Eis a questão

 

Por Dauro Braga*

A nação brasileira assiste entre aterrorizada e atônita a materialização de mais uma tragédia previamente anunciada, na qual pereceram aproximadamente cerca de duzentas pessoas e causou sérios danos ao meio ambiente. A repetição de uma hecatombe dessa magnitude num período tão curto entre um evento e outro, deixa transparecer que alguma coisa no sistema de concessão de licenças para a construção de barragens e a estrutura dos órgãos encarregados da fiscalização dessas construções tem se revelado extremamente fragilizadas e susceptíveis a ação de fatores externos, provavelmente interesses econômicos escusos regulam seu funcionamento com a força do dinheiro, fazendo com que eles forneçam atestados, licenças e outros imbróglios burocráticos totalmente distanciados da realidade existente. A comoção social e o desejo de que sejam punidos os reais culpados desse crime perpetrado conta a natureza e a vida humana é um fato plenamente normal e justificável, pois o delinquente é reincidente, isso revolta. A empresa e seus responsáveis apesar de terem sido incursos nas penas da Lei pelo cometimento de vários crimes praticados anteriormente, a justiça não foi feita, essa inércia que impede o andamento dos processos criminais fortaleceram a certeza da empresa infratora de que no Brasil, sentença condenatória e seu cumprimento é privilégio de pobres. O crime compensa. Uma vergonha!

Que o espírito dos que pereceram nessa chacina seja o eterno fantasma a perturbar para sempre a consciência de todos os responsáveis por esses crimes, tanto os algozes como os corresponsáveis pelo status quo dessa impunidade, e as lágrimas derramadas pelos que perderam seus entes queridos sirva para lavar as mãos desses novos Pilatos dos dias atuais.

Cabe ao povo brasileiro o dever de exigir do novo governo as transformações necessárias no setor responsável pelo licenciamento e construção de obras que possam causar grande impacto ao meio ambiente e cujo risco de graves acidentes é muito visível, para que outras preciosas vidas não sejam perdidas inutilmente. Segundo dados fornecidos pela imprensa, existem trinta e dois órgãos encarregados de fiscalizar essa atividade econômica, e mesmo assim, o fato se repete e a ameaça de novos desastres é algo muito real. O problema não é de pessoal ou falta de verba, tem órgão e gente suficiente para fiscalizar até mesmo uns aos outros. O problema é falta de vergonha. A hora de enxugar a máquina e passar o pente fino nessa cambada de irresponsáveis, é agora.

Nessa hora de tanta revolta social contra a Vale do Rio Doce, é preciso ter prudência para que no açodamento de fazer justiça e punir os culpados, não se cometam mais injustiças ainda ou causem mais danos a nação e ao nosso povo, pois essa multinacional é a maior empresa mineral do mundo, contribui com uma parcela expressiva na nossa balança de exportações, fornece milhares de empregos e paga milhões de reais em impostos para os cofres da união. Dessa forma, participa efetivamente do desenvolvimento econômico e social da nação. Não é matando a empresa que se resolve o problema dos acidentes, mas sim, disciplinando e fiscalizando suas atividades. Não sigam o péssimo exemplo do sistema financeiro brasileiro, que em vez de funcionar como hospital da atividade econômica produtiva transformou-se em cemitério da mesma. Vão com menos sede ao pote na emissão de multas que pelo seu alto valor possam inviabilizar a vida da empresa. Ruim com ela, pior sem ela. Hoje choramos a perda de vidas pela sua omissão, amanhã podemos vir a chorar a perda de mais vidas pela sua falência. Ao Estado concernente do direito de exploração, cabe o papel de fiscalizar e regular a atividade desse monstro que se chama Vale do Rio Doce. Não é matando a galinha para acabarmos com o ovo que evitamos a salmonela. Eis a questão!

 

*O autor é empresário (daurofbraga@hotmail.com)

 

 

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