Obviamente que estou fazendo um trocadilho com o premiado romance do Milan Kundera- A insustentável leveza do ser, posto que o que pretendo escrever em nada se entrelaça com a história do autor.
Ser rico não é pecado porque ter é uma condição individual e social que está impregnada na vida humana. Porém, acumular bens, ter e apegar-se a eles de modo a que estes substituam as pessoas que nos rodeiam, se sobreponham à fé que abraçamos ou que estejam acima da nossa própria existência, isso sim, é um contra valor que corrói a alma e destrói as relações e nos impõe uma escravidão doentia que causa tristeza e dor.
Triste ficou o jovem rico do Evangelho que, decidido a seguir Jesus, quando confrontado a abandonar seus bens para a empreender a jornada ao lado do Salvador, seu coração se encheu de dúvidas e de profunda melancolia porque teria que deixar pra trás toda a sua riqueza. Mal sabia ele que a maior riqueza da sua vida estaria começando ali se renunciasse aos bens.
Os Evangelhos são pródigos em enaltecer a condição e valor humanos do despojamento e da pobreza material. Como único e vigoroso exemplo, extraio a passagem bíblica da viúva que depositou no altar a única moeda que tinha, numa renúncia material que agrada ao coração de Deus.
O que quero abordar nesse artigo é a incessante busca do ser humano para possuir as coisas, juntar riquezas e desfrutar da vida de modo inconsequente que leva à perdição da alma tendo em vista que, inexoravelmente, nada disso será aproveitado na vida celestial. Pior ainda, se para alcançar esse intento, vidas, instituições e projetos sejam prejudicados.
Lembro da lenda que se conta sobre os últimos desejos do Imperador Alexandre- O Grande durante seu cortejo fúnebre em que ele exigiu aos seus comandantes que suas mãos vazias seguissem balançando para fora do caixão e seu tesouro fosse espalhado ao longo do caminho, tudo para demonstrar que os bens materiais aqui permanecem e que de mãos vazias ficamos na hora da morte.
São João Crisóstomo, Bispo e grande pregador do cristianismo primitivo, dizia que “as riquezas pertencem a alguns para que estes possam adquirir méritos partilhando com os demais; elas vêm de Deus, de tal modo que também os necessitados possam fruir. O mal está no apego desmedido a essas riquezas e no desejo de açambarcá-las.”
No Livro dos Provérbios 15,16, está escrito:” Vale mais o pouco com temor do Senhor que um grande tesouro com inquietação.”
O que percebemos e vivenciamos hoje em todos os quadrantes da vida humana com relação à riqueza e a pobreza? Qual cenário se descortina para muitos diante do confronto entre o ser e ter? Qual desses dois sentidos da vida se sobressai mais e atrai mais mentes e corações?
São dúvidas e indagações cruéis com as quais nos deparamos rotineiramente mas que a grande maioria das criaturas de Deus prefere escolher o modo mais fácil porém temerário, buscando trilhar o caminho pelo atalho da riqueza material que deprime, da corrupção que destrói reputações, do poder que inebria a alma e suja a mente e da glória terrena efêmera que não leva a lugar algum.
Deixo para reflexão parte de um texto escrito por Santo Inácio de Loyola contido nos Exercícios Espirituais-Princípios e Fundamentos: “O homem foi criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus Nosso Senhor, e mediante isto, salvar a sua alma; as outras coisas sobre a face da Terra foram criadas para o homem, para que o ajudem a conseguir o fim para o qual foi criado. Donde se segue que o homem há de usar delas tanto quanto o ajudem para o seu fim, e tanto deve deixá-las quanto disso o impedem. Por isso é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre arbítrio e não lhe está proibido; de tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais. Mas somente desejemos e escolhamos o que mais nos conduz ao fim para o qual fomos criados”.
Definitivamente que a riqueza é uma condição humana cuja nobre função está destinada a produzir benefícios para os semelhantes e para a sociedade desde que exercida com altruísmo e sem vaidade ou arrogância.
E assim nos ensina Clemente de Alexandria-Teólogo cristão grego:”Como poderíamos fazer o bem ao próximo se todos não possuíssem nada?
Té logo!
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