Tem dinheiro, dá pra fazer!
Esse foi o slogan da campanha eleitoral para prefeito de Manaus, do político Marcelo Ramos em 2016. A frase resumia a principal crítica do então candidato ao adversário Artur Neto, que buscava a reeleição: a arrecadação da prefeitura era suficiente para resolver problemas básicos da cidade como educação, saúde, infra estrutura urbana. Eu estava no Rio de Janeiro e Artur pediu que viesse para Manaus ajudar na sua campanha e em total colaboração com o estrategista de marketing, Marcos Martinelli. Fiquei trabalhando “home office” e atento a toda “conversa eleitoral”.
Fomos ao segundo turno e comecei a perceber que algumas propostas de governo do adversário do Artur eram um pouco fora da realidade ou de difícil compreensão. Fiz então dois “memes” para o facebook. No primeiro, numa foto de sol escaldante e a imagem do Marcelo Ramos em primeiro plano, escrevi: Marcelo promete instalar um ar condicionado central em Manaus. Tem dinheiro, dá pra fazer! (rs) Na segunda, foto do Largo São Sebastião, centro da cidade, coberto de neve, imagem do adversário e a frase: Marcelo Ramos promete fazer nevar em Manaus. Tem dinheiro, dá pra fazer! (rs) Pedi para o jornalista Hiel Levy, que tinha mais seguidores do que eu, publicar na página dele no Facebook e o meme do ar condicionado viralizou. Naturalmente, em seguida na rede social, apareceram dezenas de memes de muita criatividade. Colocaram até o encontro das águas (fenômeno natural dos rios Amazonas e Negro) em frente da Ponta Negra (ponto turístico e de lazer da capital) (rs). O fato é que conseguimos fazer com que o eleitor passasse a duvidar das propostas do candidato usando o humor. E Artur vendeu a eleição. Claro, o descrédito das propostas do Marcelo não foram o único motivo da sua derrota. Mas este é um exemplo de como o eleitor primeiro faz uma escolha emocional na hora de votar.
“A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante da sociedade democrática.”
A frase acima não foi dita por um ditador. Foi escrita por Edward Bernays, austro-americano, teórico da comunicação, considerado o pai das relações públicas modernas e um dos maiores especialistas em propaganda política da história. A afirmação é desconfortável porque sugere algo que poucos gostam de admitir: a maioria das decisões políticas não nasce da razão. Nasce da emoção. A democracia moderna gosta de se apresentar como o governo da escolha consciente. Mas a psicologia, a sociologia e a experiência histórica apontam para outra direção. O eleitor médio raramente escolhe após analisar profundamente propostas, indicadores econômicos ou projetos de longo prazo. Ele escolhe aquilo que o faz sentir alguma coisa. Esperança. Medo. Raiva. Identificação. Ressentimento. Pertencimento. Sentir graça (como no caso dos memes sobre “Tem dinheiro, dá pra fazer”).
Primeiro sentimos. Depois justificamos racionalmente aquilo que já decidimos emocionalmente. O psicólogo israelense Daniel Kahneman demonstrou em “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar” que grande parte das decisões humanas é tomada por processos intuitivos e emocionais muito antes da intervenção da razão consciente. A política moderna aprendeu essa lição. E transformou-a em método.
Em 1895, o francês Gustave Le Bon publicou “Psicologia das Multidões”, obra que continua assustadoramente atual. Segundo ele, quando inseridos em grandes grupos, os indivíduos tornam-se mais suscetíveis a símbolos, slogans, líderes carismáticos e narrativas simplificadas. A multidão não pensa como um filósofo. A multidão sente. Por isso campanhas eleitorais raramente vencem pela qualidade técnica de seus programas de governo. Elas vencem pela capacidade de criar uma narrativa emocional poderosa. O candidato deixa de ser um gestor. Torna-se um símbolo. Uma esperança. Uma bandeira. Um mito.
Talvez nenhum país demonstre tão claramente esse fenômeno quanto o Brasil. Nossa história política parece uma sucessão interminável de messias eleitorais. A cada eleição surge alguém prometendo combater a corrupção. Alguém prometendo defender os pobres. Alguém prometendo restaurar a moralidade. Alguém prometendo derrotar o sistema. Mudam os nomes. Mudam os partidos. Mudam os slogans. Mas a estrutura psicológica permanece a mesma.
O sociólogo e psicólogo alemão naturalizado norte-americano Erich Fromm observava que muitos indivíduos preferem entregar sua autonomia a figuras fortes porque a liberdade exige responsabilidade. A ideia de um líder que resolverá todos os problemas é psicologicamente mais confortável do que a realidade de reformas complexas, graduais e demoradas. Projetos exigem análise. Salvadores exigem fé. E a fé sempre foi mais popular do que planilhas.
Existe um dado que deveria ocupar diariamente as manchetes dos jornais brasileiros. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), aproximadamente 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. Estamos falando de dezenas de milhões de pessoas que possuem dificuldades significativas para interpretar textos, compreender informações complexas e analisar criticamente argumentos. Uma democracia pressupõe cidadãos capazes de compreender aquilo sobre o que decidem. Mas como esperar escolhas políticas sofisticadas quando uma parcela tão expressiva da população encontra dificuldades para compreender informações básicas?
O espanhol José Ortega y Gasset, em “A Rebelião das Massas”, chama a atenção para a ascensão do homem-massa: o indivíduo que acredita ter opinião sobre tudo sem considerar necessário estudar profundamente nada. A democracia depende de cidadãos. Não apenas de eleitores.
Quando observamos os resultados internacionais da educação brasileira, a situação torna-se ainda mais preocupante. O Brasil permanece entre os países com pior desempenho em matemática, leitura e ciências nas avaliações internacionais. Enquanto diversas nações transformaram a educação em prioridade estratégica de Estado, o Brasil continua discutindo seus efeitos sem atacar seriamente suas causas. E aqui surge uma pergunta incômoda. Quem realmente se beneficia de uma população altamente instruída? Uma população educada questiona. Uma população educada compara dados. Uma população educada exige resultados. Uma população educada identifica contradições. Uma população educada torna-se menos vulnerável à propaganda.
O sociólogo italiano Vilfredo Pareto observou que toda sociedade possui elites que disputam o controle do poder. Quanto maior a capacidade crítica da população, mais difícil se torna para qualquer elite monopolizar narrativas. Talvez por isso a educação seja tão celebrada nos discursos e tão negligenciada na prática.
Há ainda nessa questão do voto de qualidade, um peso crucial na balança. Programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, possuem papel relevante no combate à pobreza extrema. Negar isso seria negar a realidade.
Mas uma sociedade madura deveria fazer uma pergunta adicional: O objetivo é reduzir a pobreza ou aumentar permanentemente a dependência?
Atualmente, cerca de 54 milhões de brasileiros são alcançados pelo Bolsa Família.
Ao mesmo tempo, o país possui aproximadamente 39 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado. Os números não são diretamente comparáveis, mas revelam a dimensão do desafio nacional. A questão central não é a existência do benefício. A questão é a ausência de uma estratégia consistente para que cada vez menos brasileiros precisem dele.
O cientista político, jurista, historiador e sociólogo francês, Alexis de Tocqueville fala sobre o risco de uma forma suave de servidão, na qual o Estado não oprime diretamente os cidadãos, mas gradualmente os acostuma à dependência. Quando educação, produtividade e mobilidade social deixam de ser prioridades, a dependência deixa de ser uma emergência temporária.
Transforma-se em modelo permanente.
O também francês, Jean Baudrillard, crítico cultural, sociólogo e filósofo, argumentava que a sociedade contemporânea vive cercada por simulações. A política moderna tornou-se uma delas. Os candidatos transformaram-se em marcas. Os partidos transformaram-se em identidades emocionais. Os debates transformaram-se em espetáculos de torcida. O eleitor passa a defender políticos como quem defende times de futebol. A racionalidade desaparece. A identidade assume o comando. Não importa quem apresentou a melhor proposta. Importa quem representa a tribo correta.
Assim temos um círculo perfeito para quem quer permanecer no poder. A baixa educação gera menor capacidade crítica. Menor capacidade crítica amplia o poder da propaganda. A propaganda fortalece narrativas emocionais. Narrativas emocionais fortalecem lideranças messiânicas. Lideranças messiânicas prometem soluções rápidas para problemas complexos. Os problemas permanecem. A dependência cresce. E o ciclo recomeça. Não é um problema de direita. Não é um problema de esquerda. É um problema estrutural.
Talvez a verdadeira questão da democracia brasileira não seja quem vencerá a próxima eleição. Talvez a pergunta correta seja outra. O que acontece quando uma sociedade acostuma-se a escolher líderes pela emoção, depender economicamente do Estado e conviver com um sistema educacional incapaz de formar pensamento crítico em larga escala? Porque uma democracia não morre apenas quando os votos desaparecem. Ela também pode enfraquecer quando os votos continuam existindo, mas a capacidade de reflexão que deveria orientá-los vai desaparecendo. E nesse momento o marketing político deixa de ser uma ferramenta da democracia. Passa a ser o seu substituto.
E você? Já pensou sobre isso. Seu voto é emocional ou racional? Você pensa no futuro da Nação? Ou nos objetivos práticos (viver como reis) da elite do seu grupo ideológico?
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