Minha mãe é uma peça

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Dona Lélia Derzy, minha mãe, filha de turco como ela mesma diz(meu avô que não tive a alegria de conhecer era um libanês desses ranzinzas chamado Christo Derzy um cristão novo) única viva de uma família de catorze irmãos e irmãs.

É uma criaturinha de pouco mais de 1,5m de altura, cabelo totalmente cor de prata (um DNA familiar), hoje aos noventa e cinco anos e ainda sob nosso convívio graças a Deus! Na tenra juventude foi interna em colégio de freiras, foi bancária, vendedora de roupas íntimas femininas, fez comida pra fora pois era uma exímia cozinheira, entre outras atividades que realizou pra ajudar o velho Sandoval meu saudoso pai (botafoguense dos bons), como um casal prolífico, no sustento dos nove filhos que “se criaram” como ela mesma fala.

Hoje, alquebrada pela Doença de Parkinson que a acomete há anos e em meio aos lampejos da memória que já a traem, Dona Lélia ainda consegue lembrar, para nossa alegria, de muitos fatos atuais e antigos quando estimulada.

Devoradora de livros, jornais diários, revistas e amante do indefectível radinho de pilha com o qual dormia escutando o cancioneiro popular, mamãe nos ensinou o dom da leitura quando a víamos por muitas vezes, lendo nos jornais do dia apenas pelo prazer de ler, notícias relevantes de política, esporte e variedades para nosso pai ao pé da velha espreguiçadeira(uma cadeira de madeira e tecido) que ele gostava de deitar pra descansar.

Quem convive e quem já experimentou gozar da doce convivência com minha mãe, sabe que é sempre uma alegria pois, em meio a um papo regado de reminiscências, sempre escapam alguns “nomes” como ela chama os impublicáveis palavrões que a nenhum filho pequeno, jovem ou até na idade adulta era permitido soltar e, até duros castigos eram infligidos a quem teimasse em desafiá-la. Mas, em um dado período da vida, ela abriu uma exceção, pasmém, para alguns netos, que ela mesma ensinava a exprimir, ainda assim mesmo, só alguns palavrões menos cabeludos.

Em meio a tantas qualidades e notáveis talentos que tinha quando mais nova(uma caligrafia linda, exímia datilógrafa, domínio das operações matemáticas e cozinheira de mão cheia como dito antes e conhecedora como ninguém, de cada corte de carne e cada peixe regional) mamãe era uma frasista de primeira pois, para cada situação séria ou prosaica, ela soltava “uma pérola” como ela mesma definia suas tiradas instantâneas.
São expressões, umas conhecidas e outras nem tanto, que além de sagazes, bem aplicadas e aconselhadoras, traduzem e denotam uma criatura ao mesmo tempo contraditoriamente religiosa e supersticiosa.

Para relembrar dessas frases, contei com a ajuda de irmãos e netos e, fiz uma regressão na memória, para pescar algumas delas usadas por Dona Lélia para diferentes situações quer familiares ou sociais do dia a dia. Deliciem-se:

1.Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz(não sair de casa com o perigo lá fora);

2.Deus me salve, Deus me livre dos meus inimigos, mal que me desejam em cima deles vejam!(dita sempre após um espirro e para espantar possíveis males);

3.Quem pariu Mateus que o embale(criar o filho dos outros);

4.Ferrabraz e coronel(alguns dos codinomes pra meu papai);

5.O que é de gosto regalo do peito(teimosia em fazer o que dá prazer);

6.O filho da puta tira o pai da forca(filho que nasce com a cara do pai que negava a paternidade);

7.Vida boa não quer pressa(sobre uma pessoa preguiçosa);

8.Não tem mais polícia!(ante qualquer situação em que alguém faz uma presepada ou quer aparecer);

9.Pior seria se pior fosse!(diante da reclamação de alguém sobre um infortúnio ou acidente);

10.Filho de turco(alguém sovina);

11.Filho és pai serás!(para um filho teimoso ou injusto);

12.Quando casar passa!(sobre as dores físicas ou psicológicas dos filhos quando crianças);

13.Essa alma quer reza!(alguém que chegava de mansinho agradando para pedir algo);

14.Isso mãe nossa! uma comprida e grossa.(uma chuva torrencial);

15.Fala por quantas juntas tem!(sobre alguém tagarela);

16.Quem é essa peça?(desdenhando de alguém estranho ou mesmo conhecido que não via há tempos);

17.Pode tirar o cabelinho da venta! (negando algo contrariando a vontade de um filho);

18.Nunca vi mais gorda!(ao ser apresentada a alguém que não conhecia);

19.Ele não bateu na mãe dele!(ante uma ameaça de alguém ou de um filho);

20.Filhos das minhas filhas meus netos são; dos meus filhos serão ou não!(ao dizer que nem sempre a paternidade por parte de um filho seria verdadeira);

21.Vai parecer assim lá na bica!(quando uma pessoa é muito parecida com outra);

22.Todo cuidado é pouco! (alertando alguém);

23.Deixa de presepada!(pra alguém fazendo palhaçada);

24.Lá onde o cão perdeu a espora!(lugar longe);

25.Corto um dedinho!(sobre a ameaça de um filho de contrariar suas ordens ou ameaçar ir embora);

26.Vão-se os anéis, ficam os dedos!(justificando a perda de algo aparentemente importante);

27.Farinha pouca meu pirão primeiro né?(sobre o egoísmo de alguém);
28.Vocês ainda não viram o cú da cotia assobiar!(conselho pros filhos diante de uma crise da qual duvidavam ou continuavam esbanjando);

29.O que não mata engorda!(comer ou tomar algo que não se gosta ou não se conhece);

30.Isso é uma cara ou é um cuscuz?(sobre alguém feio ou emburrado);

31.Depois vem com cara de Amélia!(para alguém que se arrependeu de um mal feito);

32. Desgraça pouca é tiquinho!(sobre fatos ruins que acontecem com alguém ou com um lugar);

33. Com quem casou minha filha?(tirando onda sobre escolhas erradas);

34. Deus fez e o diabo juntou!(sobre junção errada de duas pessoas ou duas coisas);

35. Pelas cinco chagas de Cristo!(lamentando a ocorrência de alguma desgraça);

36. Mas veja só o diabo!(sobre a artimanha perigosa de alguém);

37….faço uma ideia!(desdenhando de alguém ou de uma situação);

38. Isso é para filhos e netos!(se referindo às coisas duradouras especialmente sobre objetos ou construções que papai fazia);

39. Você ainda vai pagar o novo e o velho!(para alguém injusto ou que trai);

40. Vocês ainda não provaram da banda podre!(alertando os filhos para as dificuldades da vida);

E esta última, para mim de longe, a melhor de todas, e que carrego e recito tal qual um mantra do jeitinho e para o sentido que ela me disse sempre:

41.Olhem minha gente! vocês pensam que o mundo é perto?(aconselhando os filhos diante das dificuldades da vida para que estudassem e trabalhassem).

Essa é a sábia e prudente anciã, a nossa matriarca Dona Lélia, dos nossos cuidados, das nossas belas e ternas lembranças, dos bons conselhos, das orações familiares, das bênçãos necessárias, das gargalhadas felizes, dos nove filhos criados, dos mais de trinta netos e mais de trinta bisnetos.

Essa é a dona Lélia dos nossos amores recíprocos. Bença mãe!

Té logo!

*O autor é farmacêutico bioquímico e atual diretor-presidente da Fundação Hospital Alfredo da Matta

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