A sabatina (parecendo mais uma inquisição, rs) de Augusto Cury, ao vivo, na bancada do jornal nacional movimentou a corrida eleitoral pela presidência do Brasil. Como gosto de fazer perguntas, eis as que me ocorreram: o Brasil está preparado para eleger alguém que não nasceu na política? Há ainda, uma pergunta mais importante do que saber se Augusto Cury será eleito presidente:
o brasileiro está preparado para escolher um presidente pelo que ele sabe e não apenas pelo lado político que representa? A pergunta pode incomodar, mas apenas àqueles que se propõem a realmente pensar no futuro da Nação. E talvez seja exatamente por isso que precise ser feita.
Augusto Cury entrou na corrida presidencial de 2026 como um personagem incomum na política brasileira. Médico psiquiatra, escritor, empresário e professor, construiu sua carreira longe dos partidos, dos gabinetes e dos cargos eletivos. Tornou-se conhecido por livros como Inteligência Multifocal (1999), Pais Brilhantes, Professores Fascinantes (2003), O Código da Inteligência (2008) e O Vendedor de Sonhos (2008–2009). Suas obras já foram publicadas em mais de 90 países. Agora tenta transformar capital intelectual e popularidade em capital político. E isso provoca uma questão legítima: ser intelectual torna alguém preparado para governar uma nação? Não. Assim como ser político profissional também não.
Políticos de berço tem EXPERIÊNCIA OU VELHOS VÍCIOS? Um político profissional conhece o jogo. Sabe negociar com o Congresso, construir alianças, administrar partidos, lidar com pesquisas e sobreviver às crises.Isso é importante. Mas experiência não é sinônimo automático de competência. Existe também a experiência de fazer a mesma coisa errada durante cinquenta anos. Max Weber, sociólogo alemão (1864–1920), em A Política como Vocação (1919), escreveu uma frase que deveria estar na parede de todo gabinete: “A política é uma forte e lenta perfuração de tábuas duras.” Ou seja: não basta ter boas ideias. É preciso saber transformá-las em realidade. É aí é que Cury terá de provar sua competência. Não nos livros. No governo.
POR QUE ELE COMEÇA A INCOMODAR? Cury começou pequeno e cresceu rapidamente nas pesquisas. Na pesquisa BTG/Nexus divulgada em 31 de agosto, chegou a 11%, nove pontos acima da rodada anterior. (www1.folha.uol.com.br). Quando um candidato deixa de ser irrelevante, os adversários deixam de rir. Começam a explicar. Depois começam a atacar. É política. Mas também é psicologia. Cury não se encaixa facilmente nas velhas caixas ideológicas. E isso incomoda. Direita. Esquerda. Centro. Bolsonaristas. Lulistas. Eleitores que estão cansados da polarização podem enxergar nele uma alternativa. E quando alguém ameaça romper uma divisão que organiza o jogo político, o sistema reage.
O francês Alexis de Tocqueville (1805–1859), em A Democracia na América (1835–1840), alertou para um fenômeno que continua atual: a pressão da maioria sobre quem pensa diferente. Hoje isso ganhou uma versão digital. Não basta ter uma opinião. É preciso ter a opinião “correta” para a sua tribo. Se você é de direita, a esquerda desconfia. Se é de esquerda, a direita desconfia. Se não é nem uma coisa nem outra, as duas desconfiam. A política deixou de ser apenas disputa de propostas. Transformou-se em disputa de identidade. E talvez esse seja um dos motivos pelos quais outsiders incomodam tanto: eles não obedecem ao roteiro.
Há quase 2.400 anos, o grego Platão (427–347 a.C.) colocou uma questão desconfortável em A República. Quem deveria governar? A resposta platônica ficou famosa: aqueles que possuem conhecimento e sabedoria deveriam estar preparados para governar. Na formulação clássica, Platão imagina uma cidade em que poder político e filosofia se encontram. O problema, para ele, era entregar o comando da cidade a pessoas apaixonadas pelo próprio poder. Platão escreveu: “Até que os filósofos sejam reis…” a cidade, segundo ele, permaneceria distante da verdadeira justiça.
É claro que não devemos transformar essa ideia em defesa de uma “ditadura dos intelectuais”. Seria absurdo. Democracia não é governo dos mais inteligentes. É governo legitimado pelos cidadãos. Mas existe uma provocação platônica que continua absolutamente atual: o que acontece quando aqueles que desejam governar são justamente os que menos deveriam desejar o poder? A política pode produzir uma inversão perversa. Em vez de o poder procurar os mais preparados, os mais preparados precisam aprender a disputar o poder dentro das regras daqueles que já o controlam. Outra provocação de Platão que continua atual é: por que aceitamos tão facilmente que alguém governe uma nação sem demonstrar conhecimento suficiente sobre os problemas que terá de enfrentar? E isso nos leva ao Brasil de 2026.
E O FATO DE CURY SER MILIONÁRIO? Também merece questionamento. Cury declarou patrimônio de aproximadamente R$ 242 milhões, o maior entre os presidenciáveis de 2026. Isso automaticamente o torna incapaz de representar o brasileiro? Não. Assim como ser pobre não transforma ninguém automaticamente em defensor dos pobres. Riqueza não determina caráter. E pobreza também não. O que importa é o projeto de país, a competência, a equipe, a trajetória, as convicções e, principalmente, a capacidade de transformar promessas em resultados.
O espanhol José Ortega y Gasset (1883–1955), em A Rebelião das Massas (1930), analisou a entrada das massas no centro da vida pública. Não estava simplesmente atacando o povo. Seu argumento era mais sofisticado. Ele estava preocupado com uma sociedade em que a opinião coletiva pudesse substituir o esforço individual de pensar. E aqui encontramos uma pergunta brutalmente contemporânea: o eleitor escolhe aquilo que realmente examinou ou aquilo que sua tribo lhe ensinou a considerar correto? Nas redes sociais, isso se tornou ainda mais grave. A política deixou de ser apenas disputa de propostas. Transformou-se em disputa de identidade. Não perguntamos: “Qual projeto é melhor?” Perguntamos: “De que lado você está?” E depois julgamos a proposta de acordo com a resposta.
O ELEITOR ESTÁ PREPARADO para votar em quem promete montar um ministério de notórias competências? Talvez essa seja a pergunta mais importante de todas. Porque o eleitor não deveria votar em Cury porque ele é intelectual. Nem rejeitá-lo porque é milionário. Não deveria votar nele porque está crescendo nas pesquisas. Nem rejeitá-lo porque incomoda a direita ou a esquerda. Deveria investigá-lo. E investigar todos os outros. A democracia não exige que tenhamos um candidato perfeito. Exige que tenhamos eleitores capazes de fazer perguntas difíceis.
Durante décadas, reclamamos que os políticos são sempre os mesmos. Depois reclamamos quando alguém de fora entra na política. Reclamamos que os políticos não estudam. Depois desconfiamos do intelectual. Reclamamos que os políticos se fingem de pobres. Depois desconfiamos de quem se apresenta como milionário. Reclamamos da falta de experiência. Depois reclamamos da velha política. Reclamamos da polarização. Depois atacamos quem tenta escapar dela. Afinal, o que queremos? Talvez o problema não esteja apenas nos candidatos.
Talvez esteja também nos critérios pelos quais escolhemos nossos candidatos.
Cury pode ser uma excelente alternativa. Pode estar superestimado. Pode crescer. Pode estacionar. Pode surpreender. Pode fracassar. Ainda não sabemos.
E é exatamente por isso que precisamos analisá-lo com seriedade. O perigo não é eleger um intelectual. O perigo é eleger alguém apenas porque gostamos dele. Talvez o verdadeiro teste das eleições de 2026 não seja saber se o Brasil escolherá Augusto Cury. Talvez seja descobrir se o brasileiro amadureceu o suficiente para avaliar candidatos sem transformar nenhum deles em ídolo. Porque uma democracia madura não pergunta: “Quem é o meu candidato?” Pergunta: “Quem está mais preparado para governar e quais provas tenho disso?” E fica uma última provocação: se um candidato de fora da política começa a crescer rapidamente, o problema não está no cansaço do eleitor com as figuras de sempre e seus discursos repetitivos há 50 anos? Ou será que deveríamos perguntar também: o que há de errado com uma política que precisa de décadas de profissão para produzir um candidato viável?
Por fim, o verdadeiro fator Augusto Cury, vai ser medido pelo tamanho eleitoral que vai chegar. De quem ele tira votos diante da polarização direita/esquerda? E como vai cooptar aquele eleitor da classe média que em 2013 foi pra rua exigir menos corrupção e melhores serviços públicos. Sim, porque este eleitor é acima de tudo antipetista. Bolsonaro surfou nessa onda. Mas nunca foi o candidato ideal de quem sonha ter no Brasil, políticos como os da Suécia ou Dinamarca, que vão pro trabalho de bicicleta e ganham um “salário normal” para a função. Aposto que o eleitor que não gosta de ser chamado de “Bolsonarista”, que está cansado dos escândalos e maus feitos, que desistiu de discutir ou pensar política é o que mais está olhando para Cury, neste momento.
E você? O que pensa sobre esta novidade na corrida eleitoral presidencial?
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Este post tem um comentário
O Apóstolo Paulo, diz que o dom que ele estava mais precisando, para que percebessem quem ele era ou era ele, é o discernimento.
Pois é: Salomão disse: quando o justo governa o povo transparece na sua alegria e quando é o ímpio e mesmo perverso, o povo geme. Gemendo já estamos, vomitando desprazeres de desilusões. Até quando? E do outro lado: que justo nos governam ou governaram? Chamem ou chamemos um sábio? E o perigo dele investido a governar se corrompa, sua atuação fora do seu Script prometido. É sério, vou votar orando e mesmo se errar, quero ser pronto a perdoar, não a dolosidadedo costume. E vamos lá.
Tenho dito.
CarlosPontes