Manhã do dia 29 de julho de 2026. Uma energia positiva e de alegria tomou conta da enfermaria “Capitão Picolé”, no Hospital e Pronto Socorro da Zona Leste, o Joãozinho, em Manaus/AM. Naquele dia, três crianças receberam alta médica, entre elas, o meu filho Messias Netto. Fizemos até uma sessão de fotos para guardar lembrança de médicas e enfermeiras. Ali encerravam 42 dias de combate à infecção bacteriana depois que ele colocou uma DVP (Derivação Ventrículo-Peritoneal), que é a cirurgia mais comum para tratar a hidrocefalia (acúmulo de líquido no crânio), criando um caminho com um catéter (tubo fino) e uma válvula para esvaziar o excesso de líquido do cérebro.
Messias passou por 6 cirurgias no crânio. Primeiro no HUGV, uma endoscopia cerebral. As demais no Joãozinho para colocar e retirar a válvula que infeccionou; colocar drenos externos e para fazer acessos centrais para tomar a medicação. E por fim implantar a DVP novamente. Procedimentos comandados pela Dra. Ezari Fonseca e equipe de neurocirurgiões. A Dra. Ezari salvou a vida do nosso filho. Ela tem 35 anos de experiência nessa especialidade, professora universitária, primeira neurocirurgiã do Amazonas, considerada a “rainha das válvulas”, expert na solução de hidrocefalias. Eu fiquei o máximo de tempo ao lado do Messias Netto, chegando a passar sete dias diretos sem sair daquele lugar.
Tantos dias num hospital infantil, numa enfermaria com nove leitos, vendo dor, sofrimento, desespero de mães com seus filhos e filhas, fazem qualquer um refletir sobre a vida, a saúde e as relações humanas. Eu vi muitas coisas de cortar o coração. Bebês chorando por horas (não podem dizer onde dói). Mães atordoadas com diagnósticos complicados. E profissionais competentes e dedicados trabalhando sem parar. Profissionais com salários atrasados. Profissionais que recebem péssimas refeições de um restaurante que também não recebe seus pagamentos em dia. Profissionais monitorados por chefes severos e sob pressão de que “se reclamarem das condições de trabalho” são ameaçados de demissão. Profissionais que são agredidos verbalmente constantemente pela ignorância e falta de educação de pessoas que não valorizam o atendimento que recebem. Profissionais de todas as áreas do hospital que nunca ouvem um simples: “MUITO OBRIGADO!”
Há um hábito curioso no Brasil: quando algo dá errado na saúde pública, quase sempre a indignação encontra o alvo mais fácil. Grita-se com o médico. Ofende-se a enfermeira. Desrespeita-se o recepcionista. Ameaça-se o técnico de enfermagem. Como se fossem eles os responsáveis pelas filas, pela falta de leitos ou pelo atraso de um exame. A pergunta que poucos fazem é: quem ainda mantém esse sistema de pé?
O Sistema Único de Saúde (SUS), criado pela Constituição de 1988, é uma das maiores conquistas sociais da história brasileira. Poucos países tiveram a coragem de garantir, por lei, atendimento universal a uma população superior a 200 milhões de pessoas. Em diferentes formatos, Reino Unido, Canadá e Espanha também possuem sistemas públicos de saúde, enquanto países como os Estados Unidos dependem predominantemente de seguros privados, deixando milhões de pessoas vulneráveis aos altos custos do atendimento. O SUS, com todas as suas imperfeições, continua sendo um dos maiores sistemas públicos universais do planeta, se não, o maior.
O médico sanitarista brasileiro Sérgio Arouca, uma das principais lideranças da Reforma Sanitária, costumava afirmar que “saúde é democracia”. Não era apenas uma frase de efeito. Era a compreensão de que uma sociedade só pode se considerar verdadeiramente civilizada quando ninguém é abandonado à própria sorte por não ter dinheiro para pagar por um tratamento. Entretanto, o SUS é invisível justamente quando funciona.
Ele está na vacinação que impede epidemias antes que elas aconteçam. Está nos transplantes que devolvem anos de vida a milhares de pacientes. Está no SAMU que chega antes da tragédia se tornar definitiva. Está no controle sanitário dos alimentos, na distribuição de medicamentos de alto custo, na atenção básica que evita internações e nas campanhas de prevenção que silenciosamente salvam mais vidas do que muitas tecnologias sofisticadas. O epidemiologista britânico Michael Marmot, em The Health Gap, demonstra que a saúde de uma população depende muito mais das condições sociais e das políticas públicas do que da medicina isoladamente.
Talvez seja por isso que o maior problema do SUS nunca tenha sido apenas a medicina. Sempre foi política. Enquanto profissionais enfrentam plantões intermináveis, hospitais superlotados, equipamentos insuficientes e, em alguns lugares, salários atrasados, sucessivos escândalos de corrupção desviam recursos que deveriam comprar medicamentos, abrir leitos, realizar cirurgias e contratar equipes. Cada verba desviada representa um exame que deixa de ser realizado, uma consulta adiada, um tratamento interrompido e, muitas vezes, uma vida perdida.
A corrupção na saúde não produz apenas prejuízo financeiro. Produz sofrimento. Produz filas. Produz mortes evitáveis. E, no entanto, quem está na linha de frente continua trabalhando. Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, técnicos, psicólogos, assistentes sociais, maqueiros, recepcionistas, profissionais da limpeza e tantos outros seguem acolhendo pessoas que chegam assustadas, com dor, medo e esperança. Fazem isso sabendo que, muitas vezes, serão cobrados por problemas que jamais criaram.
Há uma injustiça silenciosa que raramente ocupa as manchetes. Quando o atendimento é bem-sucedido, poucos lembram do profissional que passou horas em um centro cirúrgico, atravessou uma madrugada inteira em um plantão ou confortou uma família diante de um diagnóstico difícil. Mas basta uma demora, muitas vezes provocada pela falta de estrutura, para que insultos, ameaças e agressões recaiam justamente sobre quem permaneceu ali, tentando fazer o melhor com os recursos disponíveis. Ao mesmo tempo, os políticos celebram a sua propaganda nos meios de comunicação dizendo que tudo funciona a “mil maravilhas” como se fosse no Sírio Libanês, um dos melhores hospitais privados do país.
Nada disso significa que o cidadão deva aceitar passivamente um serviço de baixa qualidade. Pelo contrário. Exigir eficiência, transparência e respeito é um direito. Mas existe uma diferença fundamental entre cobrar melhorias e humilhar quem dedica a própria vida a cuidar de desconhecidos.
O médico e bioeticista italiano Giovanni Berlinguer, em Ética da Saúde, lembrava que o direito à saúde depende também do compromisso moral de toda a sociedade. Direitos não sobrevivem sem responsabilidades. Um sistema público de saúde precisa de bons profissionais, de gestores honestos e também de cidadãos conscientes.
Talvez o Brasil nunca tenha aprendido uma lição simples: hospital não fabrica saúde; quem fabrica saúde são pessoas. O prédio não consola uma mãe. O equipamento não segura a mão de um paciente. O respirador não transmite esperança. São seres humanos que fazem isso. Antes de apontar o dedo para quem veste um jaleco, vale a pena perguntar quem realmente retirou medicamentos das prateleiras, adiou cirurgias, deixou hospitais sem manutenção ou transformou a saúde em moeda política. Raramente essa pessoa está no corredor do pronto-socorro.
O SUS não precisa de aplausos ingênuos nem de críticas vazias. Precisa de gestão competente, de intolerância absoluta com a corrupção e de respeito aos profissionais que sustentam, todos os dias, uma estrutura que frequentemente opera muito além de seus limites. Porque existe uma verdade incômoda que poucos têm coragem de admitir: o maior milagre do SUS não é atender milhões de brasileiros. É continuar salvando vidas apesar daqueles que, por negligência, incompetência ou corrupção, insistem em adoecer o próprio sistema.
E talvez devêssemos nos lembrar disso na próxima vez que entrarmos em um hospital público. Atrás de cada jaleco há alguém que escolheu cuidar da dor alheia. Atrás de muitos gabinetes, infelizmente, há quem nunca tenha sentido o peso de uma única vida perdida por causa de uma decisão desonesta. A diferença entre esses dois mundos explica por que o SUS continua existindo, e por que ele ainda precisa ser defendido, aperfeiçoado e protegido.
Meu testemunho é o de quê apesar da estrutura física do hospital Joãozinho precisar de melhorias, apesar das paredes corroídas, das cadeiras de acompanhantes rasgadas, duras e desconfortáveis, de não haver bebedouros em cada enfermaria, da comida servida “sebenta” e cheia de gorduras e até nervos, da pouca “salada” colocada num fundo de um copinho ou dos dez pedacinhos de melancia; nós fomos tratados com muita competência, profissionalismo, respeito, acolhimento e muito, muito carinho e atenção.
E pais e mães de verdade sabem reconhecer e ser gratos a quem trata bem um filho. Muito obrigado à Dra. Ezari Fonseca, a nossa mãezona; Dra. Cecília, a delicadeza em pessoa; Dr. Mauro, a seriedade competente; Dr. Rodrigo, profissional fantástico; Dra. Sonia, de muito carinho com Messias. Obrigado às enfermeiras Erika, Adrian, Tainá, Susie, Marilene, Ana, Raquel… Aos enfermeiros Francisco e Isaac. Obrigado às técnicas de enfermagem Erisângela, Yara, Miriam, Geilza, Karina, Carol… Às assistentes sociais Sandra e Vanessa, e toda equipe. Às responsaveis pela limpeza, dona Ana e dona Neide. Obrigado a tantos profissionais que tornaram nossa estadia no hospital Joãozinho um pouco mais agradável com simpatia, gentileza, um sorriso ou um simples “bom dia”. Gratidão!
Obrigado à senhora Fabiana Vinhote, seu marido Ivan Farias, a todos os pais, alunos e professores do Colégio Salesianas Auxiliadora que fizeram uma linda homenagem ao Messias Netto e transmissão ao vivo da apresentação da sua turma na festa junina do Colégio para a enfermaria do hospital. Gratidão!
Agradeço especialmente à minha irmã Wal Pontes que fez troca de acompanhante em turnos exaustivos no hospital e ainda deu apoio em casa com roupas e alimentação. À minha irmã Lia Pontes. E toda gratidão à minha namorada Suellen Abinader, que esteve todo tempo ao nosso lado apoiando, aconselhando, dirigindo nas emergências, fazendo entregas de roupas no hospital, orando… Uma companheira de verdade em todos os momentos, sempre com muito amor e carinho. Suellen até conseguiu, numa viagem a São Paulo, que o jogador de vôlei, ídolo máximo do esporte, Giba Godoy, gravasse um vídeo de incentivo ao Messias. “Vou aí comer costela de tambaqui com você”, disse ele.
Para finalizar deixo uma sugestão aos nossos parlamentares: tornem lei que ao final de cada atendimento no SUS, junto com a receita, com a alta médica… cada paciente receba um relatório, item por item, com os valores dos procedimentos realizados. Remédios, estrutura (água e energia), material, hora de trabalho dos profissionais. Assim talvez, muita gente deixasse a arrogância, a má educação, o ar de superioridade com que trata os profissionais da saúde, em casa. Que cada paciente veja o preço que o Estado paga (com muito atraso, é verdade) pela saúde pública. Como dizia meu pai, o que é dado de graça muitas vezes não recebe o devido valor. Pensem nisso!
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