História de resiliência: casal que veio do interior esperou 22 anos para ter o documento do imóvel em que moram, aonde chegaram quando ainda não havia energia nem asfalto

A história de Leidevane Lourenço e José Assunção ganhou mais um capítulo feliz nesta quarta-feira (03/06). Há 22 anos morando no bairro Gilberto Mestrinho, o casal de idosos não tinha mais esperanças de conseguir o título definitivo da casa onde moram. Com a chegada da ação da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) ao bairro, o sonho da regularização do terreno virou realidade.  

Desde o início das atividades do projeto “Meu Pedaço de Chão”, coordenado pelo Núcleo de Moradia e Atendimento Fundiário (Numaf), mais de 2,5 mil atendimentos de regularização já foram realizados. Para o defensor público e coordenador do núcleo, Thiago Rosas, os números refletem também a confiança da população no trabalho da instituição. 

“A Defensoria Pública nasceu para atender os mais vulnerabilizados. Hoje atendemos a Leidevane e o José, que tinham esse sonho de ter o documento que comprova que a casa é deles. A gratuidade da Instituição é o principal traço que nos aproxima da população mais vulnerável e hoje alcançamos mais uma vez esse público”, disse o defensor público.  

A busca pelo título definitivo

Quando saiu de São Sebastião do Uatumã e veio para Manaus, em 2004, Leidevane Lourenço, de 67 anos, sonha uma vida melhor para ela, o marido e os quatro filhos. Sem recursos para morar nas áreas mais centrais, a família se mudou para o bairro Gilberto Mestrinho e começou a construção da casa onde vivem até hoje.  

A idosa lembra que, quando chegaram ao local, a rua ainda não era asfaltada e a iluminação existia apenas nas vias principais, uma característica comum das grandes ocupações irregulares da capital. Atualmente, 22 anos depois, as ruas já têm asfaltamento e iluminação, mas para a família ainda falta o principal: o título definitivo da casa. 

“Vivemos com um salário-mínimo apenas e é difícil, no final do mês, saber o que a gente vai fazer com esse dinheiro, porque não sobra quase nada. Procurar uma ajuda particular, como um advogado, nunca foi uma opção para a gente”, afirmou.  

Com a ajuda de um dos filhos, Leidevane acordou cedo e trouxe o marido para participar desse momento especial. Há três anos, José Assunção, de 90 anos, foi diagnosticado com Alzheimer e enfrenta dificuldades na fala, além da perda gradual da memória.  

Para a família, ainda que o idoso não consiga se lembrar da luta que passaram para chegar até a entrada do título definitivo, o momento simbolizou uma oportunidade de criar uma memória feliz para ele e para todos.  

“Mesmo com a dificuldade para se locomover com ele por causa da cadeira de rodas, estamos aqui na ação. Sempre foi um sonho e eu nem sabia por onde começar, porque não posso deixar ele sozinho e saio quando é preciso, como hoje, que a ação veio aqui pertinho da gente”, disse.  

Sem conseguir segurar a emoção, Leidevane fala da sensação de alívio por ter conseguido realizar esse primeiro passo para a regularização do terreno.  

“Estava com o coração na mão. Fiquei muito feliz, era o meu sonho, sonho dos meus filhos. Não sei nem dizer exatamente o que vou sentir quando o papel do título chegar até as minhas mãos, mas sei dizer que o que o está acontecendo aqui hoje é muito importante e a emoção é muito grande”, concluiu.  

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