Apesar dos pesares estamos avançando

No ano de 2018, bem antes de assumir esse novo mandato à frente da Fundação Hospitalar Alfredo da Matta/FUHAM, eu, como epidemiologista, já imaginava um cenário não muito confortável para a Hanseníase no nosso estado, sobretudo, porque por mais de dez anos entre 2008 e 2018, as atividades relativas ao enfrentamento dessa endemia, quedaram-se inertes por falta de recursos humanos e investimentos públicos e menos pela falta de conhecimento técnico ou compromisso institucionais.

Para quem não sabe, o Amazonas, durante mais de 80 anos, liderou o ranking nacional como estado mais prevalente(soma de casos novos e antigos) dessa terrível doença que se mantém endêmica na nossa região.
Foi, somente a partir da primeira metade dos anos de 1980, que avançamos positivamente e alcançamos hoje a vigésima posição nesse ranking.
Patamar de certa forma confortável se considerarmos que em quarenta anos, avançamos cada passo nesse ranking sem nunca retroagirmos de posição.
A fim de encararmos esse cenário negativo de forma organizada e determinada e enfrentarmos o avanço da Hanseníase, idealizamos, junto com uma equipe técnica das mais conceituadas e comprometidas, aquilo que se transformaria na mais importante ação de combate a uma doença endêmica que o estado já organizou e tem conhecimento.
Trata-se do Projeto APELI- Ação Para Eliminação da Hanseníase tocado pela FUHAM desde 2019.
Plano traçado, custos estimados, equipe treinada e a postos, insumos e medicamentos definidos, metas estabelecidas e municípios escolhidos pela lógica epidemiológica dos mais prevalentes, partimos então para a realização de uma ação piloto a fim de azeitarmos a equipe e comprovarmos de fato a hipótese de que, no estado, havia uma endemia oculta de Hanseníase.
O Município escolhido foi Autazes pelas suas peculiaridades geográficas que nos facilitava a logística, pelas suas características populacionais que abrigavam povos indígenas, pela situação epidemiológica com muitos casos da doença em registro ativo e pelo compromisso político da gestão local que muito facilitou a realização dessa primeira ação do Projeto APELI.
O resultado foi assombroso do ponto de vista sanitário e epidemiológico posto que em 20 dias de atividades descobrimos 19 casos novos sendo quase metade em indígenas e 4 casos em menores de 15 anos.
A partir dos resultados obtidos nem Autazes, elaboramos novas estratégias e objetivamos alcançar metas epidemiológicas mais ambiciosas a fim de nos prepararmos para alcançar outras cidades mais complexas, maiores e com cenários da doença mais graves.
É assim foi feito!
Invadimos, no bom sentido, outros cinco municípios do estado e diagnosticamos ao todo 102 casos novos de Hanseníase.
Por trás desse número, estão escondidos uma série de problemas relacionados com debilidades, dificuldades e descaso das autoridades sanitárias e políticas locais.
Para que se entenda a dinâmica dos fatos e da realidade, é preciso fazer uma contextualização.
A FUHAM abriga e coordena no estado, há mais de 43 anos, a Coordenação do Programa de Controle da Hansenía, não por escolha nem por imposição.
Foram as circunstâncias e a negligência política e sanitária que, em 1979, determinaram que essa Coordenação fosse transferida para a Fundação.
É pois, a partir desse episódio, que os rumos da Hanseníase no estado foram traçados e chegamos aonde estamos  em termos de resultados principalmente relacionados ao controle da doença.
Retornemos então às ações do Projeto APELI e aos cenários que encaramos nos municípios.
É preciso que se evidencie quão tem sido dificultosa a operacionalização das ações, o quanto tem sido desgastante encararmos a letargia dos agentes públicos locais e quanto de negligência e despreparo enfrentamos, apesar dos esforços e dedicação das equipes locais.
Mas, é para esse grau de dificuldades, que a equipe operacional do Projeto APELI está e segue preparada a fim de deixarmos um legado de capacitação, plano estratégico de ação entregue, gestão local de coordenação de ações treinada, material educativo e insumos e medicamentos básicos e especializados doados, entre outros benefícios para os municípios visitados, os que nem sempre estão no mesmo nível de desorganização e negligência.
Há cidades que mesmo em meio às dificuldades e debilidades gerenciais e políticas, conseguem suplantá-las e assumem o protagonismo de nos ajudar nessa jornada e alcançarem a meta de eliminação da doença.
A depender apenas das autoridades sanitárias e políticas locais, mais políticas do que sanitárias é bom que se destaque, penso que muitas cidades não avançarão mantendo-se tristemente numa posição sanitária e epidemiológica desconfortável por pura desídia, inabilidade e má vontade políticas.
O papel da Fundação Alfredo da Matta enquanto Centro de Referência e Coordenadora das políticas de controle e eliminação da Hanseníase no estado, é o de continuar exercendo seu papel e executando seu mister definido no seu estatuto.
Há que se reconhecer que o o governo do estado e a Secretaria de Saúde, têm destinado os recursos e prestado todo apoio a essas ações.
Nesse ano, já a partir deste mês em curso, daremos início à segunda etapa do Projeto APELI levando as ações de controle da Hanseníase para mais oito municípios, dentre os quais, a maioria daqueles que se situam no cenário mais grave da endemia.
Tomara que encontremos determinação, vontade política e ânimo tanto nos gestores quanto nas equipes de saúde, da educação e social locais. Isso faz uma grande diferença!
Que Deus nos ajude nessa jornada e, da parte da equipe técnica e operacional comprometida da FUHAM, sabemos que partiremos para uma empreitada desafiadora porém gratificante e vitoriosa.
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