A verdade desnudada

Por Dauro Braga*

Estou cada vez mais convicto que na idade da razão, essa que alguns costumam denominá-la de melhor idade e eu insisto em dizer que melhor idade é uma ova, pois como podemos chamar de melhor idade esse período da vida em que quase tudo nos é proibido, quando não é pelo médico e pela restrição de movimentos é pela disposição física, sem falar ainda que quase todo o corpo dói? Prefiro classificá-la como a idade da prudência e da observação. Porque não dizer que é também a idade do “condor” ou mesmo do “caburé”? Nessa idade nosso corpo dói em todo canto e procedemos tal qual o caburé, que não fala nada, mas presta uma atenção danada…Há exceções à regra, existem aqueles que falam até pelos cotovelos, são os chamados velhos rabugentos e faladores. Deus me livre desse tipo de gente! Pois bem, nessa idade mais contemplativa do que participativa, nos acostumamos tanto a vivenciar a dor da partida e o vazio da saudade que já nos esquecemos da alegria e da sensação gostosa da chegada. Quando éramos jovens estávamos sempre presentes aos grandes folguedos onde se celebrava a chegada de amigos, tudo era festa, tudo era alegria. Aos que, pela graça de Deus, já adentraram a tal da “melhor idade”, já repararam que cada vez mais rareia os convites para festas de casamento, batizado, aniversários inaugurações, etc. ao passo que, os convites para velório, missa de sétimo dia, enterro, visitas a enfermos e outros eventos do mesmo nível se multiplicam cada vez mais? Já notaram que em conversa de jovens o papo que rola é sobre namoricos, festas, passeios, roupas novas etc. e em que em suas mãos o que se vêm são tabletes, celulares modernos e latinhas de cerveja, enquanto que em papo de velho só se fala em resultado de exames de laboratório, laudos de radiografias, dores em articulações, troca de receitas, e que suas mãos estão sempre ocupadas com potes de materiais para exames, receituários e frascos de remédio? Dia desses encontrei na fila do laboratório com um amigo que no passado era metido a galã conquistador, disputadíssimo pela mulherada enxerida da época, postando em suas mãos um coletor cheio de fezes para exame. Ao me vê, quis se esconder mas não teve jeito, pois eu me dirigi até ele e disse-lhe, quanta diferença amigo, no passado nos encontrávamos costumeiramente nas filas das boates, quase sempre, com uma garrada de scotch numa mão, na outra um maço de cigarro e a cabeça cheia de projetos de conquista e estratégias de abordagem as “lebres”.kkk. Ouvindo isso as pessoas que estavam próximas soltaram uma sonora gargalhada, enquanto que, o amigo parece que ficou maio constrangido com as minhas colocações. Dane-se! É isso aí amigo leitor, essa é a verdade nua e crua.

Não faz muito tempo, eu tive a grata satisfação de viver momentos agradáveis quando recebi a visita das minhas queridas oito irmãs que vieram do Ceará para comemorarem as minhas bodas de ouro. Durante os poucos dias que aqui permaneceram, foi só festa e alegria, rememoramos velhos amigos e momentos agradáveis vivenciados durante a nossa infância e adolescência ao lado de nossos pais.  Porém, como os momentos alegres e felizes têm a duração de um segundo ao passo que nas tristezas o relógio parece que não anda, chegou o inevitável dia da partida levando com ele as alegrias e deixando como legado o vazio da saudade.

Alcançamos a longevidade pela vontade de Deus. Hoje chego a questionar, será que viver muito é uma dádiva de Deus ou um castigo que recebemos por termos cometido algumas faltas graves em algumas fases da nossa reencarnação? Ao nosso questionamento, um dia Deus nos responderá. Enquanto isso, é oportuno irmos curtindo a nossa dor sozinhos, na esperança de um dia encontrarmos com a doce ilusão dos nossos sonhos de juventude que foram levados pelo turbilhão de ventos devastadores do impiedoso tempo que nunca para.

 

*O autor é empresário (daurofbraga@hotmail.com)

 

 

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