A justiça
São Paulo Apóstolo, do alto da sabedoria e da eloquência que carregava, numa das inúmeras cartas dirigidas aos cristãos daquela época, escreveu talvez a sua mais sublime passagem dirigida ao povo de Corinto.
São Paulo era judeu da tribo de Benjamim nascido em Tarso na Silícia hoje Turquia e convertido ao cristianismo de uma forma absolutamente arrebatadora.
O que esse santo homem jamais poderia imaginar era que alguém, mais de vinte séculos depois, fosse aproveitar seu lindo texto sobre o amor para aplicar, ainda que de um modo transverso, o mesmo ritmo vernacular logicamente bem longe da lucidez do apóstolo de Cristo.
Minha, talvez, malsucesida tentativa, é traçar um paralelo, ainda que imperfeito, entre a bela passagem paulina e o que se pode falar sobre justiça.
E porquê então escolhi falar sobre justiça, esse substantivo feminino abstrato, para escrever esse artigo?
Não custa nada lembrar que vivemos num país em que todo santo dia se espanca a lei, se subverte a ordem e a pobre da nossa justiça é torpemente achincalhada e jogada no lixo, exatamente por quem deveria primar por fazê-la prevalecer.
E antes mesmo de iniciar já vou repetindo São Paulo quando ele afirma de um modo contundente é desconcertante: “O amor não se alegra com a injustiça…”. Vamos lá!
Ainda que se escreva e se leia de modos inspiradores e edificantes sobre a justiça, será como água salgada para a sede ou como o furacão para o barraco, todas as vezes que ela é mal aplicada.
Ainda que sejamos sábios o suficiente para prevermos o futuro e tenhamos o domínio do tempo, se não formos justos, de nada valerá nosso conhecimento.
Ainda que eu seja generoso e sublimar meu ser ao sofrimento, se eu não agir com justiça será como atirar pérola aos porcos.
A justa justiça é cega, não é vingativa nem orgulhosa, nem rancorosa. A justiça é paciente sem ser morosa e é inimiga da impunidade.
A justiça sente gáudio com a verdade, anda lado a lado com a bondade e se irrita com a inveja. Ela não amedronta nem bajula.
A justiça nunca esmorece e jamais favorece quem não merece. A boa justiça é includente e não odiosa.
Não é negligente, não tem lado nem interesses e deve ser movida mormente a favor dos indefesos.
Pela justiça tudo deve ser buscado, a harmonia, o equilíbrio, a sensatez, a ordem e o respeito.
Tudo o mais passará porém, sem o sabor da justiça, nada prevalecerá para o bem e para a paz.
A justiça não pode tardar tampouco falhar. Deve ser compassiva sem ser indulgente, agir com dureza sem ser tirana, punir sem ser persecutória.
Não governa, antes, age para tornar governos e governantes intrumentos da aplicação da própria justiça.
Tudo pode, tudo busca, tudo luta mas em nada se ensoberbece.
Passará o saber, perecerão os livros e
a ciência um dia acabará porém, ao final, a justiça se estabelecerá com a fé, com a esperança e com a caridade.
São Paulo, que foi vítima de uma torpe perseguição por inveja e sobre quem se aplicou uma “justiça” odienta, sangrenta e persecutória que lhe valerem o próprio pescoço em nome da fé, hoje ficaria horrorizado com o que se passa no Brasil.
Vivemos sob um arremedo de justiça. O que prevalece é a decisão de poucos que submetem os demais às suas visões oblíquas e degeneradas sobre o que seja a verdadeira justiça.
Milhares de brasileiros e dois poderes da república vivem sob o jugo de uma justiça suprema que teima em andar paralela à Constituição sem a menor intenção de se encontrarem e se completarem lá na frente para fazerem prevalecer a verdade.
Sei muito bem onde isso pode dar. E tudo o que pode acontecer vai acontecer conforme a equação quase cartesiana de Murphi.
O Brasil, em termos de justiça, anda para trás e numa corda bamba ou sob o fio de uma navalha.
Não custa nada lembrar, que os países que permitiram a supremacia de um poder constituído sobre os demais, produziram tiranetes ou figuras extremamente perigosas as quais põem em risco o pleno funcionamento justiça e da democracia. Quem viver verá.
Té logo!
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