Internet: você escolhe ou é escolhido?

O ano era 2004, em São Paulo, numa feira pós Feira NBA de Las Vegas, e eu ouvi uma previsão que nunca esqueci. A NBA – National Broadcasting Association (USA), além da associação, dá o nome de uma exposição mundial que acontece nos Estados Unidos, todos os anos, onde são apresentadas as inovações tecnológicas de Cinema, TV, Rádio, Satélite etc. Em São Paulo, naquele ano, participamos de uma oficina com especialistas brasileiros (que estão entre os melhores do mundo): engenheiros de Televisão, publicitários e pensadores da comunicação. O tema era “Inovações Tecnológicas e o Futuro da Publicidade”, e ali, naquele dia eu vi os debatedores prevendo e acertando o que vivemos hoje na onda dos algoritmos das redes sociais.

O que eles previram? Como acontece hoje, se quisermos assistir a um filme de graça no streaming, apesar de pagar a assinatura, somos obrigados a assistir alguns segundos de propaganda. Acertaram em cheio, né? Ainda hoje podemos evitar ver os “comerciais”, na TV aberta, nos intervalos de novela. Basta ir tomar um copo d’água. Mas eles estão lá “pagando a conta” das produções com seus anúncios. Escolhemos assistir, prestar atenção ou não. Mas no streaming há interrupção do filme, da série, do documentário e você é “obrigado” a ver e ouvir a mensagem do anunciante.

Nas redes sociais, se você busca uma única vez por um produto ou serviço, na sequência você é bombardeado por ofertas de diferentes fabricantes ou prestadores de serviço por um bom tempo ou até você fazer outra busca. E o ciclo se repete. Somos obrigados a ver dezenas de ofertas do que buscamos por último. Isso me levou a pensar e perguntar: na internet, você escolhe ou é escolhido? Vivemos a tirania do algoritmo? 

Todos os dias, bilhões de pessoas abrem redes sociais, assistem vídeos, leem notícias, compram produtos e formam opiniões convencidas de que estão exercendo sua liberdade. Afinal, ninguém aponta uma arma para nossa cabeça e nos obriga a clicar em algo. Mas e se a pergunta mais importante do século XXI não for “o que você escolheu?”, mas “quem influenciou sua escolha?”

A liberdade sempre foi um dos valores mais celebrados da civilização ocidental. No entanto, talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir entre uma escolha genuinamente nossa e uma escolha cuidadosamente induzida. O filósofo francês Michel Foucault observou, em Vigiar e Punir:

“A visibilidade é uma armadilha.”

Ele se referia às formas de vigilância que moldam comportamentos sem necessidade de força física. Décadas depois, essa observação parece assustadoramente atual. Hoje não somos observados apenas por governos ou instituições. Somos observados por plataformas digitais, aplicativos, mecanismos de busca e sistemas de inteligência artificial que registram cada clique, cada curtida, cada segundo de atenção. O objetivo não é apenas nos conhecer. É nos prever. E, se possível, nos influenciar.

A pesquisadora, filósofa e socióloga americana Shoshana Zuboff chamou esse fenômeno de capitalismo de vigilância. Em sua obra mais conhecida, escreveu:

“O capitalismo de vigilância reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais ocultas.”

Em outras palavras, nossos hábitos se tornaram um produto. Nossas emoções se tornaram um produto. Nossa atenção se tornou um produto. E os algoritmos são as máquinas encarregadas de transformar tudo isso em lucro. O problema é que eles não trabalham apenas mostrando aquilo de que gostamos. Eles aprendem aquilo que nos prende. Aquilo que nos revolta. Aquilo que nos assusta. Aquilo que nos mantém olhando para a tela.

O psicólogo e filósofo social estadunidense, B. F. Skinner, muito antes da internet existir, demonstrou que recompensas imprevisíveis criam comportamentos extremamente difíceis de abandonar. Não é por acaso que deslizamos o dedo para atualizar um feed da mesma forma que alguém puxa a alavanca de uma máquina caça-níqueis. A próxima recompensa pode estar logo abaixo. A próxima curtida. O próximo vídeo. A próxima indignação. A próxima dose de dopamina.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han oferece uma das análises mais inquietantes desse cenário. Em Psicopolítica, afirma:

“O sujeito do desempenho explora a si mesmo acreditando que está se realizando.”

A frase é preocupante porque revela uma mudança histórica. Antigamente, o poder controlava proibindo. Hoje, controla estimulando. Não é preciso censurar. Basta direcionar. Não é preciso obrigar. Basta sugerir. Não é preciso prender. Basta capturar a atenção.

O mais impressionante é que tudo isso acontece sob a aparência da liberdade. Escolhemos o vídeo. Escolhemos a notícia. Escolhemos o candidato. Escolhemos o produto. Mas quantas dessas escolhas nasceram realmente de nós?

O sociólogo francês Jean Baudrillard alertava que as sociedades modernas vivem cercadas por simulações. Não consumimos apenas informações; consumimos versões cuidadosamente construídas da realidade. Os algoritmos aperfeiçoaram esse processo. Cada pessoa recebe um mundo diferente. Duas pessoas pesquisam o mesmo tema e encontram conteúdos diferentes. Recebem notícias diferentes. Vivem em realidades digitais diferentes. E, aos poucos, passam a acreditar que a sua versão do mundo é o próprio mundo. Talvez seja por isso que nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão divididos. Nunca tivemos tanto acesso à informação e tanta dificuldade para distinguir informação de manipulação.

Nunca falamos tanto sobre liberdade (alguns equivocados defendendo ideologias que só funcionam em ditaduras), enquanto entregamos voluntariamente nossos dados, hábitos, preferências e emoções. A grande ironia é que o século XXI não produziu uma nova forma de escravidão baseada em correntes. Produziu algo muito mais sofisticado. Uma forma de controle que funciona porque parece liberdade.

Como em todos os meus artigos, deixo aqui uma pergunta que deveria nos inquietar: Quando foi a última vez que você mudou de opinião porque refletiu profundamente sobre um assunto  e não porque um algoritmo decidiu o que você veria durante semanas?

Talvez o verdadeiro poder do nosso tempo não esteja em controlar o que as pessoas pensam. Talvez esteja em controlar aquilo sobre o qual elas pensam. Porque quem escolhe os assuntos da conversa já está muito perto de escolher as conclusões. E talvez a tirania mais eficiente da história seja justamente aquela que faz seus súditos acreditarem que são completamente livres.

E você, já havia prestado atenção para as “ofertas” nas suas redes? Qual a sua opinião?

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