Com 85 anos de história, tradicional rádio Baré deixa de existir definitivamente e dá lugar a emissora que promete encabeçar grande grupo de comunicação

Agora é oficial. A tradicional rádio Baré não existe mais. O empresário Sócrates Bomfim, herdeiro do jornalista Guilherme Aluízio de Oliveira e Silva, negociou o veículo com o grupo Fametro, que investiu cerca de R$ 15 milhões no negócio e mais uma quantia para construir o estúdio incrustrado no Vieiralves, bairro da elite de Manaus. Entrou no ar ontem a rádio Rios FM, que é a ponta de lança de uma rede de comunicação portentosa que a família Lins, controladora das empresas, pretende construir. A virada de página é histórica por causa da importância que a antiga emissora teve na comunicação amazonense ao longo dos últimos 85 anos.

A rádio Baré foi fundada em 5 de setembro de 1938, pelo radioamador Lizardo Rodrigues em sua residência na rua José Paranaguá, Centro de Manaus. Chamava-se então Voz da Baricéia. Como deu certo, mudou-se depois para um prédio na avenida 7 de Setembro, ali perto. Em 1945 foi comprada pelos Diários Associados, maior conglomerado de comunicação do país na primeira metade do século XX, comandado pelo lendário Assis Chateaubriand. Foi quando mudou-se para a sede própria na avenida Eduardo Ribeiro e assumiu a identidade com a qual ficaria mais conhecida nos anos seguintes. Seu primeiro diretor nessa era foi o jornalista catarinense Josué Claudio de Souza, que mais tarde fundaria a rádio Difusora do Amazonas.

A Rádio Baré foi inovadora em várias áreas de suas atividades, destaque para as comédias e as novelas, além de faro noticiário voltado para a capital e o interior do Estado. Através de sua frequência de ondas tropicais – de larga penetração nos rincões amazônicos – o programa Avisos para o Interior se revelou como único meio de ligação entre a capital e as regiões mais remotas. Eram familiares da capital que mandavam suas mensagens e recomendações e também seus pedidos e encomendas de tudo que se imaginava pudesse ser remetido para Manaus. Além dos avisos, os oferecimentos musicais na interpretação dos cantores preferidos também representavam o elo de ligação entre os ouvintes distantes.

Com o surgimento da Rádio Difusora em 1948, as duas emissoras passaram a disputar a preferência do ouvinte. As rádios produziam eventos musicais com artistas brasileiros consagrados. Muitos desses eventos eram realizados ao ar livre.

Em 1985, com a crise que se formou nos Diários Associados desde a morte de Assis Chateaubriand e agravada com a falência da Rede Tupi em 1980, o Condomínio Acionário põe à venda os ativos do grupo no Amazonas. A Rádio Baré e o Jornal do Commercio foram então vendidos para o jornalista Guilherme Aluízio de Oliveira Silva. A TV Baré por sua vez foi vendida para um dos seus acionistas, o jornalista Umberto Calderaro Filho, que em 2 de junho de 1986 renomeou a emissora para TV A Crítica. Após a venda, a Rádio Baré passou a funcionar junto ao parque gráfico do Jornal do Commercio, no bairro do Japiim.

Nos anos 2000, com a decadência das emissoras AM e OT, a emissora deixou de seguir programação independente e foi arrendada para a Igreja Deus É Amor até o final de 2006, quando passou a seguir uma programação musical e sem locutores.

Por um breve período de dois anos a rádio amazonense integrou o Sistema Globo de Rádio, mas logo depois arrendou toda a grade de programação para a Igreja Universal do Reino de Deus, passando a integrar a Rede Aleluia.

No fim de 2014, a emissora deixou a programação religiosa e foi arrendada para a Rede Amazônica, do empresário Phelippe Daou. No lugar da programação da Rede Aleluia, passou a ser repetido o áudio da Amazonas FM, também pertencente ao grupo, e em 4 de agosto de 2015 estreou a CBN Amazônia Manaus.

Foi nesta época que aconteceu a migração para a FM. Até 2018 a parceria com a CBN se manteve. Depois disso, por um período de três anos, a rádio Baré passou a se chamar Diário FM, passando a integrar, ainda na forma de arrendamento, a Rede Diário de Comunicação, do empresário Cassiano Cirilo Anunciação, o Batará. O rompimento ocorreu em 2021, não sem uma disputa judicial, que perdura até hoje por conta de pendências.

A mudança definitiva

A venda definitiva da rádio Baré começa a se desenhar ainda no final de 2021. Um grupo liderado pelo Bartolomeu Ferreira de Azevedo Junior propôs a compra do veículo, oferecendo R$ 15 milhões, sendo R$ 3 milhões à vista e o restante parcelado a partir do final de 2022. Pelo período de um ano seria pago ainda um valor a título de aluguel, que seria descontado das parcelas finais. Surgiu então a rádio Viva FM, de curta duração. Funcionou por pouco mais de um ano, mas um desentendimento entre os sócios impediu a continuidade do projeto. Em dezembro último a família Lins entrou na conversa, propondo a recompra, o que aconteceu efetivamente em janeiro.

O grupo Fametro pretende transformar a Rios FM na cabeça de uma rede de comunicação que incluirá ainda um portal de notícias.

A 95.7 FM, frequência onde a Rios FM irá operar, já abrigou outras emissoras no passado, desde que o Ministério das Comunicações decidiu migrar as rádios AM para a frequência modulada. Em Manaus foram quatro as emissoras que passaram pelo processo: além da Baré, a Rio Mar, a Difusora e a Boas Novas (antiga Ajuricaba). Delas, apenas a tradicional emissora católica manteve sua programação e identidade. A Difusora, que já tinha outra estação FM, optou por aderir à rede Band News; a Igreja Assembleia de Deus, controladora da Boas Novas, que também já dispunha de outra FM, optou por arrendar a segunda rádio para o grupo Digital, criando a Onda Digital.

A Rios FM iniciou sua fase de expectativa na semana passada. A rádio já vinha gerando expectativas nas redes sociais, principalmente por contar com personalidades conhecidas do rádio local, como Fred Lobão, Cristóvão Nonato, Mateus Arruda, Suelen Gonzaga e Camila Caetano. Esses profissionais têm compartilhado informações sobre a chegada da nova emissora em seus perfis.

O playlist musical da Rios FM, que tem sido executado nos últimos dias, combina hits populares com clássicos do formato adulto-contemporâneo no período noturno, o que indica que o projeto definitivo pode ser voltado ao público popular. Além disso, a emissora tem como objetivo operar em formato de rede para o estado do Amazonas, com o slogan “Ligando todo o Amazonas”.

Qual Sua Opinião? Comente:

Deixe uma resposta