Sal amargo

Por Ronaldo Derzy Amazonas*

Lembro bem que quando criança minha amada mãe recorria a um tratamento um tanto quanto amargo mas absolutamente eficaz contra a obstipação intestinal e administrava pros filhos um purgativo conhecido como sal amargo que nada mais nada menos era o nome popular do Sulfato de Magnésio; quem nunca tomou não tem noção de algo tão amargo e nauseante!l quem já experimentou um troço desse sabe muito bem do que estou falando!
Meu falecido pai “seo” Sandoval era um bom exemplo para os filhos de que remédio bom é remédio amargo porque para ele não tinha essa de ser doído, quente, amargo, doce ou fétido; remédio era remédio e pronto! e ele tomava sem murmurar.

E por falar em remédio amargo, o governo do estado acaba de adotar algumas medidas pra lá de indigestas a fim de garantir o equilíbrio das contas públicas sem o que o estado descambaria para a entropia fiscal tendo em vista a herança maldita que recebeu com um rombo financeiro de mais de um bilhão de reais apenas na saúde.

Como servidor e como gestor público não poderia me omitir e deixar de fazer uma análise sobre o tema posto que aqui neste espaço por várias vezes me manifestei sobre o assunto sempre na tentativa de contribuir lançando luz para as análises e manifestações para uma solução.

Primeiro de tudo é preciso que se reconheça o delicado momento de desequilíbrio fiscal porque passa o país com fortes repercussões nos demais estados da federação.

Segundo, há uma forte pressão sobre o modelo zona franca com retirada de vantagens comparativas da nossa indústria, redução de carga tributária, notadamente IPI, de alguns produtos com ganho para as indústrias das demais regiões do país o que reduz a arrecadação de impostos no Amazonas desequilibrando mais ainda nossas finanças.

Terceiro, não se pode olvidar, jamais, que os governos anteriores abriram as porteiras para as concessões salariais de algumas categorias de servidores, ampliaram demasiadamente as terceirizações na saúde, desmontaram a fiscalização pública fazendária, aumentaram sobremaneira o endividamento do estado, iniciaram obras sem o devido lastro orçamentário e financeiro, entre outras aberrações administrativas as quais levaram o estado a esse descalabro fiscal reinante que ora presenciamos.

Entretanto, não posso igualmente deixar de reconhecer e de frisar que o atual governo tardou muito em agir ante um quadro de desequilíbrio fiscal, orçamentário e financeiro vigentes no estado conquanto, se as atuais e acertadas medidas tivessem sido adotadas no início da gestão, talvez fossem melhor compreendidas e deglutidas pela sociedade; acho até que redução da máquina pública, diminuição de valores e do número de cargos comissionados, contenção de gastos supérfluos entre outras mediadas, soariam melhor e com menos impacto como ora se observa.

Penso, sinceramente, que há uma má vontade intencional por parte de alguns agentes políticos, sindicatos, associações e até por parte da mídia tradicional e das redes sociais as quais não querem perceber que a adoção das medidas de contenção de gastos, congelamento de salários e redução dos investimentos caso não sejam levadas a cabo, logo, logo, nos transformariam num Rio de Janeiro, numa Minas Gerais ou num Rio Grande do Sul para citar alguns estados onde a crise chegou e permanece promovendo atraso de salários, desinvestimento, paralisia estatal, desmonte e sucateamento da máquina pública, etc.

Especificamente sobre o Projeto de Lei aprovado na Assembleia Legislativa que trata do adiamento do pagamento das datas base das diversas categorias de servidores públicos, penso que estão fazendo uma tempestade em copo d’água visto que é necessário que se compreenda que a se manter os reajustes escalonados concedidos sem que antes o estado alcance o equilíbrio fiscal ideal fatalmente levaria as finanças públicas à falência com perda não somente para os servidores como também para toda a sociedade amazonense com fortes impactos negativos na saúde, na segurança, na educação e nos investimentos em infraestrutura tão necessários para o aumento do nível de emprego e de renda para o povo.

O remédio é amargo porém é para o bem do paciente.

Té logo!

*O autor é farmacêutico bioquímico e diretor-presidente da Fundação Hospital Alfredo da Matta

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