Insegurança alimentar 

O título desse artigo não tem o condão de se contrapor àquilo que se entende como “dar condições para que as populações mais carentes tenham acesso à comida”.

Na verdade, vou tratar do modo como nossas populações interioranas são submetidas ao acesso e ao consumo de alimentos, sem a menor observância das boas práticas de conservação, proteção, transporte e armazenamento, especialmente de produtos perecíveis ou não, os quais exigem essas condições até seu destino e consumo finais.

Tenho viajado muito e conhecido nosso interior como nunca antes, pois as obrigações do cargo que ocupo exigem de mim.

Chegando e me hospedando em alguns desses municípios, tem me chamado atenção  a forma como são transportados e armazenados produtos alimentícios especialmente os que exigem câmaras frias ou baixa temperatura para acondicionamento.

Em determinado município do Alto Rio Negro, meu trabalho era dentro de uma UBS fluvial.

Ali estando, pude observar uma cena além de curiosa, preocupante e lamentável.

Por dois dias seguidos, em horários distintos, uma balsa enorme ancorada ao lado da unidade fluvial de saúde, estava sendo abastecida de frango, refrigerantes e outros produtos alimentícios.

Sob um sol escaldante, as caixas de frango feitas de papelão e cobertas por um plástico, eram desmontadas e os frangos armazenados em caixas de isopor sem gelo e empilhadas umas por sobre as outras.

Os pacotes de refrigerantes em garrafas PET eram igualmente empilhados diretamente sob o solo de aço da balsa com temperatura de fritar um ovo de tão quente.

Ao final do carregamento, uma grossa lona plástica foi estendida sobre as caixas empilhadas, o que geraria muito mais calor aos produtos.

Perguntei a um dos carregadores para onde iriam aqueles alimentos e a reposta foi que a balsa viajaria pelo Rio Negro por mais seis dias até seu destino final.

Imaginem vocês meus leitores com que condições esses alimentos perecíveis ou não chegariam até serem consumidos?

Certa feita, em outro município do médio Solimões por volta das dez horas da manhã, estava eu no aguardo do barco que me transportaria a outro lugar e observei, sob a beira do porto flutuante feito de aço, diversas pilhas de caixas de calabresa e salsicha.

Ali fiquei por cerca de pelo menos uma hora até que alguns carregadores começaram a recolher as caixas que tinham vindo de Manaus e as colocavam sob pick-ups diretamente na caçamba.

A maior e mais preocupante surpresa, foi saber que esses produtos já totalmente resfriados, haviam chagado na noite anterior e foram descarregados ali e permaneceram por horas sob o solo quente de aço.

Em outro município vi com esses olhos que a terra há de comer, que cerveja, arroz, feijão, macarrão, óleo, enlatados, leite em embalagem tetra pak, leite em pó, bolachas e dezenas de outros produtos de consumo alimentar, chegaram ali depois de dias e até semanas de viagem.

Vieram transportados sob condições absolutamente inapropriadas, sem climatização ou sob ventilação inadequadas, às vezes, até sob chuva ou diretamente sob o sol.

Vá ver, que é dessa mesma forma que os medicamentos e outros produtos para saúde são transportados e chegam para abastecer as drogarias e até os hospitais púbicos. Mas esse já tema para outro artigo.

Só Deus na causa para proteger nossas populações interioranas das doenças gastrointestinais, das intoxicações e intolerâncias alimentares e dos perigos de outras síndromes caudadas pelo consumo de produtos estragados ou vencidos.

Por falar em produtos vencidos, ao viisitar supermercados, feiras e mercearias nos municípios, a constatação é assustadora pois isso parece não ser algo levado em consideração no interior.

A maioria desses estabelecimentos estão nem aí para a observância desse imperioso critério de natureza legal e sanitária pois expõem e vendem abertamente produtos vencidos e estragados.

Pobre do nosso povo interiorano sem fiscalização, sem proteção e sem os cuidados do poder público a lhe proteger contra esse descalabro.

Resultado dessa triste realidade? Mais gente adoecendo, mais gastos com a saúde pública, mais leitos de internação sendo necessários e maior absenteísmo no trabalho gerando mais custos ao estado e ao país.

Outra vertente relacionada à questão alimentar pude observar nas feiras e mercados municipais.

Frutas, legumes, verduras, queijos e derivados e outros produtos alimentícios os quais não são produzidos no interior, são expostos e vendidos nas bancas, sem as mínimas condições de armazenamento e acondicionamento.

A maioria já perdeu as propriedades alimentares, estão estragadas ou vencidas e mais prejudicam do que contribuem para uma boa alimentação da nossa gente.

Aliás, nossa gente interiorana despreza completamente o consumo de proteína de origem animal própria e abundante dos rios e da caça controlada ou nem mais planta nem cultiva hortaliças e outras verduras e frutas regionais pois prefere a facilidade de adquirir produtos importados ou industrializados mesmo que isso lhe traga perigo à saúde ou nem lhe agregue nenhum valor alimentar.

Nas viagens pelo interior de longa duração, a alimentação proteica é totalmente carne vermelha ou frango.

Nosso peixe, alimento tão vigoroso e mais saudável, cedeu lugar para uma alimentação exótica, nada confiável e mais cara.

Até a goma da tapioca cedeu lugar para a fécula de mandioca industrializada. Credo!

Essa virada alimentar é algo irreversível pois nossas autoridades cruzaram os braços na educação baseada no regionalismo alimentar e, nossa gente, desgraçadamente, se acostumou em consumir produtos industrializados pois estes estão sob seu melhor e mais fácil alcance.

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