Pitaya e o ego dos gestores públicos

A pitaya, também chamada de fruto-do-dragão, é um fruto de cactos nativos de regiões da América Central e do México. Ela traz benefícios para o intestino, protege as células, fortalece a imunidade, controla o açúcar, cuida do coração e dá boa saciedade. Ela chegou ao Brasil e ocupou espaço nos supermercados de ricos. Por isso, talvez, quando foi anunciado que ela passou a ser incluída na merenda escolar da rede municipal de ensino de  Manaus, muita gente desdenhou. Políticos ricos principalmente. Até chamaram  de “mentiroso”, o prefeito David Almeida, na época, e  no primeiro debate eleições de 2026. de candidatos ao governo do Amazonas, na TV Band. A VERDADE É QUE TEM PITAYA SIM, NA MERENDA DAS CRIANÇAS.. Claro, no tempo de safra do fruto, junto com outros 27 ítens da agricultura regional e familiar, de acordo com as diretrizes da SEMED Manaus e do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Você tem dúvidas? Pergunte para a IA do Google: Tem pitaya na merenda das escolas municipais em Manaus? Veja a resposta.

Por que será que é difícil acreditar que uma política pública ofereça na merenda escolar  um “fruto” antes acessível só ao filho do rico? Por que políticos adversários correram para dizer que a ação tratava-se de uma mentira? Por que desqualificaram algo que é bom para a sociedade? O exemplo da pitaya mostra o quanto gestores públicos podem ser “desonestos”  quando fazem a descontinuidade de projetos, programas e obras iniciadas por adversários políticos.

Existe uma doença silenciosa na administração pública brasileira: a dificuldade de reconhecer o mérito de quem governou antes. Um prefeito assume e abandona projetos do antecessor. Um governador chega e muda programas que estavam funcionando. Um novo presidente revisa projetos, troca nomes, interrompe obras e começa outras. Às vezes, há razões técnicas para isso. Projetos podem ser ruins, contratos podem conter problemas e obras podem ter sido mal planejadas. Mas existe outra razão, muito menos nobre: “Foi o governo anterior que começou.” E então surge uma pergunta incômoda: quando uma obra é construída com dinheiro público, de quem ela é? Do prefeito? Do governador? Do presidente? Não. É do cidadão. O político apenas administra, durante alguns anos, recursos que não lhe pertencem. Talvez este seja o ponto que ainda não conseguimos compreender plenamente no Brasil: governo não é propriedade privada e mandato não é escritura de imóvel.

O conflito é perverso. Uma eleição ocorre a cada quatro anos. Uma ferrovia pode levar décadas para ser construída. Uma universidade atravessa gerações. Uma obra de saneamento pode exigir planejamento de longo prazo. Um sistema de transporte não pode ser pensado apenas até a próxima eleição. Mas o político precisa mostrar resultados dentro do mandato. Surge então uma tentação perigosa: priorizar aquilo que pode ser inaugurado, fotografado e transformado em propaganda eleitoral.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) alerta justamente para esse problema: ciclos eleitorais podem estimular governos a privilegiar projetos de alta visibilidade e retorno imediato, em detrimento de decisões sustentáveis de longo prazo. O cidadão precisa de infraestrutura. O político precisa de resultados eleitorais. Quando essas duas necessidades entram em conflito, quem costuma perder? O cidadão. Houve um tempo em que época de propaganda eleitoral durava até o resultado da eleição. Hoje os gestores vivem a “necessidade” de estar acompanhando pesquisas e índices de popularidade num ciclo de estar em “campanha eleitoral”, sem fim.

O italiano Nicolau Maquiavel (1469–1527), em O Príncipe, não estava escrevendo sobre prefeitos brasileiros do século XXI. Mas compreendeu algo permanente sobre a política: quem conquista o poder também precisa se preocupar em conservá-lo. O problema começa quando a lógica de conservação do poder invade a administração pública. Uma obra deixa de ser avaliada pela pergunta: “Ela é boa para a população?” E passa a ser avaliada por outra: “Quem vai levar o crédito?” É uma diferença gigantesca. No primeiro caso, temos administração pública. No segundo, temos marketing eleitoral.

O alemão Max Weber (1864–1920), um dos fundadores da sociologia moderna, mostrou a importância da autoridade racional-legal e das instituições burocráticas. A ideia fundamental é simples e revolucionária: o Estado precisa funcionar independentemente da personalidade de quem ocupa temporariamente o poder. Quando cada novo governante precisa começar tudo novamente, significa que o Estado ainda não possui memória suficiente.

Um país institucionalmente maduro não deveria perguntar: “Quem fez?” Deveria perguntar: “Funciona?” Se funciona, aperfeiçoa-se. Se não funciona, corrige-se. Se é inviável, abandona-se. Mas abandonar uma política simplesmente porque foi criada pelo adversário é outra coisa. É partidarizar o patrimônio público.

O Brasil convive com um fato que devia nos envergonhar. E aqui saímos da filosofia e chegamos aos números. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), até abril de 2025 havia 22.621 obras financiadas com recursos federais mapeadas, das quais 11.469 estavam paralisadas — 50,7% do total. Mais da metade. Educação e saúde concentravam aproximadamente 70% das paralisações.

E havia R$ 15,9 bilhões já investidos em obras que permaneciam paradas. É preciso fazer uma ressalva importante: o TCU não afirma que todas essas obras foram abandonadas por razões eleitorais. Existem problemas técnicos, financeiros, contratuais e administrativos. Mas os números permitem uma pergunta que não pode ser ignorada: quanto dinheiro público estamos desperdiçando porque não sabemos distinguir uma política de Estado de uma política de governo? Porque existe uma diferença enorme entre corrigir uma obra ruim e abandonar uma obra boa porque foi iniciada pelo adversário. A primeira atitude pode ser responsabilidade. A segunda pode ser irresponsabilidade.

O psicólogo Albert Bandura (Canadá/Estados Unidos, 1925–2021) estudou aquilo que chamou de desengajamento moral. Em termos simples, seres humanos conseguem encontrar justificativas para comportamentos que, em outras circunstâncias, reconheceriam como errados. Na política, isso pode produzir frases perigosas: “Não fui eu que parei.” “A obra era do governo anterior.” “O projeto não era nosso.” “Vamos começar outro.” Enquanto isso, o dinheiro já gasto permanece enterrado em concreto, estruturas inacabadas, equipamentos abandonados e contratos interrompidos. O curioso é que quase ninguém se sente responsável. Cada governo culpa o anterior. Cada gestão apresenta sua justificativa. E o cidadão paga. O desperdício público pode ser moralmente anestesiante porque o dinheiro não parece pertencer a ninguém. Mas pertence. Pertence a milhões de pessoas que pagam impostos.

O psicólogo Daniel Kahneman (Israel/Estados Unidos, 1934–2024), Nobel de Economia, mostrou em Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar como nossas decisões são influenciadas por vieses cognitivos. Um deles aparece de maneira particularmente perigosa na política: podemos avaliar uma ideia não pelo seu mérito, mas por quem a apresentou. Se foi o nosso grupo, é boa. Se foi o adversário, é ruim. É a lógica da torcida organizada aplicada à administração pública. Imagine o absurdo: uma ponte é tecnicamente necessária, economicamente viável e desejada pela população. Mas o projeto foi elaborado pelo adversário político. Então ele é abandonado. A ponte não mudou. A necessidade não mudou. O cidadão não mudou. Só mudou o prefeito. E isso basta?

A americana Elinor Ostrom (1933–2012), Nobel de Economia, mostrou em Governing the Commons a importância das instituições e das regras para administrar recursos coletivos. O economista americano Douglass North (1920–2015), também Nobel, estudou como as instituições moldam incentivos e comportamentos. As contribuições dos dois apontam para uma conclusão fundamental: não podemos construir um Estado eficiente esperando que todos os governantes sejam virtuosos. Precisamos de instituições que incentivem a continuidade responsável e dificultem o desperdício.

Um novo governante deveria ter liberdade para mudar políticas. Mas deveria também ser obrigado a justificar tecnicamente por que está abandonando um projeto que recebeu em andamento. Quanto já foi gasto? Quanto falta? Quanto custará abandonar? Quanto custará concluir? Quais serão os benefícios? Qual é a avaliação técnica independente? Se o dinheiro é público, a explicação também deveria ser pública.

O problema não é exclusivamente brasileiro. Democracias enfrentam o dilema entre ciclos eleitorais curtos e investimentos de longo prazo. A diferença está na capacidade institucional de preservar aquilo que interessa ao país. Singapura, por exemplo, trabalha com planejamento territorial de longo prazo e planejamento de infraestrutura que ultrapassa largamente os ciclos eleitorais. A Austrália utiliza avaliações independentes para estabelecer prioridades nacionais de infraestrutura em horizontes de aproximadamente dez anos. Não significa que esses países sejam perfeitos. Significa que compreenderam uma coisa essencial: a infraestrutura não pode ser planejada no ritmo de uma campanha eleitoral. Uma ferrovia não sabe quem ganhou a eleição. Uma rodovia não pertence ao partido que a construiu. Um hospital não pergunta em quem o paciente votou. E uma escola não deveria carregar a ideologia de quem colocou a primeira pedra.

Quando uma obra pública é abandonada, pensamos imediatamente no dinheiro desperdiçado. Mas existe um desperdício ainda maior: o tempo.

Dinheiro pode ser recuperado. Uma obra pode ser retomada. Um contrato pode ser refeito. Mas ninguém devolve ao país os dez ou quinze anos em que aquela infraestrutura poderia ter produzido riqueza. Enquanto governos discutem quem merece a fotografia da inauguração, o país perde produtividade. Enquanto trocamos nomes de programas, outros países aperfeiçoam os seus. Enquanto recomeçamos projetos, eles avançam etapas. E enquanto cada governo tenta escrever sua própria história, o Brasil permanece preso ao capítulo anterior.

Talvez devêssemos escrever uma frase na porta de cada prefeitura, governo estadual e ministério: A OBRA PÚBLICA NÃO TEM PARTIDO. Uma ponte não é de esquerda nem de direita. Uma ferrovia não é progressista nem conservadora. Saneamento não é liberal nem socialista. Hospital não tem ideologia. Educação não deveria ter dono eleitoral. Tudo isso pertence à sociedade. E quando um governante termina uma obra iniciada pelo antecessor, ele não deveria sentir vergonha de não ser o autor. Deveria sentir orgulho. Porque está dizendo: “Não importa quem começou. Importa que o povo precisava.” Isso é grandeza política.

Talvez o verdadeiro teste de maturidade de um político não seja sua capacidade de iniciar grandes obras. Seja sua capacidade de terminar uma boa obra que outro começou. Porque o governante que consegue colocar seu ego abaixo do interesse público compreendeu algo que muitos ainda não entenderam: mandato é empréstimo. O poder é temporário. O dinheiro não é dele. O patrimônio não é dele. A obra não é dele. A história também não. Tudo pertence à sociedade.

Por isso, talvez devêssemos parar de perguntar: “Quem fez?” E começar a perguntar: “Quem teve a responsabilidade de continuar?” Porque uma democracia madura não deveria premiar o político que destrói o legado do adversário. Deveria premiar aquele que olha para uma obra iniciada pelo outro e diz: “Se é boa para o povo, vou terminar.” Afinal, o prefeito passa. O governador passa. O presidente passa. A conta fica. E, no fim, quem sempre paga é o cidadão.

E você, gosta de pitaya? O que pensa da falta de compromisso com a causa pública dos nossos políticos gestores?

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