Vencidos os dias dos festejos do Rei Momo, Kamélia, Zé Pereira e Jardineira, que eram os brinquedos mais famosos e festas mais animadas e populares do carnaval manauense nos últimos anos do século passado, o país vai entrar no novo ano de trabalho, como se costuma dizer, há muito, para explicar que somente após essas folias é que a população e os governos se voltam para as obrigações do cotidiano.
Este será um ano particularmente com mais agitação, seja pela realização da Copa do Mundo de Futebol da FIFA com a participação do escrete canarinho, de mais um Festival de Parintins que sempre concentra as atenções de muita gente e movimenta interesses e paixões, seja porque dar-se-ão eleições gerais para escolha dos mandatários do País e do Estado e dos parlamentares federais e estaduais, com voto direto, eletrônico e secreto. Pois bem, formar-se-á um belo angu sem caroço ou com caroço (a depender do ponto de vista do leitor), a ser traçado pela população em grande parte muito mais interessada em conseguir o feijão com arroz da santa mesa de todos os dias.
O futebol atrai, diverte e mexe com a autoestima do brasileiro e pode servir como alívio para muita gente, logicamente que a depender dos resultados da seleção nacional, os quais, diante do que sucedeu nos últimos anos, não nos deixam muito animados nem esperançosos, apesar da presença de um técnico de respeitabilidade mundial e de uma cara nova na confederação brasileira de futebol.
Quanto ao Festival Folclórico de Parintins, joia da cultura e do turismo amazonense, não tem erro nas previsões: muita confusão fora da arena e antes dos espetáculos; luta por captação de verbas públicas e privadas para ser possível realizar os sonhos das comissões de arte de cada agremiação folclórica; embates para aprovação do regulamento e sorteio da ordem de apresentação; animação dos torcedores e galeras na preparação para a festa do tríduo bovino; e, como tem sido comum em quatriênios passados, um belo cenário para acordos e ajustes político-partidários-eleitorais abençoados pela santa padroeira de Parintins que sempre consegue conciliar os opostos e atender aos contrários.
Em relação às eleições gerais, o Amazonas não ficou apartado da forte polarização que se estabeleceu Brasil afora notadamente no que diz respeito à escolha do presidente da República, mas parece que fugirá da polarização estadual na disputa para governador, em razão da qual forças e lideranças de diferentes partidos, idades, experiências e talentos estão se aglutinando, de lado a lado, lentamente, mas com data marcada para definição final em 5 de agosto próximo.
Conforme segue o andor, com santos de barro e de pau oco, alguns de pedra e outros de materiais ainda mais resistentes, não dá para prever o desenrolar dos acontecimentos e muito menos o final das disputas. O que se consegue antever, em face da experiência natural da vida, é que, a repetir campanhas anteriores, vai valer de tudo para garantir uma cadeira privilegiada no topo da pirâmide do poder constituída em nome do interesse do povo e para seu benefício, obrigações nem sempre satisfeitas pelos que conseguem galgar as posições pelas quais se empenharam.
O tempo – senhor de todas as verdades – na sua marcha continua e ritmada, dirá ao certo o que há de acontecer nesse ano de intensa energia, renovação e de experimentações ousadas, mas que deve servir para a construção de um futuro seguro e sem aventuras pitorescas, inflamadas ou desconcertantes e perigosas.
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Este post tem um comentário
O que me chama atenção é a arquitetura das entrelinhas. Quando o senhor alinha Copa do Mundo, Festival de Parintins e eleições gerais num mesmo parágrafo, não está fazendo lista de eventos — está desenhando o mapa emocional de um povo que precisa de válvulas de escape para suportar o peso das promessas não cumpridas. O futebol alivia, o boi encanta, e a urna eletrônica carrega a esperança e a desconfiança na mesma tecla.
A passagem sobre Parintins é cirúrgica. “Santos de barro e de pau oco, alguns de pedra e outros de materiais ainda mais resistentes” — aqui o senhor não está falando de artesanato sacro, está radiografando a composição das alianças políticas amazonenses. Há os frágeis que se quebram na primeira chuva do processo eleitoral, e há os blindados que atravessam décadas mudando apenas de palanque.
A santa padroeira que “concilia os opostos e atende aos contrários” é a metáfora mais elegante que já li para descrever o pragmatismo político da ilha tupinambarana.
E quando o senhor menciona que o Amazonas “parece que fugirá da polarização estadual”, deixa no ar uma pergunta que vale ouro: essa aparente fuga é pacificação genuína ou apenas a polarização vestiu fantasia de consenso até o 5 de agosto?
O tempo, como o senhor bem lembra, é senhor de todas as verdades — e costuma ser implacável com quem confunde calmaria com ausência de tempestade.