A oitava edição do Festival Folclórico do Amazonas, criação da empresa Archer Pinto, estava preparada para ser um festão popular com a participação de grande número de grupos folclóricos, àquela altura mais bem organizados, indumentárias mais condizentes, bem ensaiados e, alguns deles, ostentando vitórias seguidas que aumentavam a rivalidade.
Dentre os grupos a se apresentarem, os bois Caprichoso, Tira Prosa, Corre Campo e Mina de Ouro, a Tribo Iurupixuna, os pássaros Bem-te-vi e Corrupião, as quadrilhas Caiçaras na Roça, Filhos do Lampião, Caboclinhos de Brasília, Cabras do Lampião, Flor Selvagem, Primo do Cangaceiro, Araruamas na Roça, as danças Jacundá, Tipiti, dos Imperiais, Jogo do Aro e Desfeiteira, os garrotes Luz de Guerra, Tira Teima, Pingo de Ouro, Canarinho e Dominante, dentre outros famosos.
Na época, começavam a surgir apoios de empresas interessadas em apoiar o evento de maior projeção. O clima político, entretanto, não era nada ameno para o governador Plinio Coelho e os petebistas, desde a vacância do cargo de presidente da República com a cassação de João Goulart, pelo movimento civil-militar de março-abril e a perda de mandatos de muitos políticos. Ele mesmo estava sob ameaça de cassação e prisão.
Em meio a esse turumbamba, Plinio demonstrava certa normalidade no mandato e compareceu à abertura do VIII Festival para o qual convidara vários baianos, o governador Lomanto Junior, o reitor da Universidade, Humberto Braga, e o prefeito de Salvador, Virgílio de Sena, vez que o evento era usado como promoção da cultura popular e do turismo.
Era 14 de junho de 1964. Estádio superlotado. Centenas de brincantes dos grupos folclóricos concentraram-se no gramado, após desfile para o público. Comissão Julgadora já ocupara o lugar de destaque. Os organizadores esperavam a hora dos discursos inaugurais do “festão do povo”. Uma autoridade militar aproxima-se de Plínio e faz um comunicado pessoal. Ato contínuo, Plinio é chamado para fazer a saudação oficial e declaração de abertura do grande evento.
A emoção do povo explode em aplausos quando seu nome é anunciado, como nos comícios eleitorais. Voz firme, corpo ereto, gestos fortes, Plínio não só inaugura o festival como se despede do povo amazonense. Ouvem-se gritos, aplausos, assobios, fogos, mais aplausos e mais aplausos estridentes partem de todos os lados do estádio. Na arquibancada em frente ao tablado, o povo fica de pé, aplaude e dá vivas a Plínio que desce a rampa do palco lentamente, cabeça erguida, consciente do que se passava, acena ao povo e adentra a um carro aberto, com os chefes da Casa Civil e Militar e do oficial do Exército que viera conduzi-lo, por ordens federais, a um encontro com o general comandante da região, pois estava deposto do cargo para o qual fora eleito pela segunda vez. Perdeu o mandato diante do povo. Cassaram-no! Ali, à beira do tablado, acompanhei de perto a cena sem compreender muito bem o que se passava, posto em meu uniforme escoteiro do Grupo “Ribeiro Júnior”, um revolucionário e libertador.
Naquele dia, para a multidão presente, a festa parecia ter perdido o brilho, a cor e a luz. Para Plinio, iniciava-se um calvário político do qual jamais se recuperou para novos mandatos, mesmo quando lhe foi permitido disputá-los. Os ensaios que fez não tiveram a resposta de antes, pois a conjuntura e os meios para a conquista do voto não eram mais os mesmos, pouco valiam a história de vida e o candidato.
Recolhido por anos, paulatinamente voltou ao magistério, assumiu a cadeira na Academia de Letras, recuperou cargos públicos que ocupara por concurso, e falava raramente de política e do passado. Algumas vezes o ouvi, quase em surdina. O aplaudi na Academia na saudação que fez a José Braga, única presença que teve na tribuna acadêmica além de sua própria posse, após mais de vinte anos de espera.

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