Uma história das muitas vividas por Álvaro Pontes, radialista histórico que partiu hoje

alvaro pontes

Ele se vestia sempre de branco, dos pés à cabeça. Eu desconfiava que era por causa da religião, mas ele sempre dizia que era porque gostava, com um sorriso maroto no canto da boca. Vivia como se não houvesse amanhã e no final da vida emitia só um sussuro do vozeirão que lhe rendeu tanto sucesso nas ondas do rádio, nos idos de 70, 80 e até o comecinho dos anos 90. Álvaro Pontes partiu hoje e eu conto aqui apenas uma história dele que presenciei, entre as muitas que me contaram.

Era 1997. Eu havia arrendado o veterano Jornal do Commercio e ele apareceu por lá, se oferecendo para ser meu contato publicitário. Dizia que conseguiria patrocínio do Estado. Eu desconfiei que era papo furado, mas uns quinze dias depois ele apareceu dizendo que havia fechado negócio. “Consegui R$ 40 mil. Me garante 20%?”, mandou. Aceitei.

Descontados impostos, sobrou pouco mais de R$ 7 mil de comissão pra ele. Desempregado há algum tempo, estava ávido por uma boa farra. Foi em casa, deixou R$ 2 mil na mão da mulher para as “despesas de casa” e disse que ia viajar. Era uma sexta-feira. Decidi ir com alguns amigos ao pagode na quadra da Aparecida. Quando chegava lá, avistei o Álvaro sentando em um boteco, sózinho, tomando uma cerveja. Parei o carro e fui ao seu encontro. Estava feliz. “Queria sentir o gosto de uma gelada paga com meu dinheiro. Senta aí se quiser, mas tô cansado de te ver pagando as coisas pra mim. Se consumir aqui vai ter que me deixar pagar”. Sentei com ele por meia hora e o convidei para o samba, mas ele disse que já tinha compromisso.

Quatro dias depois o telefone toca na minha sala. Era ele. “Chefe, tem mil pra me emprestar?”, tascou. “Tu já gastante todo o teu dinheiro?”, retruquei. “Não me vem com sermão. Só responde a minha pergunta”, devolveu. Estava no Eros Motel, um dos mais caros da cidade. Na melhor suíte. Não podia sair porque estava devendo. Mandei um amigo tirá-lo de lá. Na volta, quis saber o que tinha acontecido.

“Não vou mentir. Fui pro motel na sexta, depois de encontrar vocês e chamei um time de amigos e amigas. Ficamos lá na farra até hoje. Agora vou pra casa dormir”.

Havia gasto os R$ 5 mil que lhe sobraram e ainda ficou devendo R$ 1 mil. Estava sem um tostão, mas morto de alegre. O amigo que foi buscá-lo disse que havia uma fileira de garrafas em volta do quarto. O consumo foi enorme.

Álvaro era desse jeito. Boêmio até não mais poder. Escolheu viver assim. Dizia que nada o abateria porque tinha o “corpo fechado”. O câncer, entretanto, entrou pela boca, sempre aberta a espera de um copo de cerveja ou do inseparável cigarro.

Morreu como passarinho. O piu-piu.

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