Doutor Humberto Figlioulo

Quando, despretensiosamente, me dispus a rabiscar artigos neste espaço, penso que, se tivesse tido a oportunidade de escrever antes, já teria homenageado muitas pessoas que passaram pela minha vida e deixaram marcas e imensas saudades.
Uma dessas pessoas que tenho orgulho de escrever sobre, nos deixou no sábado que passou depois de lutar bravamente contra uma doença crônica.
Grande amigo, colega de profissão, conselheiro, escritor habilidoso, profissional apaixonado pela carreira, cidadão generoso, administrador de mão cheia e sobretudo de uma lealdade admirável.
Assim era o Farmacêutico Humberto Figliuolo, um desses seres humanos que você conhecia e já despontava admiração por ele.
Falante e gesticulador como todo descendente de italianos, meu saudoso amigo Figliuolo se destacava por várias qualidades mas a que mais me tocava era a sua lealdade.
Humberto defendia, apoiava e se solidarizava com os colegas e amigos principalmente se o assunto era a defesa dos interesses da categoria farmacêutica.
Mas ele não se contentava apenas em demonstrar lealdade para com seus colegas de profissão.
Humberto era categórico e feroz na defesa das pautas da boa política, do meio ambiente, do saber sobre o potencial da flora amazônica, da Zona Franca de Manaus e principalmente quando o tema girava em torno das boas práticas na Farmácia e na produção e comercialização de medicamentos e remédios.
Filho de farmacêutico, herdeiro de uma das mais antigas e tradicionais farmácias do estado, a Farmácia Vittório, membro de uma família onde despontam outros proeminentes farmacêuticos e médicos, Figliuolo era apaixonado pela profissão e pela prática de atuar no balcão, atendendo ao público com profissionalismo e honestidade. Minha saudosa mãe, D. Lélia, era fã e cliente assídua da Farmácia Vittório e, quando ia “lá embaixo” ou no Mercado Grande, dava um pulo na Farmácia onde era carinhosa e profissionalmente bem atendida pelo Figliuolo.
Esse grande farmacêutico, só abandonou a profissão, quando o comércio predatório e desleal dos grandes conglomerados e redes de venda e distribuição de medicamentos, invadiu o país e o nosso estado, compelindo os verdadeiros profissionais da Farmácia a buscarem outras formas de sobrevivência.
Entre outras funções que ocupou, Humberto foi o único amazonense eleito Presidente do Conselho Federal de Farmácia. Primeiro Farmacêutico a ocupar o cargo de Secretário de Saúde do Estado. Membro da Academia Maçônica de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.
Por uma dessas felizes coincidências e para minha satisfação pessoal, no IGHA, o escritor Humberto Figliuolo ocupava a cadeira número 6 cujo patrono é o Doutor Alfredo da Matta.
Católico praticante, vez em quando nos encontrávamos na missa, ele sempre acompanhado da sua talentosa e encantadora esposa D. Eveline, e, ao final da celebração, permanecíamos trocando ideias e colocando a conversa em dias.
Tenho muitas passagens a contar da minha amizade com o Figliuolo.
Aliás, do pouco que conheço sobre a trajetória e a vida pessoal, familiar e profissional do meu pranteado amigo, afirmo sem medo de errar, que ainda assim daria uma série de artigos neste espaço.
Exímio escritor, Figliuolo mantinha um blog denominado O por quê onde quinzenalmente nos brindava com seus artigos muito bem elaborados, diretos e com um conteúdo vasto e eclético. Foram centenas e centenas de artigos que escreveu e publicou em jornais, revistas científicas e outras publicações.
Uma das passagens mais marcantes da nossa amizade e da nossa trajetória político profissional, se deu no ano de 1998.
Eu era conselheiro do Conselho Regional de Farmácia e ia tentar alcançar a presidência da entidade. Fui procurado pelo Figliuolo com a proposta de montarmos uma chapa onde ele seria candidato a conselheiro federal e assim acordamos.
Em plena campanha, viajamos de ônibus para o estado de Roraima que vinha a ser abrangido pelo nosso regional.
Ficamos no mesmo hotel e no mesmo apartamento e foram dois dias de intensa movimentação visitando todos os colegas farmacêuticos daquele estado.
Saímos de lá com a certeza de que teríamos a maioria dos votos.
Retornamos para Manaus, veio a eleição e saímos vencedores.
Num movimento político e judicial vergonhoso, o presidente à época do Conselho, já falecido, mancomunado com a diretoria do Conselho Federal, denunciou o processo eleitoral que eles mesmos conduziram e, com uma série de aleivosias, a justiça federal liminarmente cancelou a eleição e nomeou uma junta diretiva provisória mantendo o próprio presidente como interventor.
Recorremos da escabrosa injustiça porém, muito tardiamente, a justiça federal reformou sua decisão quando conseguimos provar que o presidente do regional tinha agido com litigância de má fé.
Ocorre, que a decisão judicial a nosso favor, já se deu no fim do mandato e então desistimos de assumir os cargos para os quais tínhamos sido legítima e honrosamente eleitos.
Certa vez Humberto me confidenciou, que tendo sido convidado para assumir um importante cargo no estado, ao ser recebido pelo mandatário de então, disse-lhe que se lhe fosse dada as condições humanas e financeiras para administrar, ele faria a maior gestão da história e, passo seguinte, se candidataria a governador no próximo pleito. Um dia depois foi desconvidado.
Uma das últimas vezes em que atuamos juntos, foi durante a gestão na prefeitura do atual deputado Serafim Corrêa.
O Doutor Humberto Figliuolo era secretário executivo de logística da SEMSA e eu era diretor do Distrito de Saúde Leste.
Incansável, pontual e sobretudo dedicado ao trabalho, Figliuolo se destacava por mergulhar de cabeça nos projetos e demandas das unidades de saúde e era um verdadeiro ponto de apoio na solução dos problemas que se lhes apresentavam.
Meus mais profundos e sinceros sentimentos à esposa, aos filhos, netos e parentes do Doutor Humberto Figliuolo.
Siga na paz meu amigo e que Deus abra as portas da pátria celeste para te receber de braços abertos.
Té logo!

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