Carta ao Cardeal Steiner

Manaus, ano de dois mil e vinte e três da graça do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Vossa Eminência D. Leonardo, Cardeal Steiner, Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Manaus.

Antes de adentrar propriamente no assunto central dessa missiva, permita-me apresentar a V. Em.a, a letra de uma música católica que, para mim, cala muito fundo ante o tema que passarei a desenvolver. A canção tem o sugestivo título de O Profeta:

“…Tenho que gritar, tenho que arriscar
Ai de mim se não o faço
Como escapar de ti? Como calar?
Se tua voz arde em meu peito
Tenho que andar, tenho que lutar
Ai de mim se não o faço
Como escapar de ti? Como calar?
Se tua voz arde em meu peito…”

Como católico, apostólico, romano, batizado e crismado, desde cedo cruzei meus caminhos de cristão engajado com muitos sacerdotes, religiosos e religiosas. Sou extremamente grato a Deus por isso.

Antes de ser ser catequista, fui catequizado(e continuo o sendo todos os santos dias) por mãos de leigos, padres e freiras, os quais incutiram em mim a formação cristã e incentivaram meu engajamento em pastorais e movimentos católicos, sem que eu nunca houvesse me afastado das obrigações e dos exercícios cristãos mais elementares.

Amo ser cristão católico e quero viver meus anos futuros de vida a serviço da minha fé, propagar e proteger símbolos e sacramentais, defender as ideias e ideais católicos, cultuar meus santos e santas de devoção, praticar os sacramentos e morrer, pela vontade de Deus, sempre abraçado aos ensinamentos e mandamentos dos céus.

Ocorre, D. Leonardo, que desafortunadamente, tenho percebido e vivido tempos muito difíceis enquanto cristão católico. Meu coração anda inquieto!

Tá cada vez mais difícil, caminhar ao lado de sacerdotes e religiosos e frequentar os sacramentos e as celebrações da fé que abracei, sem que tenha que lamentar e me entristecer com as aberrações e os desvios de conduta, e dos exageros cometidos por muitos sacerdotes durante as missas e demais festividades católicas.

Pior ainda, é aceitar que tudo seja ensinado de modo transverso e ser reproduzido pelos fiéis de forma errática, como se o que é ensinado fosse o correto.

Se a igreja católica é santa e pecadora, como no dizer e no praticar de muitos dos seus próceres, penso, com sinceridade d’alma, que ela tem se desviado e muito da doutrina que Jesus nos ensinou e deixou como legado.

Aprendi, com os ensinamentos de Jesus, que se “eu me calar as pedras clamarão”. Desse modo, jamais poderia me omitir acerca do que tenho observado e vivenciado no dia a dia da vida cristã quer como leigo engajado, quer como filho de Deus e devoto de Nossa Senhora.

Percebo cada vez mais, que a igreja milenar, única fundada por Jesus, antes una e trina, comporta-se hoje qual seitas, facções e denominações religiosas, vagando sem rumo como rebanhos divididos, onde muitos mandam e poucos obedecem.

Aquela igreja católica alicerçada na fé apostólica e principalmente sustentada nos pilares petrinos e paulinos, hoje queda-se rachada e dividida em meio a doutrinações exóticas e totalmente fora daquele contexto ensinado por Jesus há mais de dois mil anos pela ação do Espírito Santo.

A Santa Igreja Católica considerada por séculos e séculos como uma das instituições mais sérias e organizadas do planeta, hoje escontra-se fragmentada, cujo comando é questionado e ignorado ora por leigos ora por membros do próprio clero. Triste isso! Falta de direcionamento?

Aquilo que se pode considerar como a Constituição Apostólica Católica, consubstanciada no Catecismo da Igreja e fundamentada na Palavra, no cânon, nas bulas, encíclicas e documentos papais, muitas vezes são solene e lamentavelmente ignorados por tantos quantos deveriam ser os primeiros a cumprí-los e fazê-los cumprir, qual seja, o próprio clero, nos seus diversos níveis hierárquicos.

Para que V. Eminência não pense que apenas divago ou que este servo de Deus age tão somente por impulso reclamatório ou lamuriento, seguem alguns exemplos e fatos que precisam ser melhor observados, de modo a se jogar luzes sobre a problemática posta.

O que deveria permanecer como uniformização dos ritos sacramentais especialmente durante as celebrações litúrgicas e dos atos que circunscrevem a consagração, estão sendo desgraçadamente desrespeitados.

Cada sacerdote segue seu próprio instinto e padrão ritualístico e celebrativo, o que se choca gravemente com o conteúdo das normas impostas pelo cânon consubstanciadas no missal romano.

A invasão inadvertida, porém, permitida por muitos sacerdotes, em que ministros e diáconos dividem com o celebrante parte dos ritos sacramentais litúrgicos exclusivos deste, é algo abominável levando inclusive ao cometimento de heresias e do desvirtuamento das celebrações litúrgicas.

Percebo sacerdotes ante o altar do sacrifício de Cristo, ladeado por ministros leigos, dividindo com estes o cálice e a Hóstia, Corpo e Sangue de Jesus, para proclamação da doxologia final da Oração Eucarística e o padre apenas segurando o microfone. Pode isso Cardeal Steiner?

Mulheres, quais sacerdotisas e travestidas de sacerdotes, ocupam espaços no presbitério assumindo papéis somente permitidos ao celebrante cujas mãos foram consagradas, sendo que apenas este encontra-se ali investido como figura in persona Christi. Misericórdia!

Pregações totalmente fora do contexto da Palavra proclamada e não homilias catequizantes, são as coisas mais comuns na boca dos sacerdotes. Uma lástima!

Trocam a Doutrina Social da Igreja por uma doutrinação socialista, na tentativa de impor aos fiéis, uma visão do evangelho desfocada da espiritualidade, divorciada da necessidade da alma dos fiéis e distanciada dos ensinamentos da mensagem salvífica de Cristo aos povos da terra.

Ou é falta de formação durante o seminário ou simplesmente trata-se de escapismo ou de atentatória simplificação dos sagrados rituais e da catequese católicas.

Seja uma ou outra coisa, isso deveria ser tratado como completa entropia clerical que fere de morte o Catecismo da Igreja Católica e a doutrina litúrgica secular da nossa igreja.

A escolha ou a imposição por parte de alguns bispos, sacerdotes, diáconos e de ministros extraordinários da sagrada eucaristia, para distribuição da comunhão apenas nas mãos, é um tapa na cara dos fiéis mais tradicionais.

E isso, amado Cardeal, ainda ocorre meses depois da declaração por parte da OMS da extinção da pandemia pelo coronavírus, e, alguns padres, ainda insistem em usar a COVID como desculpa para não ofertar a comunhão diretamente na boca dos fiéis. Que tipos de sacerdotes são esses, que têm pavor de vírus mas não temem o castigo Divino?

Escolher receber a sagrada comunhão diretamente na boca e de joelhos é uma opção do fiel amparada em documentos da Santa Sé sob inspiração Divina.

Outro triste e repetitivo exemplo, é a banalização da comunhão em duas espécies, esta, se tornou para alguns sacerdotes, uma quase marca registrada das suas práticas celebrativas, pois transformam esse ato extremamente piedoso e sacrossanto em espetáculo midiático.

Pior é ver e lamentar que às vezes, quem distribui a comunhão por intinção, são ministros da eucaristia, na maioria das vezes despreparados e desconhecedores absolutos desse rito e do perigo do cometimento de heresias contra Jesus Sacramentado.

Muitos sacerdotes e ministros extraordinários da sagrada comunhão quando distribuem o Corpo de Cristo, o fazem com tanta pressa, como quem entrega cartas de baralho num jogo de azar. Misericórdia!

Faltam piedade e misericórdia e sobram insensatez e despreparo para o trato com as coisas de Deus e da Igreja, principalmente com o Corpo e Sangue de Jesus.

A inculturação dos ritos religiosos durante as obrigações sacramentais e dentro das missas, também deve ser observado como falta de unicidade ritual ou no mínimo de ausência de recomendação episcopal para que se respeite o que determina a igreja.

A permissividade para o uso de paramentos sacerdotais fora do padrão e, do uso de trajes inadequados por parte de leigos naquilo que confronta com a modéstia, clama aos céus ante tanta aberração.

O uso abusivo e quase sacrílego dos templos, espaços e territórios eucarísticos consagrados para encenação de rituais não católicos ou que desrespeitam o silêncio e a sacralidade, são cada vez mais comuns. Uma mixórdia!

Festas, danças, ritmos e atividades pagãs onde se explora a nudez, rituais afro e mistura com o profano dentro dos espaços paroquiais, vão se multiplicando à rodo e ninguém põe freio a essa onda de insensatez. Lamentável!

Bingos, rifas, feijoadas e quermesses para arrecadação de fundos são realizados em nome da igreja, em que cartazes, banners, outdoors e propagandas nas redes sociais, expõem e exploram a sensualidade feminina fora e dentro dos espaços paroquiais sem a menor cerimônia.

Saiba, eminentíssimo Cardeal, que o que escrevo, o faço com a alma leve de um fiel comprometido com a fé e preocupado com os rumos da nossa igreja.

Apelo ao senhor que chame às falas o clero de Manaus sob seu pastoreio.

Reúna os sacerdotes e religiosos principalmente os que celebram as liturgias e distribuem os sacramentos.

Admoeste-os para que respeitem e imponham respeito aos ritos litúrgicos, às celebrações e às festividades da religiosidade comunitária.

Imponha a uniformização (que é mais que padronização) dos ritos celebrativos, e não permita que cada um faça o que bem entenda quando se trata de seguir fielmente a norma doutrinária da liturgia.

Não deixe que a unicidade clerical, sacramental e litúrgica seja abalada permitindo com isso que nossa igreja, tão rica em normas, se iguale a uma seita qualquer sem liderança e sem rumos.

Permita-se, amado cardeal-arcebispo, ante o modismo quase banalização da prática  sinodal, promover o “sinodalismo” ou a “sinodalização” para o rito litúrgico na nossa arquidiocese, em que o clero e os ministros leigos, pratiquem e sigam um único rito padrão permitido, a partir do chamamento e da liderança de V. Em.a.

Ouça os leigos engajados e recolha opiniões destes sobre o que acontece em suas paróquias.

Vossa Eminência vai perceber o quanto de abuso e de mandonismo muitos párocos e vigários cometem todos os dias como se donos fossem dos templos, da liturgia, dos movimentos e pastorais das suas comunidades.

Alguns agem como verdadeiros tiranos concentrando e centralizando poderes, o que oprime e afasta os fiéis, levando ao esvaziamento das igrejas.

Há ainda muitos e muitos outros assuntos que circunscrevem o tema apaixonante dos ritos, da fé e da grandiosa, bela e rica liturgia católica.

Recolhi com irmãos e irmãs de fé dos grupos de oração, de pastoral e de movimentos aos quais pertenço, muitas das ideias aqui expostas pelo que de coração agradeço.

Ainda falta muito o que clamar e o deixarei para outras oportunidades, não sem antes, me colocar a vossa inteira disposição para uma interlocução presencial, pois sei ser do vosso interesse e da vossa prática pastoral, escutar seus fiéis mais angustiados e ansiosos para contribuir com o avanço da nossa igreja local.

Isto posto, D. Leonardo, aqui me despeço pedindo sua generosa e necessária benção.

Rogo a Deus, que por sobre V. Em.a recaiam copiosas bençãos dos céus e que vosso ministério à frente da Igreja de Manaus, esteja sob o olhar atento e permanente da Virgem da Conceição.

Do seu fiel e humilde servo, Ronaldo Derzy Amazonas.

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