Eu costumo dizer que Parintins (AM) é o lugar com a maior concentração de talentos por metro quadrado no planeta. Para onde você anda vai encontrar artesãos, artistas plásticos, desenhistas, escritores, compositores, cantores, atores, dançarinos etc. Ali sempre admirei o convívio com tanta criatividade. E em pouco tempo os parintinenses mostraram seu talento ao mundo. Talento acompanhado de muita simpatia, orgulho de suas raízes nos povos primários e grande autoestima. E amigos, pesquisem a diferença entre orgulho de suas raízes e autoestima, de “xenofobia”. Você vai constatar que a diferença é muito grande.
Aqui uso a querida gente parintinense como exemplo para introduzir uma reflexão, pois uma questão fundamental para o ser humano é acreditar em si mesmo, no seu potencial de crescimento. SER MELHOR como SER HUMANO e como SOCIEDADE. A pergunta é: O Brasil Aprendeu a Não Acreditar em Si Mesmo?
Em 1958, pouco antes de o Brasil conquistar sua primeira Copa do Mundo, o dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues (1912–1980) cunhou uma expressão que atravessaria gerações: “complexo de vira-lata”. Segundo ele,
“Por complexo de vira-latas entendo a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo.”
Passaram-se quase setenta anos. A pergunta permanece. Será que continuamos vivendo sob essa sombra? Ou pior: Será que nos acostumamos tanto ao fracasso que já não conseguimos imaginar um país diferente? O problema é que o “vira-lata” moderno já não abaixa apenas a cabeça diante do estrangeiro. Ele também desconfia do próprio vizinho. Da própria cidade. Da própria política. Da própria justiça. Da própria economia. E, pouco a pouco, deixa de acreditar que qualquer mudança seja possível.
Vivemos em um país cansado de um povo cansado. A Psicologia mostra que a autoestima não nasce apenas da personalidade. Ela depende das experiências repetidas. O psicólogo norte-americano Martin Seligman, considerado o fundador da Psicologia Positiva, desenvolveu o conceito de “desamparo aprendido” (learned helplessness), apresentado inicialmente na década de 1970 e aprofundado em sua obra Learned Optimism (1991). Sua tese é simples e poderosa: quando indivíduos experimentam repetidamente situações em que seus esforços parecem inúteis, acabam desistindo de tentar, mesmo quando a mudança se torna possível. Não porque sejam incapazes. Mas porque aprenderam que nada muda. Agora imagine uma sociedade inteira vivendo décadas de:
- escândalos políticos;
- inflação histórica;
- promessas nunca cumpridas;
- corrupção recorrente;
- serviços públicos precários;
- violência cotidiana.
Quanto tempo leva para uma população concluir: “Não adianta.”
Talvez seja exatamente isso que estejamos vendo.
Os dados são preocupantes. O Edelman Trust Barometer 2025 mostra um Brasil profundamente desconfiado. Cerca de 64% dos brasileiros afirmam sentir níveis moderados ou elevados de ressentimento em relação às instituições, enquanto apenas 34% acreditam que a próxima geração viverá melhor do que a atual.
Outro levantamento internacional, realizado pela Ipsos em 2025, mostra que aproximadamente dois terços dos brasileiros acreditam que a sociedade está em deterioração. Curiosamente, quando perguntados sobre a própria vida, a maioria declara estar satisfeita. Mas quando o assunto é o país… o pessimismo dispara. Ou seja, o brasileiro costuma confiar mais na família do que nas instituições. Mais na própria casa do que no Brasil.
Somos o eterno país do futuro? A expressão ganhou fama mundial graças ao escritor austríaco Stefan Zweig (1881–1942), autor do livro Brasil, País do Futuro (1941). Zweig via no Brasil uma nação jovem, miscigenada, rica em recursos naturais e aparentemente destinada a um grande protagonismo internacional. O problema é que o futuro nunca chega. Décadas passam. Planos econômicos passam. Governos passam. Reformas passam. E continuamos repetindo exatamente a mesma frase. Talvez porque o futuro tenha se tornado um lugar confortável. Enquanto ele permanece distante, ninguém precisa prestar contas pelo presente.
No contexto da nossa autoestima como Nação, a corrupção custa mais do que dinheiro. Costuma-se dizer que corrupção tira recursos da saúde, da educação e da infraestrutura. É verdade. Mas ela rouba algo ainda mais caro: A CONFIANÇA.
O cientista político nipo-americano Francis Fukuyama, em Trust: The Social Virtues and the Creation of Prosperity (1995), demonstra que sociedades economicamente desenvolvidas possuem um patrimônio invisível: altos níveis de confiança entre cidadãos, empresas e instituições. Quando essa confiança desaparece, cresce a burocracia. Cresce o custo dos contratos. Cresce a informalidade. Cresce a necessidade de fiscalização. Tudo fica mais caro. Até acreditar no outro. A corrupção, portanto, não destrói apenas estradas. Ela destrói capital social. E reconstruí-lo leva décadas.
Vivemos assim o círculo vicioso da desesperança. O cientista político e sociólogo norte-americano Robert Putnam, em Making Democracy Work: Civic Traditions in Modern Italy (1993), demonstrou que democracias sólidas dependem menos de leis perfeitas e mais da confiança, da cooperação e da participação da sociedade. Quando esses elementos desaparecem, a população deixa de participar. Depois deixa de acreditar. Depois deixa de cobrar. Por fim, deixa de sonhar. É quando nasce o cinismo. E o cinismo é perigoso. Porque faz parecer inteligente não acreditar em mais nada.
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreveu, em Assim Falou Zaratustra (1883–1885):
“A esperança é o pior dos males, porque prolonga o sofrimento dos homens.”
A frase costuma ser mal interpretada. Nietzsche não criticava a esperança verdadeira. Criticava a esperança passiva. Aquela que espera milagres. Que transfere responsabilidades. Que aguarda um salvador. Esperar que o próximo governo resolva tudo. Esperar que “alguém” faça. Sem que você mesmo faça nada.
Mais de dois mil anos antes, o filósofo grego Aristóteles, em Política (c. 330 a.C.), afirmava:
“O homem é, por natureza, um animal político.”
Não no sentido partidário. Mas porque depende da vida em comunidade. Quando a cidade adoece, o cidadão também adoece. Instituições ruins produzem hábitos ruins. E hábitos repetidos moldam o caráter coletivo.
A armadilha do “vira-latismo” é real e interessa somente a quem ganha muito com esse pensamento. Nisso é possível identificar um paradoxo curioso. O brasileiro costuma afirmar que o país não presta. Mas continua produzindo uma das agriculturas mais produtivas do planeta. É referência mundial em medicina tropical.
Construiu uma indústria aeronáutica reconhecida internacionalmente. É líder em diversas áreas de energia renovável. Possui uma cultura admirada em praticamente todos os continentes. O problema não parece ser falta de capacidade. Talvez seja falta de confiança coletiva. Nelson Rodrigues provavelmente diria hoje que nosso maior adversário não é outro país. É o espelho.
O Brasil está condenado ao atraso? Não. Mas também não existe destino garantido. O filósofo francês Montesquieu, em O Espírito das Leis (1748), escreveu uma das frases mais importantes da teoria política moderna:
“Para que não se possa abusar do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder limite o poder.”
Instituições fortes não surgem espontaneamente. São construídas. Fiscalizadas. Protegidas. Nenhuma nação prosperou sustentavelmente apenas com patriotismo. Nem apenas com crescimento econômico. As sociedades que enriqueceram combinaram educação de qualidade, segurança jurídica, responsabilidade fiscal, inovação, estabilidade institucional e uma cultura de confiança.
Talvez esse seja o verdadeiro desafio brasileiro. Reconstruir não apenas estradas. Mas expectativas. Não apenas contas públicas. Mas esperança racional.
Porque os países não fracassam apenas quando lhes falta dinheiro. Fracassam quando seu povo deixa de acreditar que vale a pena construir um futuro diferente. E talvez a pergunta que incomoda quem pensa e enxerga tanta coisa errada, não seja: “Por que o Brasil continua sendo o país do futuro?” Mas outra. Quando foi que começamos a aceitar que o futuro fosse sempre amanhã?
E você? O que você pensa sobre isso? Como está a sua autoestima de brasileiro?
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