O amor: do banco da praça aos apps de relacionamento

Começava com troca de olhares, um sorriso, um esbarrão sem querer na sala de aula ou na igreja, culto… Havia ainda os bailes, em aniversários de parentes ou amigos, com baladas românticas para dançar agarradinho ou pop rock com passos coreografados, tipo John Travolta no filme Embalos de Sábado a Noite, (rs). Demorava para chegar ao convite para ir ao cinema com pipoca. O primeiro beijo, então? Segurar na mão, um abraço prolongado… A sensação de “borboletas voando” no estômago antes de um encontro. Conversas intermináveis no banco da praça depois de um sorvete. Assim eram os namoros na minha época.

Hoje, com a internet ou sem ela, há uma sensação de que está mais difícil conseguir uma conexão amorosa verdadeira. As mulheres sofrem com homens atrás somente de sexo (como no tempo das cavernas) e mandando “nudes” de todo jeito. Para elas, até aceitar um pedido de “amizade” nas redes sociais já é confundido com abertura para assédio de gente sem noção, sem respeito e sem educação. Para nós, homens solteiros, divorciados, mais velhos…  Há o assédio de jovens vendendo fotos ou vídeos de sua nudez. Outras buscam um “Sugar Daddy” (pesquise, está na moda no Brasil e no mundo). E há os golpes financeiros, que abusam da boa fé e da solidão tanto de mulheres quanto de homens. Há muitos golpistas (homens) com falsos perfis de mulheres lindas em busca de homens carentes emocionais, para arrancar dinheiro.

Há ainda muitas “armadilhas” nos APPs de namoro e relacionamento. Perfis falsos e regras “caça níqueis”, tipo: compre “corações” ou “diamantes” para mandar mensagem. Ou assine a conta premium para ser visto. O primeiro aplicativo que teve alguma credibilidade foi o Tinder, um fenômeno mundial. Credibilidade perdida com o passar do tempo. O filme Deu Match: A Rainha de Apps de Namoro (título original Swiped, 1 e 2), lançado em setembro de 2025, conta a história real por trás dos aplicativos de relacionamento. Ele narra a trajetória de Whitney Wolfe Herd (interpretada por Lily James), cofundadora do Tinder, que, após enfrentar assédio e machismo no Vale do Silício, deixou a empresa para criar o Bumble, um aplicativo focado no empoderamento feminino.

“O amor é a tentativa de formar uma amizade inspirada pela beleza.” (Platão)

Talvez Platão jamais imaginasse que, séculos depois, a humanidade transformaria o amor em um catálogo infinito de rostos deslizando numa tela. Houve um tempo, como vivi e descrevi no início deste texto, em que as relações nasciam devagar. Olhares demorados. Conversas longas. Presença. Mistério. Construção. Hoje, muitos relacionamentos começam com um dedo deslizando sobre um aplicativo. Vivemos a era do amor instantâneo: rápido, visual, descartável, algorítmico.

A internet prometeu conectar pessoas. Mas talvez tenha apenas industrializado a solidão. Nunca houve tantas possibilidades de encontro. E nunca existiu tanta dificuldade em criar vínculos reais. Porque as redes sociais transformaram o afeto em vitrine. O desejo em produto. E seres humanos em mercadorias emocionais. O amor entrou na lógica do consumo: escolha, teste, use, descarte, substitua.

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, chamou isso de modernidade líquida. Em Amor Líquido, ele descreve relações frágeis, superficiais e facilmente substituíveis. Comprometer-se parece arriscado. Permanecer parece prisão. E aprofundar relações virou algo “emocionalmente cansativo”. A lógica do mercado contaminou até o afeto. Hoje, muitos não procuram alguém para construir uma vida. Procuram alguém que alivie momentaneamente o seu vazio existencial. E quando o encantamento acaba, desliza-se para o próximo perfil.

Os aplicativos de relacionamento transformaram pessoas em objetos de vitrines humanas. Fotos editadas. Frases estrategicamente calculadas. Personalidades resumidas em poucas linhas. Tudo precisa parecer interessante, desejável e vendável. Guy Debord, escritor, filósofo e cineasta francês,escreveu em A Sociedade do Espetáculo:

“Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação.”

Talvez nenhuma frase descreva melhor os relacionamentos modernos. As pessoas não se apaixonam apenas por pessoas. Apaixonam-se por personagens digitais cuidadosamente editados. Filtros suavizam rostos. Legendas simulam profundidade. Stories simulam felicidade. Perfis simulam autenticidade. Mas nenhum algoritmo sustenta intimidade verdadeira. A convivência destrói personagens. E muitos relacionamentos acabam exatamente quando os seres humanos reais aparecem. Erving Goffman, sociólogo canadense, em A Representação do Eu na Vida Cotidiana, dizia que a vida social funciona como um teatro. As redes sociais transformaram esse teatro em existência permanente. Hoje, muita gente já não sabe mais onde termina a própria personalidade e onde começa a versão criada para ser desejada. Uma curiosidade é que aquelas pessoas que se mostram autênticas são as mais rejeitadas. E são também as mais seletivas.

A internet, então, vende a ideia de liberdade total: tudo disponível, o tempo inteiro, sem espera, sem limites. Mas existe uma ironia cruel nisso: o excesso de disponibilidade destruiu o próprio desejo. Byung-Chul Han, filósofo e teórico cultural sul-coreano, afirma em A Agonia do Eros:

“O erotismo pressupõe a negatividade da distância.”

O desejo nasce do mistério. Da descoberta. Daquilo que não controlamos completamente. Mas a cultura digital transformou tudo em exposição imediata.

Corpos viraram vitrines. Intimidade virou conteúdo. Sedução virou marketing pessoal. E quando tudo é excessivamente mostrado, nada mais é profundamente descoberto. Talvez seja por isso que nunca houve tanta nudez e tão pouca intimidade. Nunca houve tanto sexo casual e tanta dificuldade em amar.

Assim nasceu a “economia da carência”. As redes sociais descobriram algo extremamente lucrativo: pessoas emocionalmente carentes permanecem mais tempo conectadas. A solidão virou mercado. Aplicativos monetizam a atenção. Influencers monetizam o desejo. Plataformas monetizam carência afetiva. Vivemos cercados de estímulos emocionais artificiais: mensagens instantâneas, aprovação rápida, falsas sensações de proximidade. Mas proximidade digital não significa intimidade emocional. Você pode conversar todos os dias com alguém e nunca ser verdadeiramente conhecido.

E é nesse cenário de solidão emocional que surgem os predadores afetivos. Golpistas modernos não roubam apenas dinheiro. Roubam esperança. Exploram: carência, abandono, fragilidade emocional, necessidade de pertencimento. Mulheres e homens apaixonam-se por pessoas que nunca existiram de verdade. Perfis falsos. Fotos roubadas. Promessas cuidadosamente manipuladas. Hannah Arendt, filósofa alemã, mostra que sociedades massificadas produzem indivíduos profundamente solitários e pessoas solitárias tornam-se mais vulneráveis à manipulação. O golpe afetivo moderno funciona porque a vítima não compra apenas uma mentira. Ela compra a esperança de não se sentir invisível.

Talvez a tragédia da nossa época seja esta: nunca tivemos tantos meios de comunicação e tão pouca capacidade de criar conexão verdadeira. Colecionamos matches. Mas desaprendemos encontros. Sabemos seduzir pela tela. Mas esquecemos como permanecer quando o encanto digital acaba.

A internet prometeu liberdade afetiva absoluta. Mas talvez tenha criado apenas uma geração emocionalmente cansada: hiperestimulada, superexposta

e profundamente solitária. Porque, no fundo, o ser humano não quer apenas atenção. Quer presença. E talvez exista algo profundamente simbólico nisso tudo: quanto mais moderna a tecnologia se torna, mais superficial fica nossa forma de amar.

Talvez o velho banco de praça tenha sido mais eficiente do que todos os algoritmos do Vale do Silício. Porque nele existia algo que as redes sociais não conseguem fabricar: silêncio compartilhado, timidez verdadeira, olhares sem filtros, tempo sem ansiedade e a possibilidade rara de alguém se apaixonar por quem você realmente era e não pela versão editada que você vende online. Talvez os grandes amores não tenham morrido por falta de tecnologia. Talvez tenham morrido pelo excesso dela. Vivi a época do namoro no banco da praça e vivo agora a dos algoritmos. Posso dizer: a diferença é brutal, nesta nossa busca pelo amor verdadeiro. Antes o critério era ser de boa família, estar estudando e saber conversar. Se conhecia uma pessoa, e a pedia em namoro para então conviver e tentar conhecê-la realmente em vários encontros. Hoje, respondemos páginas de perguntas sobre tudo, e não se conhece ninguém verdadeiramente, porque se negam ao encontro. E sem encontro não há conexão. E você? Já pensou sobre isso? Viveu os bons tempos? Está vivendo os novos? Qual sua opinião?

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