Domingo, dia 22 de Novembro de 2025, a página do Facebook da CazéTV, fez a seguinte publicação:
“Novembro de 2016. Chapecoense viveu a maior tragédia da história do futebol brasileiro. 71 vidas se foram. E o que seria um marco na história do clube (final da Sul-americana), virou dor. Foi traumático. A Chape sofreu nos anos seguintes.
Novembro de 2026 (Negrito meu). Quis o destino: a Chapecoense voltou! Depois de quatro anos, a Chape é Série A novamente! Não é apenas sobre futebol”
Você percebeu o erro, leitor? A publicação recebeu pouco mais de sete mil curtidas e mais de 200 comentários. Muitos dos usuários inscritos no canal chamando a atenção para o “erro do estagiário” (rs), afinal o jogo que levou a Chapecoense de volta à série A do campeonato brasileiro foi agora, em novembro de 2025.
24 horas depois da publicação o “erro do estagiário” continuava lá. Então, NÃO HÁ ERRO. A publicação foi propositalmente publicada desta forma para criar ENGAJAMENTO com o público e “induzir” o algoritmo da plataforma a considerar a publicação como “relevante”. Na nossa época de redação, jornalismo sério, isso tinha outro nome: “BARRIGADA” (publicar uma notícia falsa). Era uma vergonha para o veículo e para o profissional que a cometia. Hoje, nas entrelinhas das redes sociais, na grande imprensa e até no exercício de profissões, o ato de mentir deliberadamente ganhou o nome de DESONESTIDADE INTELECTUAL.
A desonestidade intelectual não é só mentir. É algo mais profundo: é escolher a conveniência no lugar da verdade. É usar argumentos como armas, fatos como adereços e ideias como escudos — tudo para defender uma posição que sabemos que não se sustenta. É a vitória da performance sobre o pensamento.
No pensamento filosófico, Immanuel Kant já dizia que a mentira fere a dignidade humana porque quebra o pacto silencioso que torna o diálogo possível. Conversar pressupõe sinceridade. Quando alguém distorce, omite ou manipula deliberadamente, não está mais debatendo — está jogando.
“A mentira é uma violação da dignidade humana.” Kant, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes.
Jean Paul Sartre, por outro lado, mostra que a desonestidade intelectual nasce muitas vezes de dentro: é a má-fé, o auto engano consciente. De tanto manipular a realidade para os outros, acabamos acreditando nas nossas próprias distorções. Assim, perdemos a liberdade de encarar o mundo como ele é — e não como precisamos que seja.
“Na má-fé, escolho enganar-me sobre o que sei.” – ideia central de O Ser
e o Nada (1943)
Ou seja, a pessoa que age de forma intelectualmente desonesta nem sempre quer enganar só os outros — muitas vezes está protegendo a própria narrativa interna, fugindo de reconhecer fatos que colocariam seu ego, sua posição social ou suas crenças em risco. Um exemplo disto é aquele “pseudo jornalista” que escreve num blog de baixa audiência e que patrocina impulsionamentos nas redes sociais que o fazem crer na sua auto-importância. Na verdade ele está falando para um bolha e ganha dinheiro (a um passo da chantagem) publicando notícias “chapa branca” para políticos e assessorias de imprensa oficiais.
Hannah Arendt acrescenta que a mentira política cresce quando o espaço público já está fragilizado. Para ela, o perigo não é apenas que se mintam fatos, mas que se destruam os critérios que distinguem o fato de opinião. Quando tudo vira “versão”, a desonestidade intelectual vira terreno fértil para manipulação. Como Arendt alerta: “ quando perdemos a verdade factual, perdemos o mundo comum onde podemos nos encontrar”.
Michel Foucault vai além e mostra como os discursos não são neutros: eles moldam o que consideramos verdadeiro. A desonestidade intelectual, nesse sentido, não é só um ato individual — é um mecanismo de poder. Controlar o discurso é controlar o possível, o legítimo, o “óbvio”. Por isso, manipular argumentos não é inofensivo: é uma forma de governar percepções.
Byung-Chul Han observa que, na sociedade da hiper exposição e da positividade, a verdade perde espaço para aquilo que gera cliques, afetos e pertencimento. A desonestidade intelectual floresce porque hoje vale mais parecer autêntico do que ser verdadeiro. A lógica da viralização recompensa quem simplifica, distorce ou exagera: o ruído vence o rigor.
“A comunicação digital elimina a distância que permite a reflexão”.
No fundo, todos esses autores convergem:
A desonestidade intelectual não destrói apenas a discussão — ela destrói a própria possibilidade de convivência. Sem verdade, não há diálogo; sem honestidade, não há mundo compartilhado; sem coragem para encarar a realidade, não há liberdade.
Assim a desonestidade intelectual, como no exemplo do post da CazéTV, é só uma nova nomenclatura para a falta de caráter e o uso do ERRO CONSCIENTE (aquele em que o indivíduo vai contra o que aprendeu ao se tornar um profissional) PARA DEFENDER INTERESSES PRÓPRIOS. Infelizmente como muitas outras coisas, nossa sociedade “normaliza” (seja por ideologia, seja pela sobrevivência financeira) a falta de ética, a mentira, o engodo e a trapaça. O vale tudo por dinheiro e por poder está aí “dançando na cara de todos”, no mundo digital e no real: a novinha vendendo “nudes”; o falso rico vendendo investimento irreal em criptomoeda; o médico vendendo atestado falso; o policial militar pegando a propina na boca fumo; o jornalista apresentando narrativa ideológica como verdade absoluta; o advogado que vira “correio” de chefe do tráfico de drogas; o professor que impõe suas crenças políticas como matéria obrigatória; o juiz que é investigador, vítima, promotor, julgador e sentenciador, ao mesmo tempo.
Ser intelectualmente honesto não significa nunca errar — significa nunca abdicar da busca pela verdade.
E talvez seja exatamente isso que mais nos falta hoje: menos certezas, mais responsabilidade; menos narrativas, mais mundo real.
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