“Are you sure?” (Você tem certeza?), perguntou o programa de computador, antes de obedecer a um comando que demos. O comando? Formate o HD, (rs). Um dia, lá em 1993, estava na agência de publicidade WR Setores, do publicitário Reginaldo Lima, em Manaus/AM. Eu e ele tentando resolver um problema técnico no programa de editoração gráfica. Estávamos vivendo a transição do analógico para o digital, com a chegada dos computadores, nas atividades da publicidade e produção de vídeo. Nós, ainda aprendendo a lidar com as máquinas, concordamos em apertar o botão “YES”, (rs). Apagamos o HD, e Reginaldo perdeu meses de trabalho que estavam no arquivo do computador (rs). E foi assim, com erros e acertos, que a minha geração viveu essa mudança no modo de trabalhar e socializar.
Hoje vivemos um novo patamar de avanço tecnológico para a Humanidade, diria que muito mais importante que os anteriores, que é a introdução da IA (Inteligência Artificial) na nossa vida cotidiana. E podemos fazer uma pergunta que parece simples, quase infantil: A inteligência artificial pensa? Talvez seja uma das perguntas mais importantes que a Humanidade já fez sobre uma máquina. E talvez também seja a pergunta errada. Porque, se quisermos respondê-la honestamente, teremos primeiro de responder a outra: O que exatamente significa pensar?
Durante milhares de anos, o ser humano definiu inteligência olhando para si mesmo. Considerou-se inteligente porque falava, calculava, criava, lembrava, imaginava, resolvia problemas e fazia perguntas sobre a própria existência. Agora construiu algo que o obriga a definir novamente o que significa ser inteligente. E aqui começa o problema. Porque a máquina não tem cérebro como o nosso. Não sente fome, medo, paixão, saudade ou vergonha. Não precisa dormir. Não teve infância. Não teve mãe. Não contempla a própria morte. E, no entanto, pode escrever um poema, resolver uma equação, programar um computador, resumir um livro, traduzir idiomas, analisar documentos, criar imagens e manter uma conversa que, às vezes, parece estranhamente humana. Então… ela pensa ou apenas calcula? A resposta é mais inquietante do que gostaríamos.
A inteligência artificial não surgiu com o ChatGPT. Muito antes de conversar conosco, as máquinas já estavam aprendendo a fazer coisas que exigiam processamento de informação. A Segunda Guerra Mundial acelerou o desenvolvimento da computação, da criptografia, da lógica matemática e das máquinas capazes de processar enormes quantidades de informação. Entre os protagonistas estava Alan Turing, matemático e lógico britânico, uma das figuras fundamentais da história da computação. Em 1950, Turing publicou na revista Mind o artigo “Computing Machinery and Intelligence”, no qual abriu uma ferida filosófica que permanece aberta até hoje: “As máquinas podem pensar?” Turing percebeu que definir “pensamento” seria uma armadilha. Então propôs outra pergunta: se uma máquina consegue conversar de tal maneira que não conseguimos distingui-la de um ser humano, isso seria evidência suficiente de inteligência? Nascia o famoso Teste de Turing. Turing não resolveu o problema.
Fez algo pior. Tornou-o inevitável.
Em 1956, um grupo de matemáticos e cientistas reuniu-se no Dartmouth College, nos Estados Unidos. Ali, sob a liderança de John McCarthy, matemático americano, surgiu formalmente o campo chamado Artificial Intelligence. A proposta era ousada: se aspectos da inteligência humana pudessem ser descritos com precisão suficiente, talvez uma máquina pudesse simulá-los. A ideia parecia quase arrogante. Mas era exatamente isso que estava acontecendo: o ser humano estava tentando transformar inteligência em engenharia. O problema é que a inteligência humana não veio com manual de instruções. O cérebro não entregou à ciência um esquema elétrico acompanhado de um botão escrito: “Clique aqui para produzir consciência.” E então começou uma longa história de entusiasmo, frustração, promessas e decepções.
Durante décadas, a inteligência artificial prometeu mais do que conseguia entregar. Houve períodos de entusiasmo extraordinário seguidos por períodos de desencanto, quando os resultados não correspondiam às expectativas. Foi assim que surgiu uma expressão que parece retirada de um filme: o inverno da IA. O financiamento diminuía, projetos eram abandonados e o entusiasmo evaporava. Mas a história não terminou. Redes neurais, aprendizado de máquina, aumento da capacidade computacional, disponibilidade gigantesca de dados e novos métodos matemáticos começaram a mudar o jogo. A inteligência artificial estava saindo do inverno. E nós ainda não tínhamos percebido que ela estava entrando silenciosamente em nossas vidas.
Quando você usava um GPS para descobrir o melhor caminho, sistemas computacionais já analisavam informações para ajudá-lo a navegar. Quando um aplicativo calculava uma rota diante de um congestionamento, havia algoritmos trabalhando. Quando um banco detectava uma transação suspeita, modelos computacionais podiam procurar padrões incompatíveis com o comportamento esperado. Quando uma universidade analisava grandes volumes de dados, sistemas computacionais ajudavam a encontrar padrões que seriam difíceis de identificar manualmente. A inteligência artificial não chegou à sociedade em uma nave espacial. Ela entrou pela porta dos fundos. Nós simplesmente não a chamávamos de “inteligência artificial” em cada uma dessas situações. A grande ruptura veio quando a máquina deixou de apenas calcular para nós e começou a conversar conosco.
Em 30 de novembro de 2022, a OpenAI apresentou publicamente o ChatGPT. A data é histórica. Não porque tenha sido o nascimento da inteligência artificial. Mas porque foi o momento em que milhões de pessoas perceberam que poderiam conversar com uma máquina.
A adoção foi extraordinariamente rápida: o ChatGPT chegou a 1 milhão de usuários em cinco dias e, posteriormente, alcançou 100 milhões em dois meses (recorde absoluto em tempo de adesão a uma nova tecnologia). De repente, a pergunta deixou de ser: “O que a inteligência artificial consegue fazer?” E passou a ser: “O que essa coisa está fazendo comigo?” Porque conversar muda tudo. Uma calculadora não parece ter personalidade. Um GPS não parece estar raciocinando sobre nossa vida. Mas uma máquina que responde: “Entendo sua preocupação…” produz no cérebro humano uma reação diferente. Começamos a atribuir intenção. Personalidade. Compreensão. Talvez até consciência. E aqui mora uma das maiores ilusões da inteligência artificial: confundimos frequentemente fluência com compreensão.
Mas afinal: o que existe por trás da conversa da IA? Aqui precisamos desmontar um pouco da magia. Por trás de um sistema moderno de IA existem enormes quantidades de matemática. Álgebra linear. Estatística. Cálculo. Otimização. Probabilidade. Redes neurais. Parâmetros. Modelos matemáticos. Em termos simplificados, sistemas generativos trabalham com padrões aprendidos a partir de grandes volumes de dados e calculam distribuições de probabilidade para produzir sequências que sejam estatisticamente adequadas ao contexto. Não existe um pequeno homenzinho eletrônico dentro do computador lendo a pergunta e pensando: “Deixe-me refletir profundamente sobre isso.” Existe computação. Existe matemática. Existe processamento de padrões. Existe probabilidade. E existe uma quantidade extraordinária de capacidade computacional. Por isso, uma frase merece entrar em letras garrafais: PROBABILIDADE NÃO É SINÔNIMO DE COMPREENSÃO.
Uma máquina pode calcular a sequência mais provável de palavras sem necessariamente possuir aquilo que nós chamamos de experiência subjetiva. Pode produzir uma explicação sem necessariamente “entender” a realidade da mesma maneira que um ser humano. Pode falar sobre tristeza sem sentir tristeza. Pode explicar a morte sem saber o que significa morrer. Pode escrever sobre amor sem jamais ter amado. E, é justamente isso que torna tudo tão fascinante.
O filósofo francês René Descartes, em Discurso do Método (1637), tornou célebre a fórmula: “Penso, logo existo.” Para Descartes, o pensamento estava intimamente relacionado à própria certeza da existência. Mas agora temos uma situação estranha. Uma máquina pode escrever: “Eu penso.” Mas isso significa que ela pensa? Ou apenas que aprendeu que, naquele contexto, aquela sequência de palavras é adequada? A pergunta parece semântica. Não é. Ela é uma das questões filosóficas mais profundas do século XXI. Porque talvez tenhamos confundido duas coisas: produzir linguagem sobre pensamento e possuir pensamento.
É aqui que entra John Searle, filósofo americano. Em 1980, no ensaio “Minds, Brains, and Programs”, Searle apresentou o famoso experimento mental conhecido como Quarto Chinês. Imagine uma pessoa que não sabe absolutamente nada de chinês dentro de uma sala. Ela recebe símbolos chineses e, seguindo regras, devolve outros símbolos chineses. Para quem está do lado de fora, parece que aquela pessoa sabe chinês. Mas ela não sabe. Ela apenas segue regras. A provocação de Searle é brutal: manipular símbolos corretamente não significa necessariamente compreender o significado deles. Aplicada à IA, a questão fica ainda mais provocativa. Se uma máquina produz uma resposta perfeitamente coerente, isso significa que ela compreendeu? Ou apenas que executou extraordinariamente bem uma operação matemática sobre padrões? Talvez ainda não saibamos.
E se o pensamento humano também tiver mais matemática do que imaginamos? Agora vem a parte realmente polêmica. Talvez a grande descoberta da inteligência artificial não seja que máquinas aprenderam a pensar. Talvez seja que parte daquilo que chamamos de pensamento pode ser reproduzida por processos matemáticos. Essa hipótese deveria nos deixar um pouco inquietos. Porque durante séculos gostamos de imaginar que inteligência era uma espécie de território exclusivamente humano. A máquina apareceu e disse: “Tem certeza?”
O psicólogo Daniel Kahneman, israelense-americano e vencedor do Nobel de Economia, mostrou em Thinking, Fast and Slow (2011) como nosso pensamento é influenciado por processos rápidos, automáticos e intuitivos, além de processos mais lentos e deliberativos. A ironia é deliciosa: talvez a máquina não seja tão parecida conosco quanto pensamos, mas talvez nós sejamos menos “misteriosamente inteligentes” do que gostaríamos de acreditar.
Devemos ter medo? Aqui seria fácil cair em dois extremos. De um lado, o apocalipse: “A IA vai destruir os seres humanos!” Do outro: “É apenas uma calculadora sofisticada. Não há motivo para preocupação.” Ambos são confortáveis. E ambos podem estar errados.
Alguns dos próprios cientistas que ajudaram a construir a moderna inteligência artificial alertaram para riscos de longo prazo. E aqui aconteceu algo que deveria chamar a atenção de toda a Humanidade. Em 30 de maio de 2023, o Center for AI Safety (CAIS) divulgou uma declaração sobre o risco de extinção associado à inteligência artificial. Mais de 700 pesquisadores de IA e outras figuras públicas assinaram o documento. Entre os nomes estavam Geoffrey Hinton, um dos pioneiros das redes neurais; Yoshua Bengio, outro dos grandes nomes do aprendizado profundo; Demis Hassabis, CEO da Google DeepMind; Sam Altman, CEO da OpenAI; e Dario Amodei, CEO da Anthropic. O próprio CAIS apresenta esses nomes entre seus signatários.
A declaração defende que reduzir o risco de extinção provocado pela IA deveria ser uma prioridade global, ao lado de outros riscos de escala civilizacional, como pandemias e guerra nuclear. E aqui está o detalhe que torna o episódio particularmente perturbador: o alerta veio de dentro. Não foi apenas uma multidão de críticos externos dizendo que a tecnologia era perigosa. Foram cientistas, pesquisadores e dirigentes ligados diretamente ao desenvolvimento da própria tecnologia que estavam dizendo: “Precisamos levar isso a sério.”
Quando o médico alerta sobre o perigo de uma doença, prestamos atenção. Quando o engenheiro que construiu a ponte diz que é preciso verificar os pilares, ninguém deveria responder: “Bobagem. Ele só está sendo pessimista.” Pois bem. Os próprios engenheiros começaram a tocar a sirene. Isso não significa que a extinção da Humanidade seja inevitável. Não significa sequer que seja provável. Significa algo mais simples: há cientistas extremamente qualificados que consideram o risco sério o suficiente para merecer atenção. E seria intelectualmente irresponsável ignorá-los.
O verdadeiro perigo talvez não seja a máquina nos odiar. Há uma imagem popular da inteligência artificial rebelde: o robô desenvolve consciência, analisa o perigo para o planeta que a Humanidade representa e decide destruí-la. É uma narrativa cinematográfica. Mas talvez o problema real seja muito menos dramático. E, muito mais assustador. Uma inteligência artificial não precisa odiar a Humanidade para produzir consequências perigosas. Basta perseguir um objetivo de maneira extremamente eficiente sem compreender adequadamente aquilo que nós consideramos importante. Norbert Wiener, matemático americano e pioneiro da cibernética, publicou The Human Use of Human Beings em 1950, refletindo sobre automação, controle e os efeitos sociais das máquinas. A preocupação continua atual: quem controla a ferramenta quando a ferramenta começa a controlar as condições nas quais tomamos nossas decisões?
Então, inteligência artificial pensa? A resposta honesta é: não sabemos exatamente o que significa dizer que uma IA “pensa”. Sabemos que ela calcula. Sabemos que utiliza matemática, estatística e probabilidades. Sabemos que aprende padrões. Sabemos que consegue produzir comportamentos que reconhecemos como inteligentes. Sabemos que pode realizar tarefas que, até pouco tempo atrás, considerávamos exclusivamente humanas. Mas não sabemos se existe ali algo equivalente à consciência humana. E talvez essa distinção seja fundamental. Porque inteligência, consciência, compreensão e sabedoria não são necessariamente a mesma coisa. Uma máquina pode ser extremamente inteligente em determinadas tarefas e absolutamente incapaz de responder à pergunta mais humana de todas: “Por quê?”
E aqui está o paradoxo do nosso tempo. Durante toda nossa existência, o ser humano definiu inteligência olhando para si mesmo. Agora construiu algo que o obriga a definir novamente o que significa ser inteligente. Talvez a inteligência artificial não tenha descoberto como pensar. Talvez tenha descoberto algo ainda mais desconcertante: que uma parte daquilo que chamamos de pensamento pode ser transformada em matemática. E se isso for verdade, temos diante de nós uma pergunta que nenhuma máquina poderá responder por nós: se conseguimos construir uma inteligência diferente da nossa, o que exatamente ainda significa ser humano? Porque, quem sabe, o maior perigo não seja criar uma máquina que odeie a Humanidade. Talvez seja criar uma máquina que não precise odiá-la. Basta que ela seja muito mais eficiente do que nós naquilo que decidirmos fazer, inclusive nas coisas que nunca deveríamos ter decidido fazer. Acionar uma bomba nuclear, por exemplo. E você, acredita que a IA possa pensar? E que um dia vai destruir a Humanidade? No filme “O Vingador do Futuro”, a IA passou a ver os humanos como a “grande praga” que estava destruindo o planeta, por isso deveria ser extinta. Quais as chances da IA no mundo real chegar à mesma conclusão?
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