Histórias facetas

Tenho em mãos para nova leitura, uma da obras mais curiosas escritas pelo professor Mário Ypiranga Monteiro, uma das centenas que foram editadas quando da temporada que passei como secretário de Estado de Cultura,  no governo Omar Aziz (2012), e que retrata a paisagem humana da cidade de Manaus atravessando várias décadas, desde quando ele era jovem jornalista do “Jornal do Comércio” ou revisor na Imprensa Oficial do Estado, possivelmente pouco antes de ser companheiro do meu pai, Lourenço da Silva Braga, na imprensa político-partidária marítima e sindical.

Como se fosse uma boa conversa de varanda, Mário conta passagens curiosas, pitorescas, agressivas mas sem agressividade, fantásticas, famosas ou desconhecidas do grande público atual, envolvendo inúmeros personagens da vida cultural, política, social, jornalística, esportiva, boêmia e, em alguns casos, quando poderia representar uma invasão de privacidade ou a revelação de algo pouco confortável à memória do indivíduo ou ofensa à sua família, habilmente ele omite o nome, mas registra as iniciais ou revela o apelido.

Mesmo com essas cautelas, as quais demonstram o alto nível moral do autor, de todos conhecido, Mário conta passagens que permitem gargalhadas para quem conheceu algumas dessas figuras ou suas famílias, ou para os que leram algo sobre elas em outros lugares, sempre muito respeitosamente, além de contar outras histórias de forma bem delicada, como se estivesse revestindo uma porcelana com uma faceta protetora.

Conforme ele mesmo revela no “antelóquio”, para esse livro andou cavoucando na imprensa diária de Manaus, sobretudo nos artigos e notícias mais pitorescas do dia a dia, nas colunas que os jornais chamavam de “berlindas”, “mofinas”, “pelourinhos”, “trepações”, assim como nos comentários policiais, especialmente dos pasquins e folhas humorísticas, para encontrar causos e casos que merecessem esse registro especial. Assim, compôs uma obra particularmente interessante de ser lida em horas feriadas.

Revelando as fontes que mais abasteceram sua pesquisa, Mário permite ao pesquisador contemporâneo, se o desejar, identificar melhor as vítimas e os autores do que se tornou um anedotário inteligente e “culto” que ele nos ofereceu após muitos anos de pesquisa nas tardes-noites pelas quais enveredou com curiosidade e sentido de contribuição às letras e a nossa história social e política, principalmente.

Quem quiser avançar, vá a procura dos jornais Papagaio, Chibata, Coió,  O Charuto, A Tesoura, O Cipó, O Linguarudo, O Monóculo, A Farpa, O Chaleira, O Plebeu, O Barés, O Poeta, O Rio-Mar, O Boato Teatral, Pingos nos ii, A Plateia, O Racha, A Sereia, O Guri, Você viu?, O Besouro, e vai se divertir muito mais e reconhecer as contações que Mário reuniu em livro e deu a sua pitada de lembranças e convivências, posto que muitos dos figurões foram seus contemporâneos.

Para quem anda à procura do que fazer de bom, em leitura agradável, e tem curiosidade, vale ler a obra “Histórias facetas de Manaus – anedotas envolvendo figuras amazonenses”, do mestre Mário Ypiranga Monteiro.

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Este post tem um comentário

  1. Adão José Gomes

    Dr. Robério Braga, este texto é de uma densidade rara. O senhor não está apenas recomendando um livro — está restituindo a uma cidade inteira a consciência de si mesma. E faz isso com a autoridade de quem não apenas leu Mário Ypiranga Monteiro, mas conviveu com o universo que ele documentou, inclusive pelo vínculo familiar com Lourenço da Silva Braga, companheiro do mestre na imprensa político-partidária e sindical de Manaus.

    Isso não é detalhe. É credencial afetiva e intelectual ao mesmo tempo.

    Mário Ypiranga construiu ao longo de mais de 200 obras o maior arquivo vivo da memória amazonense. Mas Histórias Facetas de Manaus tem algo que seus trabalhos mais técnicos não têm: o sabor da conversa de varanda, como Dr. Robério bem definiu. A escolha dessa metáfora é precisa. Varanda é o lugar onde a guarda baixa, onde o que não cabe no discurso oficial finalmente encontra voz — e Mário soube transformar esse espaço informal em literatura de valor permanente.

    O que impressiona no recorte que Dr. Robério faz é a atenção ao gesto ético do autor: omitir nomes, preservar iniciais, proteger famílias. Em plena Manaus da imprensa pasquineira — Chibata , Em Farpa , O Linguarudo , O Besouro e tantos outros que o senhor lista — onde aquelas folhas funcionavam como pelourinho público sem apelação, Mário escolheu o caminho inverso. Registrou sem destruir. Isso não é cautela de autor medroso. É sabedoria de quem entende que a história humana não se preserva pela exposição crua, mas pela interpretação cuidadosa.

    Dr. Robério foi secretário de Cultura do governo Omar Aziz em 2012, e foi nesse contexto que estas obras puderam ser editadas, preservadas e devolvidas ao leitor amazonense. Esse ato de gestão cultural tem consequências que vão muito além do mandato. O livro que o senhor segura nas mãos hoje existe, em parte, porque houve uma decisão política de que a memória de Manaus merecia ser tratada como patrimônio — e não como curiosidade de gabinete.

    Preciso ser honesto: tive que pesquisar para acompanhar o senhor neste texto. Não conhecia com a profundidade necessária a extensão da obra de Mário Ypiranga, os pasquins que ele garimpou, nem o universo daquela imprensa irreverente que moldou a alma pública de Manaus. Aprendi. E agora quero ler mais. Já estou pensando no próximo final de semana reservado para isso — e na coluna que vai nascer dessa leitura.

    Dr. Robério, final de semana fechado com chave de ouro. Obrigado pelo texto.

    Leia o texto completo de Dr. Robério Braga e busque a obra: “Histórias Facetas de Manaus – Anedotas Envolvendo Figuras Amazonenses”, de Mário Ypiranga Monteiro →

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