Durante depoimento hoje na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o caos na segunda onda da pandemia de Covid-19 no Amazonas em janeiro e fevereiro últimos, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde (MS) disse que, quando esteve em Manaus na época, encontrou a rede de saúde de Manaus desestruturada, com unidades fechadas, sem médicos e medicamentos. A declaração provocou reações imediatas. Enquanto o senador Eduardo Braga (MDB) deu razão a ela, o ex-prefeito Arthur Virgílio Neto (PSDB) e a gestão do atual prefeito, David Almeida (Avante), reagiram chamando a depoente de mentirosa.
Mayra, conhecida como “Capitã Cloroquina”, disse aos integrantes da comissão, que foi designada, no início de janeiro deste ano, pelo então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para realizar levantamentos técnicos da situação da saúde no Amazonas durante a segunda onda da pandemia. Nesse período, o Estado chegou a registrar a morte de centenas de pessoas por asfixia.
A secretária informou que, na capital amazonense, encontrou Unidades Básicas de Saúde (UBS) fechadas com cadeados, sem medicamentos, sem médicos e sem testagem organizada para Covid-19. No sistema estadual, Mayra Pinheiro descreveu outro cenário de caos, com hospitais em total colapso e supersaturação de leitos de UTIs. “Na porta do Hospital 28 de Agosto, encontramos pacientes nos corredores e famílias se agarrando as minhas pernas pedindo socorro”, revelou.
Arthur reage
“É um festival de mentiras. Nem eu e nem o atual prefeito, David Almeida, deixamos as Unidade Básicas de Saúde desassistidas. Prova disso é que entreguei minha gestão com 67,28% de cobertura em Atenção Básica, o melhor dos últimos 13 anos, conforme dados do Ministério da Saúde. Além disso, criamos toda uma estrutura para atendimento preferencial aos casos suspeitos de Covid-19, com testagem, inclusive, em comunidades indígenas e áreas ribeirinhas. Todos os serviços não só foram mantidos, como ampliados pela atual gestão da Prefeitura de Manaus”, detalhou Arthur.
Em março de 2020, antes mesmo da confirmação do primeiro caso do novo coronavírus em Manaus, o então prefeito Arthur Virgílio Neto (PSDB) determinou a criação de um Plano Municipal de Enfrentamento à Covid-19 e a ativação da Sala de Situação da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) para monitoramento e controle da doença. Inicialmente, todas as dez Unidades Básicas de Saúde (UBSs) que atendiam em horário ampliado foram designadas para triagem e atendimento de casos suspeitos de Covid-19. Em setembro do ano passado o número de unidades preferenciais para Covid-19 e Síndromes Respiratórias foi ampliado para 18, sendo novamente ampliado para 22 unidades em janeiro deste ano, já na gestão de David Almeida (Avante).
De acordo com balanço da Semsa, durante o ano passado foram realizados mais de um milhão de atendimentos nas UBS da Prefeitura de Manaus, dos quais quase 240 mil nas chamadas Unidades Preferenciais aos casos de Covid-19. Além disso, a atuação das quatro Unidades Móveis de Saúde e duas UBSs Fluviais – inauguradas na gestão Arthur Neto – foram de fundamental importância para o atendimento às populações ribeirinhas e indígenas, levando testagem rápida e outros exames para comunidades mais isoladas. Ao todo, em 2020, foram realizados mais de 200 mil testes para Covid-19 pelo município.
Destaca-se, ainda, o serviço de atendimento on-line via chat e telemonitoramento, que realizou o acompanhamento de mais de 15 mil pacientes em tratamento ou recuperados da Covid-19. O telemonitoramento foi criado em abril de 2020 e é uma das ferramentas utilizadas dentro das estratégias de enfrentamento à pandemia, pelo qual profissionais da Semsa prestam orientações e acompanham regularmente a condição de saúde das vítimas do novo coronavírus. Já o “Chat Saúde On-line” é um bate-papo virtual criado para tirar as dúvidas da população sobre a Covid-19.
“A Prefeitura fez, e tem feito, sua parte. O problema nunca foi a Atenção Básica”, concluiu Virgílio.
Semsa responde
A secretária municipal de Saúde, Shádia Fraxe, rebateu, na tarde desta terça-feira, 25/5, afirmações feitas pela secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, em depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, no Senado Federal. Repetidas vezes, Mayra fez críticas à condução da Semsa ao enfrentamento da pandemia em Manaus.
A titular da Semsa contestou a declaração da secretária da SGTES, de que “encontrou nas unidades básicas de saúde de Manaus desassistência e caos e que havia unidades que estavam fechadas, enquanto a população morria, algumas sem medicamentos”. “Quanto ao caos, essa é uma visão equivocada da doutora Mayra. Nossas unidades nunca interromperam o atendimento. Infelizmente, ninguém no Brasil estava preparado para uma demanda quadruplicada como ocorreu nos picos da pandemia”, ressaltou Shádia.
Sobre unidades fechadas, a secretária lembrou que tão logo assumiu, o prefeito David Almeida ampliou para 22 o número de unidades preferenciais para atendimentos a casos suspeitos de Covid-19, expandindo uma área na UBS Nilton Lins, zona Centro-Sul, e restabelecendo o funcionamento de três Unidades Básicas de Saúde móveis, também exclusivas para assistência em Covid-19.
“Além disso, embora as demais unidades não fossem preferenciais para Covid-19, também acolhiam e orientavam as pessoas que buscassem atendimento, encaminhando-as para as unidades preferenciais ou para a rede hospitalar”, informou a titular da Semsa.
Shádia destacou ainda que todo planejamento para aquisição de medicamentos, em tempos de pandemia, enfrentou dificuldades pela sazonalidade e picos da doença, havendo períodos com baixo estoque, o que sempre foi solucionado mediante compra emergencial, na forma da lei. É necessário salientar ainda a ausência de medicamentos no mercado nacional e a alta de preços, que prejudicou o controle adequado de estoque em todo o país e não apenas em Manaus. Mas a prefeitura sempre conseguiu assegurar que não houvesse desabastecimento de remédios nas UBSs”, pontuou.
A secretária relatou que houve reuniões com técnicos do Ministério da Saúde. “Esse suporte se deu muito mais pelo cenário da nova onda, no mês de janeiro, na segunda onda da pandemia, quando nossa principal deficiência era de pessoal. Em janeiro, a atual gestão encontrou a secretaria com mais de 2.400 servidores afastados por licença médica”, observou.
Sobre a acusação de haver UBSs fechadas, Shádia Fraxe explicou que a Semsa tem unidades de saúde do tipo “casinha”, de 32 metros quadrados, ainda em funcionamento, mas que grande parte já foi desativada em razão da precária estrutura. “De fato, mais de 40 estão desativadas, e as equipes transferidas para unidades maiores, para melhorar a qualidade do atendimento, sem prejuízo das áreas geográficas de atendimento das equipes da Estratégia Saúde da Família”, assegurou.
Testes de Covid-19
Outro ponto contestado pela titular da Semsa foi a afirmação de que, na época, havia uma demanda reprimida de 2 mil testes para Covid-19. “A verdade é que os testes estavam represados no Lacen (Laboratório Central do Estado do Amazonas), único a realizar a leitura da coleta feita pelas unidades básicas e outras unidades hospitalares, no âmbito público, do tipo RT-PCR. É fato, a demanda cresceu no pico da pandemia, desde janeiro até meados de março, e houve esse represamento, mas de leitura dos coletados de RT-PCR”, relatou.
Ainda segundo Fraxe, a Prefeitura de Manaus chegou a conceder ajuda de pessoal para as análises, ao laboratório central estadual, de forma a dar maior celeridade aos resultados, uma vez que a demanda estava superior, inclusive em comparação com o primeiro pico da doença. Foram cedidos dez técnicos de laboratório e três farmacêuticos bioquímicos, ainda em serviço até a presente data.
“Apesar da alta demanda, em 90 dias, de janeiro a março, realizamos mais de 100 mil testes rápidos. Não houve falta de material para testagem dos suspeitos em nossas unidades. O que houve foi a adoção de medidas criteriosas para a realização de RT-PCR, diante de quadro clínico adequado à realização desse tipo de exame, para justamente evitar o represamento que estava ocorrendo”, salientou Shádia.
No primeiro trimestre deste ano, foram realizados mais testes RT-PCR do que em todo o ano de 2020. Em 15/3, a Semsa implantou o teste rápido de antígeno, com 7 mil doados pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e 26 mil por aquisição própria.
Outro ponto refutado por Shádia diz respeito à falta de controle e gerenciamento de crise. “É mais uma informação improcedente. Desde o início da pandemia a Semsa adotou entre outras, medidas como a elaboração de um Plano de Contingência, que vem sendo atualizado de acordo com cada cenário; a reorganização da carteira de serviços das unidades básicas de saúde, para segregar síndromes gripais; e o estabelecimento das unidades preferenciais para Covid-19, rapidamente compreendido pela população. Em cada unidade foi criada uma sala denominada ‘Sala de Atendimento Oportuno’, onde os casos que exigissem internação, aguardassem a remoção pelo Samu, também gerenciado por nós”, informou.
A secretária municipal de Saúde classificou como inverídicas ainda as declarações de Mayra Pinheiro sobre a inexistência de triagem de pacientes nas UBSs e de falta de acompanhamento de doentes com Covid-19, em tratamento domiciliar. “Temos nota técnica publicada orientando trabalhadores e nossas unidades foram organizadas com distanciamento social, sinalização, dentre outras providências. Quanto ao acompanhamento, é de amplo conhecimento o nosso telemonitoramento que foi, inclusive, reorganizado pela atual gestão, passando a funcionar em uma estrutura mais adequada, com a promoção do fortalecimento da equipe”, concluiu.
Eduardo concorda e critica
O senador Eduardo Braga (MDB/AM) afirmo não ter dúvidas que houve negligência dos governos federal, estadual e municipal na falta de atendimento nos hospitais e de oxigênio para pacientes internados com Covid-19, em Manaus.
“Quero é entender como todo o Ministério da Saúde, presente em Manaus com os melhores técnicos, no subsolo do inferno, não identificaram que estavam diante do caos? Como uma técnica, com o nível de informação que ela (Mayra) tinha, com pessoas agarrando as suas pernas, pedindo socorro, não identifica que iríamos colapsar por falta de atendimento e de oxigênio?”, questionou Eduardo.
Ele afirmou que, assim como as declarações do ministro Eduardo Pazuello, o depoimento da secretária Mayra Pinheiro à CPI da Pandemia, não vão lhe convencer que o Ministério da Saúde não tinha conhecimento que Manaus estava diante do caos. “E para resolver a situação da falta de oxigênio, por exemplo, estava ali, do lado, na Venezuela”, destacou o senador amazonense.
O depoimento de Mayra Pinheiro acontece no dia em que o Brasil registrou mais de 450 mil mortos por Covid-19. No Amazonas, segundo boletim da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), são mais de 13 mil mortes.
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