ONDA. Esse era o nome do nosso grupo de jovens da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, em Parintins. Éramos de 12 a 15 jovens, homens e mulheres, que nos reuníamos todo sábado no Parque das Laranjeiras (um Centro Esportivo e Social da Igreja Católica) para estudar a Bíblia, planejar eventos, ações de catequese e animação das missas. O nome do grupo foi eu quem sugeriu. Na época eu havia assistido ao filme “A Onda”, do diretor Alex Grasshoff (1981). Em 2008, o diretor Dennis Gansei, filmou uma adaptação. O enredo é baseado numa história real. O professor de história Ron Jones, na Califórnia, em 1967, fez um experimento social dentro da sala de aula para mostrar aos alunos como o facismo e o totalitarismo poderiam surgir novamente numa sociedade democrática. Se você, amigo leitor, ainda não assistiu, vale a pena. É um filme muito interessante e fundamental para entender como é fácil se deixar manipular pela emoção de participar de um grupo “exclusivo”, com regras de conduta próprias.
Desse filme, além de entender como o nazismo surgiu, um aprendizado positivo foi olhar uma figura para além do grafismo, encontrei facilidade nesse tipo de leitura. Mais tarde, na faculdade conheci a ciência da Semiótica, que estuda os signos e os processos de significação; e que fortaleceu minha carreira de comunicador audiovisual. O desenho de uma onda, por exemplo, é símbolo de transformação (águas calmas se movimentam quando provocadas pelo vento, terremotos, navios…), força (o volume d’água) e impacto (modificam fisicamente a realidade quando atingem o alvo).
Lembro que alguns membros do “nosso grupo” também eram meus colegas de sala de aula no Colégio Nossa Senhora do Carmo. Fazíamos muitas coisas juntos: igreja, escola, conversas na praça e até ir aos bailes dos clubes da cidade, o Palmeiras e o Ilha Verde. Dançávamos formando rodinhas, tomávamos as mesmas bebidas (nada alcoólico) e nos vestíamos com roupas parecidas. Essas companhias eram o “meu mundo”, às vezes, naquele momento, mais importantes que a minha própria família. Pensávamos igual e tínhamos até sonhos de vida idênticos. Percebíamos se haviam outros “grupos” na cidade? Sim. Jovens unidos em torno de lugares ou causas comuns a eles, como os da Igreja Batista ou os ligados aos movimentos folclóricos dos bois bumbás Caprichoso e Garantido.
Hoje percebo que o que na minha juventude chamávamos de “nosso grupo” ou “nossa tribo” (de forma consciente), na atual sociedade passou a ser o que se considera como uma “bolha de convivência” ou “bolha cognitiva”, “tribalismo social ou ideológico”, ou no termo consagrado nos estudos de rede social: “câmaras de eco”. A diferença para nossa época é que atualmente as pessoas encontram afinidades nessas bolhas inconscientemente. Outra diferença é que não éramos hostis aos outros grupos. As bolhas de convivência funcionam como câmaras de eco que produzem um fechamento epistemológico, no qual a identidade do grupo passa a valer mais do que a busca pela verdade. Outra característica é a mera repetição de “pensamentos”, bordões, conceitos, frases de efeito, sem a preocupação com correção histórica ou contexto adequado. Pior, alguns repetem sem entender o que dizem.
Desde a Antiguidade, os seres humanos organizam o pensamento em torno de comunidades de sentido. Escolas filosóficas (a Academia de Platão, a Escola de Sócrates, o Liceu de Aristóteles, o Estoicismo), doutrinas religiosas, corporações de ofício e, mais tarde, ideologias políticas sempre funcionaram como espaços de estabilização da verdade. Essas comunidades não eram apenas agrupamentos sociais, mas verdadeiros ambientes epistemológicos, nos quais se aprendia o que pensar, como pensar e, sobretudo, o que não devia ser pensado.
Ser membro desses grupos oferecia orientação, identidade e segurança simbólica. Em troca, exigia-se adesão. A verdade não emergia do confronto aberto com a análise de outros pensamentos (pluralismo), mas do reconhecimento de critérios internos de validação. O “outro” — aquele que pensa fora do grupo — aparecia como ignorante, enganado ou perigoso. Esse movimento não é um desvio moderno: ele acompanha a própria história da razão.
Em Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt mostra que a ideologia não se sustenta apenas por mentira ou propaganda, mas pelo isolamento. O indivíduo ideologizado não está simplesmente enganado; ele foi progressivamente afastado de um mundo comum, plural, imprevisível. A ideologia oferece uma explicação total, coerente e imune à experiência.
As câmaras de eco contemporâneas reproduzem exatamente esse mecanismo. Ao restringirem as interações a grupos homogêneos — no trabalho, na universidade, na vizinhança ou no espaço digital — elas reduzem o contato com a diferença e produzem uma sensação artificial de unanimidade. O sujeito deixa de testar suas ideias no espaço público e passa a confirmá-las apenas no espelho do grupo. Nesse contexto, a verdade deixa de ser algo que se constrói entre diferentes e passa a ser algo que se reconhece entre iguais.
Michel Foucault (MIcrofísica do Poder) nos ajuda a compreender por que essas câmaras são tão eficazes. Para ele, não existe verdade fora de um regime de verdade: um conjunto de discursos, instituições e práticas que definem o que pode ser dito, quem pode dizer e com que autoridade (o que a esquerda chama de “lugar de fala”). A verdade não é apenas descoberta; ela é produzida e administrada.
As câmaras de eco funcionam como micro-regimes de verdade. Cada grupo estabelece:
• suas fontes legítimas,
• seus especialistas confiáveis,
• suas narrativas autorizadas.
O dissenso não é debatido; é prontamente desqualificado. Não se trata de refutar argumentos, mas de invalidar o lugar de fala do outro. Assim, o grupo preserva sua coesão ao custo da abertura ao real.
Byung-Chul Han (No enxame) radicaliza essa análise ao mostrar que, na sociedade contemporânea, o problema já não é a repressão, mas o excesso de positividade. Vivemos cercados por opiniões semelhantes, reforçadas por algoritmos que nos devolvem aquilo que já gostamos, já pensamos e já acreditamos. As câmaras de eco digitais não precisam censurar o outro; elas simplesmente o tornam invisível. A discordância é percebida como ruído, agressão ou atraso. O diferente não provoca reflexão, mas cansaço. O resultado é uma sociedade que se comunica intensamente, mas dialoga cada vez menos.
As redes sociais deram a essas BOLHAS uma função inédita: transformar pertencimento em poder, opinião em identidade e engajamento em dinheiro. O que antes era apenas convivência entre semelhantes tornou-se um sistema contínuo de validação mútua, no qual o grupo já não busca compreender o mundo, mas confirmar a si mesmo.
Nessas câmaras, a verdade não é aquilo que resiste ao confronto com o diferente, mas aquilo que circula bem, que recebe aplausos, que se adapta ao ritmo do algoritmo. A repetição cria hegemonia; a visibilidade produz legitimidade; o consenso aparente se confunde com evidência. Como mostrou Antonio Gramsci (Cadernos do Cárcere), toda hegemonia se sustenta quando uma visão de mundo passa a parecer natural — e hoje essa naturalização é produzida por métricas.
A busca por reconhecimento substitui a busca por verdade. Curtidas funcionam como certificados morais, e seguidores como autoridade simbólica. O discurso não precisa ser verdadeiro; precisa ser APROVADO. Aqui, a crítica de Jürgen Habermas (Teoria do Agir Comunicativo) se atualiza: o espaço do diálogo é colonizado pela lógica do mercado, e falar deixa de ser um ato de entendimento para se tornar uma estratégia de alcance.
O que hoje chamamos de câmaras de eco não é, portanto, uma invenção das redes sociais. Trata-se da atualização tecnológica de uma estrutura antiga: a tendência humana a converter convivência em consenso, e consenso em verdade.
No fim, as câmaras de eco não apenas empobrecem o debate público: elas convertem a verdade em mercadoria e o pensamento em performance. Quando a concordância vale mais que o argumento, e o engajamento mais que a realidade, já não se trata de erro ou ignorância — trata-se de um sistema que lucra com a suspensão do pensamento. Onde todos concordam, ninguém pensa.
Eu ainda mantenho contato com muitos membros do “grupo onda” da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, entre eles o que considero meu melhor amigo, João Batista Teixeira, o Tita, meu padrinho de casamento. Tenho consciência de que vivemos em bolhas diferentes, até ideológicas, mas NUNCA NOS FALTOU O RESPEITO MÚTUO, afinal somos irmãos em Cristo e de afinidade. E você amigo leitor, tem consciência de qual “câmara de eco” você participa? Procuro manter a mente aberta para o pluralismo de pensamento e para a espiritualidade. E você? Como alimenta sua mente e sua alma? Pense nisso,
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Este post tem um comentário
Caro Warly,
eu li seu texto com atenção genuína e preciso começar reconhecendo a força do seu olhar. Você parte da própria juventude em Parintins, do grupo ONDA na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, e transforma memória em análise estrutural. Isso não é comum. Você não fala de “bolhas” como abstração; você fala de pertencimento vivido — e é justamente por isso que o argumento ganha densidade.
Quando você conecta sua experiência ao experimento de Ron Jones, retratado em “A Onda”, você evidencia algo central: o fascínio da identidade coletiva não nasce do ódio, nasce do pertencimento. E esse dado é crucial. O totalitarismo não se impõe apenas pela força, mas pela sedução da unanimidade.
Sua leitura de Hannah Arendt é precisa. Em “Origens do Totalitarismo”, ela demonstra que a ideologia prospera no isolamento — não na divergência. O que você faz é atualizar essa tese para as câmaras de eco digitais, onde o isolamento não é físico, é algorítmico. Isso é um ponto forte do seu texto.
Quando você convoca Foucault e sua ideia de “regime de verdade”, você não relativiza a verdade — você mostra como ela é administrada. E ao trazer Byung-Chul Han, você amplia: hoje não é a censura que silencia, é o excesso de confirmação. A invisibilidade do diferente substituiu a repressão.
Seu uso de Gramsci e Habermas fecha o ciclo com lucidez: métricas produzem hegemonia e o diálogo é colonizado pela lógica do mercado. Aqui está o núcleo do seu argumento: onde a concordância vale mais que o argumento, o pensamento se atrofia.
Agradeço especialmente seu testemunho final sobre Tita. Ele prova que é possível habitar bolhas diferentes sem romper o respeito. Esse dado humano sustenta toda a crítica.
Você não escreveu apenas sobre bolhas. Você escreveu sobre a coragem de pensar fora delas.