Linchamentos morais digitais

Mamãe queria que eu fosse padre… Sério gente, o sonho da Dona Marilene quando eu era adolescente era ter um filho a serviço da Igreja Católica. Rápido eu percebi que não era uma missão para mim. Meu pecado intransponível naquele momento: gostar muito de mulher, rs… Mas dediquei bons anos da minha vida às pastorais na Diocese de Parintins. Bons tempos, lindas experiências e um bom conhecimento das passagens da Bíblia.

Todos que conhecem a “Palavra de Deus” devem ter suas preferências no texto que foi, é e sempre será essencial para a Humanidade. Meu trecho preferido virou parte do ritual da missa. Jesus caminhava rodeado por seus discípulos e por muitas pessoas, curiosos, doentes em busca de cura, quando é parado por um oficial do exército romano. Este diz a Jesus que tem um empregado que crê firmemente nas palavras do Mestre e que é uma boa pessoa, mas que está muito doente. Jesus então se oferece para ir até ele. E o centurião romano então diz: SENHOR EU NÃO SOU DIGNO QUE ENTREIS EM MINHA MORADA, MAS DIZEI UMA SÓ PALAVRA E ELE SERÁ SALVO. E assim aquele bom homem foi curado por intervenção divina e do seu bom amigo romano. Essa é uma das maiores demonstrações de fé escritas na Bíblia.

Outra lição que gosto muito é quando pressionado por uma multidão julgando uma prostituta, pronta para apedrejá-la (como acontece até hoje em alguns países), Jesus se abaixa e escreve na terra: QUEM NÃO TIVER PECADO QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA. Ensinamento repetido na oração do Pai Nosso: “(…) perdoai os nossos pecados, assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido (…)”. Esta é uma premissa cristã (como a maioria) difícil de praticar. Fazemos julgamentos a todo momento sobre acontecimentos e pessoas. Na maioria das vezes em pensamento, com maldade ou não, mas com certeza sem o total conhecimento dos fatos. E hoje, o que faz a internet e as redes sociais? Criam a falsa sensação de “naturalidade” e “anonimato” para que se “julgue” o alheio, a questão alheia e situações alheias. Ampliando em milhares de vezes o que antigamente estava restrito a um grupo de fofoca.

Em 2022, o mundo assistiu a um dos julgamentos mais midiáticos da era das redes: o caso envolvendo o ator Johnny Depp e as acusações feitas por Amber Heard. Antes mesmo de qualquer decisão judicial definitiva, a internet já havia formado seus tribunais paralelos. Milhões de pessoas escolheram lados, produziram veredictos, ridicularizaram, defenderam, atacaram… Na maioria das vezes sem conhecer mais do que fragmentos do caso. Não foi apenas um julgamento jurídico. Foi um espetáculo global. No início Johnny Depp teve sua honra massacrada. No final, a reviravolta e Amber Heard foi escorraçada pela mídia e milhares de juízes da hora, a ponto de trocar de identidade, sair dos EUA e ir morar na Espanha anonimamente.

Esse fenômeno não é exatamente novo. O que é novo é a velocidade. O filósofo Friedrich Nietzsche, em Genealogia da Moral, alertava para o perigo daquilo que chamou de moral de rebanho, quando o indivíduo abandona o pensamento próprio e passa a agir movido pelo impulso coletivo. Em uma de suas observações mais famosas, Nietzsche escreveu:

“A loucura é rara nos indivíduos, mas nos grupos, partidos e multidões, é a regra.”

Nas redes sociais, muitas vezes vemos exatamente isso: multidões que julgam antes de compreender. A pensadora Hannah Arendt, ao estudar os mecanismos do totalitarismo em Origens do Totalitarismo, advertiu sobre um fenômeno ainda mais inquietante: a suspensão do pensamento crítico. Para ela, o grande perigo não é apenas a maldade consciente, mas a incapacidade de pensar por conta própria.

“O maior mal no mundo é cometido por pessoas que nunca decidiram ser boas ou más.”

Quando a multidão julga, o indivíduo muitas vezes deixa de refletir. Ele apenas repete. Nas redes sociais, porém, há outro elemento decisivo: o espetáculo.

O pensador francês Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, observou que a vida moderna tende a transformar tudo em representação pública. A política vira show. A intimidade vira conteúdo. E a indignação também. Cancelar alguém, hoje, rende aplausos virtuais. Cada curtida funciona como um pequeno prêmio moral.

Mas talvez a explicação mais profunda para os linchamentos públicos venha do antropólogo René Girard. Em O Bode Expiatório (está aí a origem do termo), ele descreveu um mecanismo antigo das sociedades humanas: quando tensões sociais se acumulam, as multidões frequentemente escolhem uma vítima simbólica para descarregar suas frustrações. A punição coletiva cria a ilusão de purificação moral. A multidão acredita que está restaurando a ordem. Na realidade, está apenas repetindo um ritual arcaico. A diferença é que, no passado, esses rituais aconteciam nas praças públicas. Hoje acontecem nas redes sociais diante de milhões de espectadores. Nunca foi tão fácil participar de um apedrejamento.

E talvez por isso uma pergunta pertinente no nosso tempo não seja apenas quem está sendo julgado, mas quem está julgando. Porque a história mostra que as multidões quase nunca são boas juízas. Elas são rápidas demais para compreender, emocionais demais para ponderar e numerosas demais para assumir responsabilidade.Talvez por isso valha recordar uma advertência do filósofo Søren Kierkegaard, que escreveu em O Diário de um Sedutor e em seus ensaios sobre a modernidade:

“A multidão é a mentira.”

Quando todos gritam ao mesmo tempo, a verdade costuma desaparecer no ruído. E em uma época em que qualquer pessoa pode participar de um tribunal digital, talvez a questão mais urgente não seja quem será o próximo acusado. A pergunta mais perigosa é outra: quando a multidão pede uma vítima, quem terá coragem de não atirar a primeira pedra?

O julgamento de Johnny Depp e Amber Heard passou… A bola da vez agora volta a ser o Rei do Pop, Michael Jackson, que por causa do lançamento da primeira parte da sua cinebiografia, volta aos bancos dos réus digitalmente. Os julgamentos já desfilam no “feed”. Os juízes? Gente que só sabe o que saiu nos tablóides de fofoca da época, todos ávidos por venda de  exemplares. A verdade? Esta não importa muito. E  você? Se diz cristão, mas atira pedras na vida alheia todos os dias na internet?

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Este post tem 2 comentários

  1. Adão José Gomes

    Warly, texto raro. Você costurou Nietzsche, Hannah Arendt e o Evangelho com uma precisão que a maioria dos analistas digitais não consegue. A imagem do bode expiatório de Girard aplicada aos tribunais das redes é perfeita — antiga no ritual, nova na velocidade. E a pergunta final ficou cravada: quem tem coragem de não atirar a primeira pedra? Parabéns pelo texto.

  2. MARCIA ANGELICA MARQUES BENTES VILAR

    É uma contradição antiga e profundamente humana. A fé cristã, no seu núcleo, propõe humildade, compaixão e consciência das próprias falhas. Mas, na prática, muitas vezes ela é vivida como um instrumento de julgamento do outro, não de transformação pessoal.
    Existe uma passagem bem conhecida em que se diz, em essência: quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra. A ideia não é relativizar tudo, mas lembrar que ninguém está em posição de superioridade moral absoluta. Quando alguém usa a fé para apontar, condenar e diminuir o outro, frequentemente está esquecendo que a mesma régua também se aplica a si.
    Julgar pode até dar uma sensação momentânea de controle ou de “estar certo”, mas raramente constrói algo. Pelo contrário, afasta, endurece relações e cria uma imagem da fé mais ligada ao medo e à culpa do que ao amor e à transformação.
    Também vale observar que é mais fácil olhar para fora do que para dentro. Criticar o outro exige menos esforço do que reconhecer as próprias limitações, inseguranças ou incoerências. Nesse sentido, o julgamento pode funcionar quase como uma distração
    uma forma de evitar o confronto consigo mesmo.
    Por outro lado, viver a fé de forma mais coerente não significa concordar com tudo ou abandonar valores, mas sim agir com empatia, responsabilidade e consciência de que cada pessoa está em um processo diferente.
    No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja “quem está errado?”, mas “como eu estou vivendo aquilo que digo acreditar?”.

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