A eucaristia 

As famílias dos priminhos Bito e Maú, tiveram que mudar de cidade porque a empresa para a qual seus pais trabalhavam, montou uma filial noutra localidade.
Chegando ao novo e abençoado lugar, essas fervorosas famílias foram morar em casas distantes uma da outra porém, na mesma rua.

Já adequados à nova rotina e ambientados aos costumes do novo local, o que mais povoava o pensamento, alegrava o coração e aguçava a alma dessas felizes crianças era a chegada dos dias de domingo.
Embora ainda não frequentassem as aulas de catequese para um dia fazerem a primeira comunhão, porquanto não tinham a idade ideal, para esses pequenos, ir à missa na companhia dos pais, era encarado como a suprema alegria de estar diante de Deus na igreja, além do fato de encontrarem os amiguinhos o que os enchia de contentamento.
Padre Gabriel, que havia pouco tempo chegado ao povoado para substituir o antigo pároco, possuía o dom de interagir com as crianças mantendo-as vidradas durante a homilia e isso encantava a toda a meninada especialmente Bito e Maú.
A bela igrejinha do lugar era dedicada a São Luiz Gonzaga, padroeiro dos jovens, e se situava numa elevação no final da rua, alcançada que era por uma suave escadaria de pedras.
Tratava-se de uma capela simples sem torres, revestida de estuque, uma espécie de argamassa em que se misturam pó de mármore, areia e gesso, o que conferia ao edifício um aspecto envelhecido porém conservado que, sob o sol em certas horas do dia, cintilava.
Por dentro, a igreja era de uma beleza sem igual. O piso era todo de ladrilhos formando mosaicos coloridos e, os bancos, eram de madeira de lei. Seis robustas colunas de cada lado totalizando o número de apóstolos, sustentavam um teto azul celeste todo abobadado com pinturas multicoloridas de anjos e arcanjos. Um altar com a imagem do padroeiro e dois altares laterais dedicados a Nossa Senhora Auxiliadora e a Santa Rita de Cássia, formavam a nave central do templo.
Era esse ambiente que encantava adultos e crianças muitas delas vindas de povoados vizinhos para assistirem as celebrações ou participarem das festividades do padroeiro celebrado no dia 21 de junho.
Naquele domingo de junho, solene mês da celebração de Corpus Cristi, o dia havia amanhecido nublado e as chances de chover eram muitas.
Por conta desse clima agradável e como que combinado entre eles, nada fazia com que os primos Bito e Maú se levantassem da cama apesar dos doces chamados das mamães de ambos.
Ainda envoltos em pesados edredons parecia que suas camas, naquela manhã, possuíam um imã a atraí-los para o aconchego do calor dos colchões.
Bito foi o primeiro a levantar e foi direto ao banho para a higiene matinal. Mais que depressa vestiu sua roupa e sentou-se à mesa para tomar o café da manhã.
-Mamãe, vamos logo, que no caminho, vamos passar na casa da Maú para irmos juntos à missa! Assim se expressou um ansioso Bito.
E seguiram a pé mãe, pai e um Bito todo selerepe e feliz.
Ao se aproximarem da casa de Maú já a encontraram posta de pé com seus pais; ela devidamente vestida para uma ocasião tão sublime como a missa, para onde todos rumaram juntos a pé.
Fazia uma friaca com tempo nublado então, capas e guarda chuvas, eram equipamentos obrigatórios.
-Vamos logo gente! antes que a chuva caia. Bradava uma Maú cheia de vontade de logo alcançar a igrejinha.
Capela lotada, em completo silêncio onde algumas senhorinhas com véus na cabeça e senhores circunspetos, rezavam o Santo Terço antes da missa iniciar.
As crianças, a maioria quieta nos seus lugares e, algumas, a se desgrudar dos pais, andavam pelo espaço e, com seus inocentes modos de rezar, paravam em frente às imagens dos Santos nos altares, fazendo sempre a genuflexão como gesto de respeito.
O suave badalar de um sino, foi o sinal para o início da missa.
Padre Gabriel, coroinhas, ministros da eucaristia e leitores, formavam a procissão de entrada com uma belo canto inicial entoado pelo coro da igreja.
Naquela manhã, com certeza,a pregação seria completamente devotada à exaltação da santa comunhão como de fato o foi, pois Padre Gabriel era um sacerdote apaixonado pelo corpo e sangue de Jesus encerrados na sagrada eucaristia.
Dirigindo-se às crianças, o devotado padre assim se expressou:
-Meus filhinhos, daqui a pouco na hora da consagração, aquilo que é pão será transformado no corpo e o que é vinho se transformará no sangue de Jesus, tudo sob a determinação soberana de Deus.
-Aqueles que receberem a hóstia consagrada, de fato estarão comendo do corpo e do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo que um dia prometeu ficar para sempre conosco no sacrifício pascal em todas as missas.
-Já não teremos mais o pão, já não teremos mais o vinho. Tudo pois, serão verdadeiramente o corpo, o sangue, a alma e a  divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.
-Mas, para receberem corpo e sangue de Jesus, todos devem estar com os corações e as mentes purificados dos pecados após uma boa confissão.
-Vocês crianças, que ainda não frequentaram a catequese para se prepararem para a primeira comunhão, devem observar seus pais e demais fiéis ao receberem a hóstia consagrada. Todo respeito, silêncio e sem gestos extravagantes, assim deve ser o comportamento dos que vão receber o corpo de Jesus.
Formada a fila para a a comunhão, muitas crianças acompanhavam seus pais, atentas e ávidas como que treinando para um dia, igualmente, receberem o corpo e sangue de Jesus em seus corações.
Assim era com Bito e Maú, ao olharem atentamente de baixo para cima ao verem seus pais receberem a santa eucaristia das mãos do sacerdote.
Quanta vontade de um dia também poderem receber Jesus na boca!
Que alegria por saberem que seus pais estavam sempre preparados para aquele momento sublime!
Com toda certeza, Deus já planta no coraçãozinho de cada criança que frequenta as missas com seus pais, a semente do amor a Deus para um dia igualmente receberem a sagrada comunhão do corpo e sangue de Jesus.
Após a comunhão dos adultos e jovens, as crianças também formavam fila para receberem os pãezinhos abençoados pelo Padre Gabriel já ensaiando para, no futuro, receberem corpo e sangue de Jesus como ensinou o sacerdote.
Ao final da celebração veio o momento mais aguardado. Era a hora da adoração ao Santíssimo.
Todos postos de joelhos, inclusive as crianças, o celebrante paramentado diante do ostensório postado ao centro do altar em tom solene, entoou o Tantum Ergo.
Bito e Maú com olhinhos fixos em Jesus sacramentado e mãozinhas postas em forma de amém no peito, se sentiam absolutamente atraídos como que por raios de luz a emanar do centro da Hóstia Consagrada.
Eram ali frente a frente: Os preferidos de Jesus diante d’Ele e Jesus diante dos seus amados pequeninos.
Amém!

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