações feitas pela nossa amiga/irmã Ielva Bentes a respeito do surgimento dos grupos de jovens na Paróquia de Santa Rita, no bairro da Cachoeirinha, precisamos esclarecer que, de fato, o primeiro Círculo Bíblico surgido após as orientações do Frei Laurindo foi na casa da D. Dirce Bentes que vem a ser mãe da Ielva e do Genezio. Entretanto, no artigo anterior, não tratamos de afirmar qual teria sido o primeiro grupo de jovens surgido, estes que tiveram sua gênese nos Círculos Bíblicos implantados.
Tanto o JOCA-Juventude Organizada Com Amor quanto o JUCA-Juventude Unida Com Amor, nasceram, se criaram e se sustentaram, a partir do mesmo tronco catequético, da ideia do nosso pároco e formador e da necessidade de se aprender e viver a Palavra de Deus entre os jovens de então.

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