“Recua fascista, recua!”
Este “grito de ordem” é comum, hoje, na maioria das universidades federais do país. Estudantes militantes de partidos políticos de esquerda assim combatem e agridem fisicamente quem PENSA DIFERENTE, de dentro ou de fora da comunidade acadêmica. Na minha opinião, duas coisas deviam preocupar toda a sociedade com essas ações. A primeira é a demonstração pública da falência do ensino sob a tutela ideológica partidária. Quem grita “recua fascista, recua” parece desconhecer o que é fascismo (Estado totalitário e militar, partido único, prega a supremacia branca, trabalho em cooperativas e é contra tanto o liberalismo quanto o comunismo). O segundo fato preocupante é que estes militantes de esquerda tomaram conta da pauta política, filosófica e social das universidades federais sob o olhar conivente de professores e dirigentes também militantes de esquerda. Pergunta: A UNIVERSIDADE não é mais o lugar onde a propagação do conhecimento UNIVERSAL deve ser PLURAL? Na que eu estudei, aprendi sobre Karl Marx, mas também sobre Adam Smith. Se hoje algumas universidades federais, entre elas as mais importantes, viraram reduto de militância e propagação de ideologia de esquerda, não seria adequado que mudassem de nomenclatura? Não poderiam passar de universidade para ESCOLA FEDERAL DE PENSAMENTO DE ESQUERDA DE SÃO PAULO, por exemplo? Ao invés de USP. (rs).
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/1996) não prevê o ensino de nenhuma ideologia específica, seja de esquerda ou de direita. Na verdade, o texto da lei determina exatamente o oposto: a educação brasileira deve ser pautada pelo pluralismo de ideias e pela liberdade de aprender e ensinar. Os princípios fundamentais do ensino no Brasil estão expressos logo no início da lei, no Artigo 3º. O texto estabelece que o ensino será ministrado com base nos seguintes pontos: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, respeito à liberdade e apreço à tolerância. O que isso significa na prática? A legislação exige que a escola (incluindo as universidades) seja um espaço neutro no sentido de não impor uma doutrinação, abrindo espaço para o debate de diferentes correntes de pensamento filosófico, político e social. O objetivo final, segundo a própria LDB, é o “pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
Nos casos que já vi nas redes sociais, os agredidos e também agressores são militantes de direita, com o principal argumento de que o dinheiro público que financia o ensino público não deveria ter cor ideológica partidária. São, na maioria, jovens que buscam ascensão política eleitoral e registram estes confrontos em vídeos para a caça de “likes” e eleitores. Quem está certo? Na minha opinião nenhum dos dois lados. Afinal a história está cheia de exemplos de que o “extremismo político e de governo” nunca fez bem à grande maioria do povo.
Recentemente vimos um caso destes acontecendo na Ufam, a Universidade Federal do Amazonas, onde me formei em jornalismo, em 1995. Estudantes de direita, alheios à comunidade acadêmica da Ufam, arrancaram folhas de papel A4 penduradas em cordas (parece coisa de primário, rs) com palavras de ordem da esquerda. Depois, um vereador de Manaus e assessores tentaram fazer o mesmo, o que gerou novo confronto. Um dos cartazes “primários”, que apareceu na gravação do primeiro episódio, me chamou atenção: pregava a “morte do Deputado Federal Nicholas Ferreira”. Livre manifestação? Ou crime tipificado pelos artigos 29, 121, 147 e 286 do Código Penal Brasileiro? A reitoria da Ufam se apressou em condenar a atitude dos “invasores”, mas desconheço qualquer medida tomada para coibir a prática de “crimes” no espaço dos seus prédios públicos.
Lembro que, quando estudante, convivemos pacificamente e civilizadamente com quem pensava diferente. Certa vez, capitaneados pelo, hoje jornalista, Herman Marinho, com câmera e microfone de isopor, abordamos o Ministro da Educação que visitava o campus. Com bom humor protestamos e reivindicamos que o governo federal liberasse verbas para os laboratórios de comunicação da Ufam. Conseguimos, demorou um pouco mas o dinheiro foi enviado. Ninguém se preocupou se os membros da nossa turma eram socialistas, capitalistas, cristãos, budistas etc. Estávamos ali para estudar da melhor forma possível nas melhores condições possíveis.
Quando o DEBATE político virou COMBATE político?
Quando viramos uns “chatos” acreditando piamente que “tudo é política”? Esta frase se popularizou em movimentos intelectuais e culturais do século XX, especialmente influenciados por leituras marxistas, pós-estruturalistas e pela teoria crítica. Embora não exista consenso absoluto sobre um autor específico que a tenha formulado exatamente assim, pensadores como Michel Foucault ajudaram a consolidar a ideia de que relações de poder atravessam toda a vida social. Mais tarde, a máxima ganhou versões ainda mais radicais nas redes sociais: “Tudo o que você faz é um ato político.” O problema é que talvez tenhamos ido longe demais.
Houve um tempo em que política era apenas uma parte da vida da gente. Hoje, para muitos, ela se tornou a lente pela qual tudo é interpretado: amizades, filmes, músicas, futebol, religião, comida, humor, roupas, silêncio e até afetos. Não basta mais existir, é preciso sinalizar posição. O cotidiano foi ocupado por uma guerra simbólica permanente. E isso, me inquieta: em que momento deixamos de viver para começar a performar alinhamentos ideológicos?
O jurista alemão Carl Schmitt dizia:
“O conceito específico do político pode ser reduzido à distinção entre amigo e inimigo.”
Para ele, a política nasce quando o outro deixa de ser apenas diferente e passa a ser percebido como ameaça existencial. O problema é que, na era das redes sociais, essa lógica escapou das instituições e invadiu a vida cotidiana. Hoje, divergências banais frequentemente são tratadas como batalhas morais absolutas.
Não se discute mais apenas ideias. Julga-se caráter, humanidade e até dignidade com base em posicionamentos públicos.
E é aí que a política deixa de ser debate para se tornar identidade. A filósofa Hannah Arendt alertava:
“O sujeito ideal do totalitarismo não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem a distinção entre fato e ficção, verdadeiro e falso, deixou de existir.”
Arendt compreendia que regimes totalitários não começam apenas com violência física, mas com a destruição do espaço comum onde pessoas diferentes conseguem coexistir. Quando toda discordância vira escândalo moral, o diálogo desaparece. Surge então o fenômeno que ela chamava de isolamento político: indivíduos cercados de opinião, mas incapazes de verdadeira conversa. Curiosamente, nunca estivemos tão conectados e talvez nunca tenhamos sido tão incapazes de ouvir.
As redes sociais aceleraram esse processo ao transformar opinião em espetáculo. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han escreve em A Sociedade do Cansaço:
“A sociedade disciplinar é uma sociedade da negatividade. A sociedade do desempenho é uma sociedade da positividade.”
Na prática, isso significa que já não precisamos mais de censura explícita o tempo todo. As pessoas passaram a se vigiar espontaneamente. A cobrança agora vem do próprio grupo, da multidão digital, da necessidade permanente de aprovação pública. Han também descreve nossa época como uma sociedade da exposição. O silêncio se tornou suspeito. A neutralidade virou pecado. A dúvida passou a ser confundida com fraqueza intelectual. Não ter opinião imediata sobre tudo parece quase um crime social. E assim nasce uma estranha obrigação psicológica: a necessidade permanente de demonstrar virtude publicamente.
O problema é que a virtude performática raramente produz reflexão profunda. Ela produz pertencimento tribal. O filósofo francês Michel Foucault talvez enxergasse nisso uma mutação sofisticada do poder. Sua frase se tornou quase uma síntese do nosso tempo:
“O poder está em toda parte.”
Para Foucault, o poder moderno não age apenas pela repressão, mas pela vigilância contínua. As pessoas internalizam mecanismos de controle e passam a vigiar umas às outras e a si mesmas. Nas redes, cada postagem funciona como um pequeno tribunal moral. Todos observam. Todos julgam. Todos temem ser julgados. A consequência psicológica disso é devastadora: ansiedade social, autocensura, medo de exclusão e uma constante necessidade de aprovação simbólica. Não é coincidência que tanta gente hoje pareça exausta mesmo sem esforço físico real. Viver em estado permanente de vigilância emocional consome energia psíquica.
A política deixou de ocupar apenas parlamentos. Agora ocupa consciências.
E talvez exista algo ainda mais perigoso acontecendo: quando tudo se torna político, nada mais consegue permanecer humano. Relações afetivas se dissolvem por divergências ideológicas superficiais. Pessoas passam a enxergar o outro não como indivíduo complexo, mas como avatar de um grupo. A singularidade desaparece sob rótulos. É a substituição da pessoa pela categoria.
No fundo, a colonização ideológica da vida cotidiana produz um fenômeno silencioso: a incapacidade de enxergar a humanidade fora da própria bolha moral.
E aqui existe uma ironia cruel. Quanto mais as sociedades falam em diversidade, menos toleram divergência real. A pluralidade celebrada frequentemente é apenas estética, porque o pensamento precisa permanecer homogêneo para garantir aceitação social.
Arendt talvez chamasse isso de empobrecimento do espaço público.
Han provavelmente chamaria de fadiga da alma.
E Foucault enxergaria um sistema perfeito de autocontrole coletivo.
Talvez o maior sinal de maturidade intelectual hoje não seja gritar opiniões mais alto que os outros, tipo o “recua fascista, recua”, mas preservar a capacidade de pensar sem transformar cada aspecto da existência numa trincheira ideológica. Porque na sociedade onde tudo vira política, corre-se o risco de esquecer algo essencial: Antes de sermos militantes, eleitores ou perfis digitais… ainda somos seres humanos.
E você, amigo leitor, amiga leitora, já combateu e ficou sem falar com amigos e familiares por causa de posicionamento político ideológico? Eu já. Hoje me arrependo e lamento ter perdido amigos por isso. Já pensou sobre isso? Pensar faz bem!
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Este post tem 2 comentários
Menos Trincheira, Mais Humanidade
Meu amigo, que texto preciso e necessário para o momento atual. Você foi muito feliz ao puxar o fio da meada a partir daquele episódio na Ufam para diagnosticar a grande doença da nossa época: essa mania exaustiva de transformar tudo em combate e a vida em uma eterna performance de tribunal — o que, no limite, coloca em risco a integridade e a própria vida das pessoas.
Sua análise sobre o papel original da universidade e a LDB é impecável. O espaço acadêmico deveria ser o templo do conhecimento plural, mas o que vemos hoje, de ambos os lados, é uma caça juvenil por likes e palcos. Vivemos um momento perigoso em que os ignorantes ganharam voz e palanque por trás de telas e smartphones. Escondidos no anonimato, destilam ódio e agressividade sem nunca dar a cara a tapa. O resultado disso é trágico: os grandes pensadores e as mentes que realmente poderiam fazer a diferença preferem se calar para não ter que digerir comentários toscos.
Ler o seu relato sobre os tempos de protesto bem-humorado com o Herman Marinho dá uma saudade imensa de uma época em que divergir não significava aniquilar o outro.
A bagagem filosófica que você trouxe caiu como uma luva. Ficou muito claro como a política deixou de ser uma atividade e virou uma lente que distorce tudo: nossos afetos, nossas amizades e a nossa própria paz de espírito. Essa vigilância mútua nas redes e a necessidade de “sinalizar virtude” o tempo todo só servem para nos deixar exaustos. O debate foi engolido por um efeito manada que sequer pesquisa a fundo o que defende, mas se acha no direito de julgar, cancelar e destruir reputações e temas que têm relevância real para o mundo.
O seu texto me fez lembrar diretamente dos meus tempos de faculdade em Engenharia Elétrica. Mesmo em uma área exata e técnica, cansei de ver líderes partidários entrando nas salas de aula para “fazer a cabeça” dos estudantes, tentando moldar mentes antes mesmo que os jovens pudessem amadurecer o próprio pensamento crítico. Essa colonização do cotidiano que você descreve já dava as caras ali, onde deveríamos estar discutindo lógica e ciência.
Sua conclusão é um sopro de lucidez: quando tudo vira política, nada permanece humano. Preservar a capacidade de conversar, duvidar e pensar, sem se render à pressa das bolhas ou transformar a vida em uma trincheira ideológica, é o maior ato de maturidade dos nossos dias.
Obrigada por essa reflexão tão madura. No fim das contas, lembrar que somos seres humanos complexos antes de sermos “perfis digitais” é o que ainda nos salva. Parabéns pela escrita brilhante!
Warly, seu texto chegou num momento em que poucos ainda têm coragem de escrever o que você escreveu — com nome, com história e sem eufemismo. Formado na Ufam em 1995, você não fala de fora: fala de dentro, com a autoridade de quem viveu o campus quando debate ainda era debate, não combate. O diagnóstico é preciso. A LDB — Lei nº 9.394/1996, Art. 3º — é explícita: pluralismo de ideias, liberdade de aprender e ensinar, respeito à tolerância. O que você descreve acontecendo nas federais não é interpretação generosa da lei — é sua negação prática.
Quando um cartaz prega a morte de um deputado federal dentro de um prédio público financiado por todos os brasileiros, estamos diante de tipificação penal clara: Arts. 121, 147 e 286 do Código Penal. A reitoria que condena “invasores” mas silencia diante disso não pratica neutralidade — pratica escolha. E escolha tem nome.
Hannah Arendt já havia mapeado o terreno: quando a distinção entre fato e ficção desaparece, o totalitarismo não precisa de tanques — basta ocupar consciências. Byung-Chul Han completa o quadro em A Sociedade do Cansaço: a vigilância hoje é autoimposta, o tribunal é o grupo, e o silêncio virou suspeita. Foucault fecha o ciclo — o poder que se internaliza dispensa censura explícita. O que você chama de “performance de alinhamento” tem nome técnico: substituição da pessoa pela categoria.
Aí está o paradoxo cruel que você identificou com precisão — sociedades que gritam diversidade e não suportam divergência real. Você perdeu amigos por isso. Eu também conheço esse custo. A maturidade que você propõe no fechamento — pensar sem transformar tudo em trincheira — é exatamente o que as universidades deveriam ensinar primeiro. Antes de qualquer ideologia, o método. Antes do combate, o diálogo.