Manaus passou a integrar a rede de cidades que recebem projetos voltados ao fortalecimento da reciclagem e da economia circular. O lançamento conjunto dos projetos “Empreendedoras da Reciclagem” e “Paraísos Lixo Zero” aconteceu nesta segunda-feira (10), na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) e reuniu representantes de instituições, empresas, trabalhadores da reciclagem e organizações ambientais.
As duas iniciativas estão entre os projetos aprovados pela Lei de Incentivo à Reciclagem e chegam ao Amazonas com propostas diferentes, mas que se complementam. Enquanto o Empreendedoras da Reciclagem trabalha diretamente com mulheres que atuam na coleta e triagem de materiais recicláveis, o Paraísos Lixo Zero busca desenvolver ações para reduzir a presença de resíduos em territórios de importância ambiental.
O diretor de Assuntos Corporativos da Associação Brasileira de Latas de Alta Reciclabilidade (Abralatas), Guilherme Canielo, explicou que a escolha de Manaus também considera a importância da região para a cadeia de produção e reciclagem de latas de alumínio.
“A região é importante, estratégica. Então é muito natural que a gente possa ter um olhar especial para essa região e trazer para cá alguns projetos para estimular a reciclagem, em especial em Manaus”, afirmou.
Segundo Canielo, os projetos que começaram a ser executados em Manaus foram viabilizados a partir da campanha Impacto Circular, iniciativa da Abralatas que estimula empresas a destinarem recursos a projetos aprovados pela Lei de Incentivo à Reciclagem.
“Ano passado nós captamos recursos dos nossos associados para viabilizar dois projetos, o Empreendedoras da Reciclagem e o projeto Paraísos Lixo Zero, e hoje a gente marca o início da execução desses dois projetos”, explicou.
Capacitação para mulheres
O Empreendedoras da Reciclagem é desenvolvido pela SO+MA, startup brasileira que atua com soluções de mobilização e engajamento para estimular a economia circular. Em Manaus, o programa chega à quarta edição com a previsão de atender até 150 catadoras da capital e de municípios do entorno.
A iniciativa oferece nove semanas de capacitação, com encontros voltados tanto para questões profissionais quanto para temas relacionados à vida pessoal das participantes. Entre os assuntos estão empreendedorismo, gestão, comunicação, legislação, saúde mental e violência de gênero.
A fundadora da SO+MA, Cláudia Pires, conta que o programa foi criado a partir da percepção sobre a presença cada vez maior de mulheres na atividade de reciclagem.
“Hoje, 70% das pessoas que trabalham na catação são mulheres. A gente foi entender essa realidade e o programa inteiro foi construído por essas mulheres e para elas”, disse.
Para Cláudia, um dos principais objetivos é ajudar as participantes a reconhecerem o próprio trabalho como uma atividade empreendedora.
“A gente quer destravar o potencial dessas mulheres, para que elas entendam que são empreendedoras, que esses são pequenos negócios e que, se Deus quiser, vão ficar enormes negócios. Que elas possam cada vez mais entender o papel delas, o potencial delas e serem donas das próprias escolhas”, afirmou.
Entre as participantes está Rivoneide Alves da Silva, de 43 anos, que há cinco trabalha na Associação de Catadores Filhos e Filhas de Guadalupe. A atividade é hoje sua única fonte de renda. Ela conheceu o trabalho da associação por meio de um ponto de coleta instalado em sua comunidade e, desde então, passou a se envolver cada vez mais com a reciclagem.
“Hoje, com certeza, nós não vamos sair como entramos, vamos sair novas mulheres. Ele [o projeto] veio para nos mexer, motivar cada vez mais. Nós já éramos motivadas, mas hoje fez a gente despertar que a gente é capaz de muito mais”, contou, após participar das atividades do lançamento.
Para Rivoneide, trabalhar com reciclagem também significa cuidar do lugar onde vive. “Eu vejo a importância de nós cuidarmos da nossa casa comum. A gente tem que fazer algo, porque tudo está no extremo. Se nós não fizermos nada, não buscarmos fazer nada, vai piorar”, afirmou.
Proteção dos territórios
O segundo projeto lançado em Manaus é o Paraísos Lixo Zero, idealizado pelo Instituto Lixo Zero Brasil. A proposta é levar ações de educação ambiental, mobilização comunitária e economia circular a territórios de relevância ambiental e turística.
Segundo o presidente do Instituto Lixo Zero Brasil, Rodrigo Sabatini, Manaus foi escolhida pela relação da população com os rios e pela possibilidade de utilizar o turismo como ferramenta para estimular mudanças de comportamento.
“O turismo é um grande transformador de comportamento e pode ajudar nessa transformação. Aqui em Manaus, foi escolhido o território dos flutuantes, porque é algo singular, está no rio, que é a base da vida de vocês, onde está o transporte, onde a vida acontece”, explicou.
Segundo ele, a proposta é envolver moradores, empreendedores, instituições, cooperativas e poder público na busca por soluções para a redução e destinação adequada dos resíduos. O trabalho também deve incluir ações de educação ambiental, formação de multiplicadores e incentivo à separação e reciclagem dos materiais.
Para o diretor de Logística Reversa da Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat), Anderson Nassif, iniciativas como essas ajudam a aproximar as empresas dos trabalhadores que estão na ponta da cadeia da reciclagem.
“Falar da Lei de Incentivo à Reciclagem é trazer principalmente para o setor empresarial a importância dos catadores de materiais recicláveis nesse contexto. Hoje se fala muito em economia circular, se fala em ESG, e nada melhor do que incentivar ações ligadas à economia circular com a participação dos catadores”, afirmou.
Ele também destacou a presença das mulheres nas iniciativas lançadas em Manaus. “Fico muito feliz de ver projetos nascendo e, mais do que isso, sendo executados na prática”, disse.
Investimento em reciclagem
Além de marcar o início dos dois projetos em Manaus, o evento também lançou a edição 2026 da campanha Impacto Circular, da Abralatas. A iniciativa busca estimular empresas a investir em projetos aprovados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima por meio da Lei de Incentivo à Reciclagem.
De acordo com Guilherme Canielo, a campanha deste ano reúne inicialmente seis projetos que podem receber investimentos de empresas de diferentes regiões do país.
“São projetos que conciliam esse olhar setorial que nós temos com a importância de as empresas investirem nas suas comunidades locais. Inicialmente, a gente lançou a campanha com seis projetos, que podem ser executados em qualquer região, em qualquer município do Brasil”, explicou.
Em Manaus, os recursos destinados à campanha já resultaram no início das atividades do Empreendedoras da Reciclagem e do Paraísos Lixo Zero. A expectativa é que os projetos contribuam para fortalecer a atuação de catadores, ampliar a educação ambiental e criar soluções locais para a gestão dos resíduos, aproximando a reciclagem da realidade dos territórios amazônicos.
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