Por Ricardo Gomes*
Segue para Valhalla, destino dos verdadeiros Guerreiros, o poeta urbano Carioca Marcelo Yuka, ícone da minha geração que, com exemplo, e não só com argumentos, que ele também tinha demais, ajudou muito à formar o pensamento crítico da realidade social Brasileira, inclusive o da minha geração.
Com a partida dele, infelizmente, perde-se muito, pois, sabia ver o cenário do contexto político-socisl ao seu redor, traduzindo-o dentro de reflexões intensas, difíceis de serem observadas hoje em dia.
Como uma bílis, poetas urbanos tendem à liquefazer a gordura que encobre a verdade que as mídias pagas não revelam, daí sua utilidade e finalidade social das que foram musicadas, e que ao contrário das “letras” (?) das músicas dos artistas mais vendidos pós anos 80 e 90, que tem muito volume de produção, muita propaganda,nenhuma poesia e muito menos qualquer conteúdo, que faça alguém refletir … se quer se o sol é quente ou frio.
Daqui, lamento não só a partida de um Cidadão, na melhor tradução da palavra, porém, otimista que sou, prefiro revisitar sua vasta obra, que foi muito além das letras do Rappa, em razão do seu enorme conteúdo interno, sempre represado, passando por literatura, cinema, ativismo em Política e Direitos Humanos, sempre com um carioquismo inconfundível .
Há exatos 20 anos atrás, mais uma vez, Yuka fez o Brasil refletir ao expor seu pensamento privilegiado ao observar, de dentro, a aparente “segurança” de um condomínio no Rio de Janeiro :
“ As grades do condomínio são pra trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está nessa prisão”
(Minha Alma)
Sem dúvida, uma verdade com mais profundidade do que as palavras conseguem descrever, e, particularmente, também me vi, várias vezes, implodindo meus castelos de areia, abrindo mão da “paz que eu não quero ter”, ou seja, as vidas de conveniência, que jamais serão mais prazerosas do que as vidas de verdade, ressaltando que sempre há um preço a ser pago por essas escolhas .
A mim, também marcou a interpretação pitoresca de Miséria S/A e tantas outras obras primas, como “O que sobrou do céu“, que traduzem, principalmente, o cotidiano moderno do universo urbano, fora dos bairros que aparecem nas novelas e nos comerciais de margarina e alcançam aos ouvidos e corações suburbanos dos quem foram criados com “todas as ciências de baixa tecnologia“.
Rememoro aqui algumas tiragens do Yuka:
“Todo Camburão tem um Pouco de Navio Negreiro” (1994)
“É mole de ver que em qualquer dura o tempo passa mais lento pro negão.
Quem segurava com força a chibata agora usa farda.
Engatilha a macaca. Escolhe sempre o primeiro negro pra passar na revista”
“A feira” (1996)
“Quem me fornece é que ganha mais. A clientela é vasta, eu sei. Porque os remédios normais nem sempre amenizam a pressão.”
“Pescador de ilusões” (1996)
“Estarei pronto pra comemorar se eu me tornar menos faminto que curioso. O mar escuro trará o medo lado a lado com os corais mais coloridos. Valeu a pena, sou pescador de ilusões”
“Tribunal de rua” (1999)
“Era só mais uma dura, resquício da ditadura, mostrando a mentalidade de quem se sente autoridade neste tribunal de rua”
“Me deixa” (1999)
“Podem os homens vir que não vão me abalar.
Os cães farejam o medo, logo não vão nos encontrar.
Não se trata de coragem, mas meus olhos estão distantes, me camuflam na paisagem, dando um tempo pra cantar”
“O que sobrou do céu” (1999)
“Faltou luz mas era dia… O som das crianças brincando nas ruas como se fosse um quintal, a cerveja gelada na esquina como se espantasse o mal“
“Minha Alma (a paz que eu não quero)
“Me abrace e me dê um beijo, faça um filho comigo, mas não me deixe sentar na poltrona no dia de domingo. Procurando novas drogas de aluguel nesse vídeo coagido é pela paz que eu não quero seguir admitindo “
…
Segue em busca da Paz definitiva, Yuka; aquela que você, Eu e tantos outros, precisamos e buscamos ter, mesmo abrindo mão de outras que, por autenticidade, nunca quisemos .
*Ricardo Gomes é advogado, professor universitário e consultor (ricardogomes@ricardogomes.adv. br)
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